Diálogos em pintura

Foto: Rochele Zandavalli/ Secom
Arte | Intercâmbio entre artistas e com outras expressões artísticas marcam o momento da pintura

Sozinho em seu ateliê, o pintor concentra-se na imagem que faz surgir sobre a tela. Introspectivo, usa tons, cores e texturas para expressar no exterior suas emoções, sua linguagem e, assim, criar uma peça que pretende sensibilizar quem a observe. A imagem do artista solitário, mais em contato com seu ateliê e universo interior do que com ‘o mundo lá fora’, foi retratada inúmeras vezes em obras de arte, inclusive na própria pintura, e é bastante verossímil. Um cenário que cria uma dualidade muito forte. O diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, Francisco Dalcol, observa que a dinâmica de criação do artista é uma forma de resistência ao ritmo da vida moderna. “Algo importante da pintura, em termos contemporâneos, de uma sociedade hipermediada por telas e dispositivos, é que ela convoca tanto o artista quanto o público para um outro espaço-tempo. E também resgata o aspecto manual, artesanal, em um tempo tão automatizado, imediato. Ela demanda um tempo de observar e parar, de voltar a esse vagar. A pintura se mostra essencialmente um ato político no nosso contexto histórico de hoje.”

Já a professora do Instituto de Artes da UFRGS e artista Marilice Corona pondera que fugir do isolamento pode gerar um crescimento importante para o pintor. Graduada em Artes Visuais pela UFRGS em 1988, conta que desde a época de graduação tentava criar um espaço para estudo e produção coletiva em pintura, mas só a partir de 2015, em diálogo com alguns alunos do IA, começa a surgir um embrião do que hoje é o Atelier Aberto Studio P. “A pintura é um trabalho isolado do artista em seu ateliê. É muito difícil ter um coletivo. Quando se pensa nesse conceito, se pensa em grafite. Mas como é fazer um grupo que tem ações coletivas, mantendo o trabalho independente de cada um, com o grupo ajudando a ir pra frente? Essa experiência trouxe o que queria naquela época e nunca consegui com meus colegas. Foi uma maneira de criar uma interlocução com alunos e ex-alunos, alguns artistas atuantes na cidade. O grupo surge de uma necessidade de não se restringir às disciplinas. Depois de terminar a graduação, os alunos do IA vão cada um para seu ateliê e se encerra a interlocução, fica um trabalho muito sozinho. É um espaço pra estudar a pintura, ter um lugar pra discutir o trabalho, ler algumas coisas e continuar estudando pintura, para quem é interessado na relação da linguagem com outros meios.”

Andressa Lawisch, estudante do IA e participante do Studio P, corrobora essa visão: “O grupo todo vai se apoiando, e isso ajuda a ver o próprio trabalho, ter um distanciamento que às vezes é necessário. A gente fica junto com o grupo, e vê algo que acha interessante e usa no próprio trabalho. Às vezes uma simples pergunta, um questionamento de alguém te faz ir pra casa refletindo”. Essa é uma dinâmica que foi determinante para solucionar um impasse criativo do também integrante do coletivo Antonio Vasques: “No ateliê aberto consegui sair de uma visão restrita do que achava que precisava fazer. Me libertei temática e tecnicamente. Poderíamos pensar que o trabalho iria se misturar e acabaríamos fazendo coisas parecidas, mas a verdade é que a gente consegue entrar melhor na nossa individualidade artística, e com o grupo ajudando, porque não tem lógica de competição, mas de colaboração”. Resultado: depois de três anos, finalizou o Trabalho de Conclusão de Curso e se graduou em Artes Visuais.

Hibridismo

A própria pintura vive um momento de ruptura de isolamento, e não apenas os artistas. O intercâmbio também se dá na lógica entre poéticas e mesmo com outras artes, uma perspectiva que norteia as práticas no Studio P, como atesta Marilice: “Essa ideia da pintura pura já caducou, foi ultrapassada. Desde os anos 70 vivemos um hibridismo de linguagens, não é à toa que a colagem é uma das linguagens do momento. E não só a colagem como técnica, mas como lógica de pensamento. Isso tem a ver com nossa relação com a internet, esse manancial de imagens que articulamos o tempo inteiro”.

O acervo do MARGS representa essa diversidade e trajetória histórica da pintura de forma cronológica, como lembra Francisco. “A pintura é uma das artes mais tradicionais, mas o acervo do Museu não é focado em um tipo de arte. Começa com obras do século XIX, quando a pintura é mais rígida, existiam padrões que deveriam ser respeitados pelo artista, que muitas vezes era levado a copiar os mestres até desenvolver uma linguagem própria. Em um momento posterior, se a gente o colocar como sequência desse modelo da arte mais acadêmica, tem-se a chamada arte moderna, que é a ruptura com modelos, regras de como a pintura deve ser feita.

A arte moderna opera esses desdobramentos numa renovação e experimentação de linguagem. Depois, na arte contemporânea, os resultados das práticas e investigações artísticas também estão representados no MARGS. O acervo é bastante rico, diverso e complexo. Tem bastante representatividade em pintura, mas têm também desenhos feitos em papel, esculturas, objetos e outras manifestações artísticas. Reflete essa linha temporal do século XIX para cá e também da diversidade das práticas artísticas da atividade contemporânea.”

As experimentações em arte levam uma técnica tão antiga quanto a comunicação humana a continuar se reinventando, apesar de, na avaliação de Francisco, a pintura ser uma constante na história. “Dentro da história da arte, muitas vezes é decretada a morte da pintura, e lá pelas tantas ela ressurge, renasce. E muitas vezes esse movimento é protagonizado por jovens artistas, o que é importante, porque renova, oxigena e leva a pintura a novos caminhos.” Para Marilice, esse redesenho no caminho se manifesta também nas vidas profissionais de artista e professora, e ainda em âmbito pessoal. “Minha relação com os integrantes do Studio P começa como orientadora, até na academia, mas hoje é de parceria. Quando estou produzindo minhas coisas, mando pra eles. Me sinto bem alimentada por eles, por coisas que eu mesma não conseguia resolver no meu trabalho. As exposições, as aulas fazem a gente pensar e colocar em dúvida as próprias certezas o tempo todo. ‘Estou ensinando isso há muito tempo, será que não tá na hora de mudar? Essa geração nova que tá entrando está preocupada com as mesmas coisas que eu?’ Sempre questiono – ser professor tem isso, de colocar a gente em crise. E dar aula me renova, me coloca em contato o tempo todo. Algo que adoro neles é a utopia, que os mais velhos vão perdendo e é absolutamente irritante. Os teus sonhos são redimensionados aos 40 anos e mais aos 50. Essa esperança de que as coisas podem ser feitas é importante, com o também o é conseguir imaginar que as coisas podem ser transformadoras. O trabalho de arte é uma neurose, é o mesmo a vida toda, o que muda é o modo com que se encara o problema.”

Olhar de Repórter

A proposta desta pauta foi um pouco mais desafiadora que a habitual. Arte, em especial uma tão tradicional como a pintura, é um campo em que minha formação de ensino público e de família de poucos recursos é bastante defasada. A despeito de alguma falta de jeito e de uma bagagem mais completa para transitar confortavelmente pelo assunto, até porque não há pesquisa prévia que compense anos sem acesso à cultura, acredito que a provocação de pesquisar e escrever sobre o tema criou uma via de mão dupla. Enquanto trago as informações para o leitor, aumento também meu acervo.

– Emerson Trindade

Emerson Trindade Acosta e Everton Cardoso

Estudante de Jornalismo da UFRGS e Repórter