Elza é Doutora Honoris Causa pela UFRGS

Elza recebe do reitor Rui Oppermann a homenagem (Foto: Flávio Dutra/ JU)

À noite de 26 de maio, no centro do palco do Salão de Atos da UFRGS, Elza Soares recebeu o título de Doutora Honoris Causa, homenagem prestada a personalidades que tenham se distinguido na vida pública ou na atuação em prol do desenvolvimento da Universidade, do progresso das ciências, das letras e das artes. “Para mim significa tudo, ainda mais eu, como mulher preta, acho que para minha raça negra é um prêmio”, diz a cantora à reportagem do JU em entrevista especial após a solenidade.

A luta contra o preconceito é um motor para a sua música?
Eu falo muito sobre preconceito, né. A gente já teve uma vitória muito grande, que foi a da homofobia, que hoje é crime, graças a deus. E falo muito da raça negra, que você sabe que é difícil, é muito difícil o espaço para o negro. Se um dia eu tivesse poder, queria ter uma escola sem cor. Hoje eu vivo muito pelo colégio público, pela professora. Acho um absurdo ainda a professora ser o que é. Lá em cima trabalha, trabalha, educa os filhos da gente, me educou, e ainda vive nessa miséria. É isso, a minha luta é essa: pela mulher, pelo combate ao preconceito, pelo combate à homofobia, enfim, por tudo.

Entre a militância no passado e hoje, o que mudou?
Mudou nada, mas eu continuo gritando. Tenho 83 lançamentos, e isso é muita coisa. Acho que sou a única cantora brasileira com tantos lançamentos de música. Nesses 83 lançamentos, como eu venho gritando, venho falando, pedindo de joelhos, pelo amor de deus, a gente precisa de um país com cultura, com educação! O povo brasileiro é muito mal educado ainda, não tem uma boa educação. Eu venho pedindo tudo isso; minha missão é pedir, é fazer esse trabalho.

No livro Elza, do jornalista Zeca Camargo, você diz “Eu não tenho idade, eu tenho tempo”. Das memórias relatadaso que está mais presente?
Tudo. Tudo está presente, mas a minha infância está presente demais. Está presente o meu sacrifício, minhas necessidades, ver minha mãe lavando roupa, eu carregando lata de água na cabeça, buscando comida no exército para comer. Tudo isso não foge da minha memória.

Como é olhar para essas recordações e pensar na Elza Soares de hoje, cantora, brigando ainda?
Brigando ainda, não, brigando sempre. Não sei. Cada prêmio que recebo eu me vejo lá atrás. Eu digo: tá vendo, Elza, valeu ou não valeu você caminhar, você bater pé? Cada prêmio que recebo, eu me vejo com uma lata na cabeça. É muito incrível isso. Eu queria um dia melhor, e falava para minha mãe, que era lavadeira: “Mãe, essa sua profissão eu não quero nunca. E ela chorava muito, porque ela tinha medo: “O que que você quer?”. “Eu não quero isso pra mim”, respondia-lhe.

Como é ser artista no Brasil nos dias de hoje?
Significa muito coisa. É lutar, buscar. Ser artista no Brasil é uma dificuldade. É como capinar, de enxada na mão, ir buscando, tirando os capins, as pedras do seu caminho para você trafegar. É meio difícil, mas eu gosto, eu amo, é a minha profissão, tenho paixão por ela.

Quando decidiu ser cantora teve algum receio?
Não senti medo nenhum. Aliás, essa palavra medo eu não sei o que é, porque sempre meto os peitos, meto a cara. Eu sabia que tinha que enfrentar, sabia que não seria fácil. Como eu já disse, para o negro tudo é muito difícil. E eu – mulher, negra e pobre –, eu tinha tudo para não dar certo na minha carreira, mas deu, e tá dando certo.

Como se sente sendo uma doutora?
Gente, se já tinha antes um trabalho, uma gana, uma vontade louca de vencer, agora então a coisa está bem mais forte. Eu peço muito por uma escola pública: por favor, foi de lá que eu saí e hoje vejo muitas dificuldades na escola pública. Eu queria um dia uma escola sem cor, onde todo mundo pudesse estudar e pudesse ser gente na vida. Eu vejo que a minha luta fica cada vez maior, é mais uma responsabilidade. Esse é um momento que exige muito mais, não só de mim, mas de todos nós. Eu grito, mas eu quero que meu grito tenha eco. Não adianta gritar sem eco.