Evitemos a letargia econômica no pós-crise

Artigo | Doutorando em Economia do Desenvolvimento, Francisco de Carvalho Santana aponta que a catástrofe climática pode apresentar efeitos negativos de médio e longo prazos na economia gaúcha

*Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU

A catástrofe climática ocorrida no Estado, para além dos incalculáveis danos causados no imediato, tem o potencial de apresentar efeitos negativos de médio e longo prazos na economia gaúcha, situação indesejada, que, com competência, deve ser enfrentada pelas autoridades constituídas. O conceito de “histerese econômica” se refere à situação na qual um determinado evento (como catástrofes climáticas, crises econômicas) afeta a trajetória futura (tendência) do nível de produção e de empregos. Ou seja, passado o evento em si, suas consequências permanecem ao longo do tempo. 

Idealmente, a economia de determinada região cresce e se desenvolve com o passar do tempo. O aumento da produção decorre do maior número de pessoas empregadas, melhores técnicas produtivas, dentre outros fatores, sendo tal dinâmica fundamental para manter o bem-estar populacional. Nesta trajetória econômica de “longo prazo”, digamos dez, vinte, ou mais anos, é possível identificar uma “tendência”, constituída por ciclos econômicos ascendentes ou de baixa.

Enquanto a “tendência” é explicada por fatores mais estruturais da economia, vinculados à produtividade dos fatores de produção, os ciclos respondem a elementos conjunturais, de natureza econômica (uma inovação tecnológica, início de novas relações comerciais com outros países, crises financeiras…) ou não (choques climáticos como inundações ou secas severas, por exemplo). A questão tratada neste breve artigo é que estas oscilações cíclicas podem impactar a trajetória futura da economia, ou seja, sua tendência. Trazendo a problemática para a nossa situação do momento: os danos causados pela catástrofe das enchentes podem ter repercussões longas para a economia do RS. 

Os impactos das oscilações cíclicas na trajetória de longo prazo podem ser positivos ou negativos, a depender da natureza do evento em questão. Estudos apontam que o mercado de trabalho é área especialmente sensível a apresentar efeitos de histerese econômica. Determinadas inovações tecnológicas disruptivas (como o advento da Internet), ao elevarem a produtividade do trabalho em múltiplas atividades econômicas, impulsionam a economia e alteram a sua trajetória.

Programas de qualificação profissional podem apresentar, por lógica semelhante, resultados positivos para a performance econômica de mais longo prazo: trabalhadores que se qualificam passam a contribuir, em tese, de forma mais relevante para a geração do produto social.

A histerese pode se manifestar também a partir de dinâmicas de curto prazo: estudos apontam que economias que operam em condições de baixo desemprego configuram ambientes favoráveis à aquisição de habilidade laborativas, maior produtividade e melhores salários, impactando na dinâmica de longo prazo da economia.  

Alternativamente, eventos circunstanciais e dinâmicas de curto prazo prejudiciais à atividade econômica podem também apresentar efeitos persistentes. “Fugas de cérebros” para o exterior, emigração de trabalhadores, manutenção de elevado desemprego, maquinário sem utilização em níveis elevados nas fábricas, são exemplos que impactam, negativamente, a capacidade de oferta da nossa economia no longo prazo, visto que contribuem negativamente para as decisões futuras de investimento empresariais e de disponibilização da quantidade e qualidade da oferta de trabalho. A trajetória futura de uma economia depende, assim, das dinâmicas passadas e atuais, de forma que eventos significativos podem ser verdadeiros divisores de água.   

As enchentes que inundaram o Estado provocaram enorme destruição em praticamente todas as regiões. Imensas perdas patrimoniais das famílias, infraestrutura pública colapsada, empresários de todos os portes e setores viram seus estoques e instalações afetados em graus variados. É possível imaginar que muitas das famílias atingidas optem por deixar o Estado e que empresários não retomem suas empresas, dada a possibilidade da ocorrência de eventos climáticos similares.

A dramática situação atinge um Estado cuja economia é relevante – a indústria gaúcha responde por 6,1% da nacional e por 7,7% do emprego deste setor, além de contar com produção agropecuária expressiva – porém que tem apresentado desempenho inferior à média nacional nos últimos anos. A crise atual, portanto, tem o potencial, via efeitos de histerese, de contribuir fortemente para um declínio ainda mais acelerado do nosso Estado. A pergunta que surge é: o que fazer?  

A literatura aponta que a dimensão dos efeitos de longo prazo decorrentes de crises (pensemos na crise financeira global de 2008) está muito condicionada à resposta dada pelo Estado no gerenciamento da demanda na economia afetada. Tais medidas, podem incluir condições de crédito mais atrativas (juros menores e fundos garantidores, por exemplo), incentivos tributários para empresas, ações para impulsionar exportações, e outras que podem ser suficientes para amenizar ou eliminar efeitos de histerese em crises econômicas “usuais”, em que a demanda agregada está enfraquecida e a capacidade ociosa das empresas está elevada. 

Dada a natureza da crise atual, em que se observa que empresas foram afetadas em regiões com produção significativa no Estado (destruindo, portanto, parte considerável da capacidade de oferta da economia gaúcha) o desafio do poder público é muito maior.

Para além da necessidade de forte impulso à demanda, em que os investimentos públicos jogarão papel fundamental, se fazem necessárias medidas que sustentem e planejem as novas condições de oferta, para que empresários e famílias assumam o risco de seguir produzindo e morando em terras gaúchas.

O desafio é enorme, o que requer coordenação bem orientada e eficiente, levada a efeito com a participação de políticos, comunidade técnica e científica e representantes de segmentos variados das comunidades. Só assim se irá ultrapassar a conjuntura desfavorável ao mesmo tempo em que se avança nas adaptações ambientais necessárias para lidarmos com a conjuntura atual.


Francisco de Carvalho Santana é doutorando em Economia do Desenvolvimento no Programa de Pós-graduação em Economia da UFRGS. 


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”