Luciana Nunes: a saudade de sentir saudades

Câmpus do Vale | Professora de Estatística relata suas vivências pessoais, seu percurso profissional na UFRGS e as adversidades da crise sanitária

*Foto: Flávio Dutra/JU

Há trajetórias pessoais que se confundem com a trajetória acadêmica. Esse é o caso de Luciana Neves Nunes, doutora em Epidemiologia pela UFRGS e professora do curso de Estatística. Não é possível falar sobre a vida de Luciana sem citar a instituição que lhe é familiar desde os cinco anos de idade, quando Maria Luiza, sua irmã, que ingressou como graduanda em Educação Física em 1976, a levava para passar o dia no Câmpus Olímpico.

“Uma coisa de que eu tenho sentido saudades é de sentir saudade […] Muitas vezes, quando eu tô andando pela UFRGS, passo por lugares que me fazem ter memórias.”

Além das lembranças que o espaço geográfico evoca, Luciana também conta que sente falta de observar, no dia a dia, as relações amorosas nas dependências da Universidade, especialmente a normalização de casais LGBT: “Hoje em dia, ver essa evolução, ver isso, eu sinto falta. Nesse último ano, eu não pude vivenciar essas coisas: em cada início de semestre, olhar para uma sala de aula e ver cada vez mais diversidade”.

Uma vida na Universidade

As circunstâncias política e social eram um tanto quanto turbulentas quando Luciana foi aprovada para cursar Estatística em 1988. O país experimentava a redemocratização depois de 21 anos de ditadura militar e a primeira eleição direta desde 1964 se avizinhava. Foi nesse contexto que Luciana entrou pela primeira vez no Câmpus do Vale e, em suas palavras, não saiu até hoje. Posteriormente, a recém-bacharel trilhou o caminho da pós-graduação e especializou-se em modelos estatísticos aplicados ao estudo de epidemias. 

Em 1998, Luciana adentrou novamente os corredores do Instituto de Matemática e Estatística, agora sob o dever de lecionar. Figura querida por seus pares, a professora recorda com carinho dos momentos de bem-estar na faculdade, como a pequena conversa que surge em cada pausa para um café.  “Às vezes a gente entra em uma instituição e ela vira a nossa vida. Desde sempre fui muito ativa, então em seguida já estava no diretório acadêmico, o DAEMA, do qual acabei sendo presidente. Sempre fui uma estudante envolvida, sempre vivi muito o estar dentro da Universidade”, conta. 

Trocar o quadro pela tela não é uma transição fácil, mas Luciana conseguiu se adaptar bem às novas exigências do Ensino Remoto Emergencial por já ter tido experiência com o ensino a distância, alternativa da qual é defensora. “Tem bastante diferença entre você elaborar uma coisa, planejar uma coisa que vai ser EAD, e outra coisa é o esquema emergencial. Como eu visualizo esse emergencial sendo um “tapa-buraco”, por exemplo, uma das coisas que eu acho muito fundamentais são os momentos síncronos. […] É um momento de interação, embora não seja a nossa sala de aula tradicional”, avalia. 

Para driblar a resistência a participar dos encontros que alguns alunos apresentam, Luciana instituiu dinâmicas que prezam pela presença ativa do estudante na atividade. Ao ver os indicativos da pandemia piorarem durante esse ano, a estatística alerta para a dureza que é ter plena consciência da situação complicada em que nos encontramos.

“Estes dois últimos meses, em termos de Brasil, em termos de Rio Grande do Sul, foi um impacto muito forte a quantidade de mortes […] A gente conhece os aspectos técnicos, então olhar os gráficos, olhar os dados, olhar as informações faz com que a gente saiba de fato o que está acontecendo.”

Vacinando-se contra a desilusão, Luciana acredita que, quando for possível e seguro, a manifestação popular pode ser o caminho para enfrentarmos os problemas que a covid-19 evidenciou. 


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: