Meu lugar na UFRGS: Fátima Ávila Cardoso e Rosane de Lima Rodrigues

Jardins do Direito e da Economia | Conheça a história de cuidado com as plantas que transforma os locais em refúgios verdes
Jardineiras trabalham há nove anos na UFRGS (Foto: Flávio Dutra/JU)

A agitação da Avenida João Pessoa parece amenizada quando estamos nos jardins do Direito e da Economia, no Câmpus Centro da UFRGS.
A sombra das árvores, o cheiro da terra e os desenhos formados por plantas e pedras fazem com que o cenário sirva de fuga dos carros e passos apressados que ficam do outro lado do portão. Tudo ali é pensando e cuidado com carinho pelas jardineiras Fátima Ávila Cardoso e Rosane de Lima Rodrigues, que trabalham para uma empresa terceirizada.

Há nove anos, elas usam o espaço como uma tela para construir obras vivas e em constante mudança. Um trabalho que vai muito além da estética, pois elas amam as plantas e estão sempre preocupadas com a saúde delas.

“Algumas são do sol, outras são da sombra. Então, quando as que a gente não conhece começam a murchar, mudamos de lugar pra ver se pegam bem. Procuramos colocar onde elas vão ganhar vida”

Fátima Ávila Cardoso

O cuidado com as plantas é reconhecido pela comunidade acadêmica que procura as jardineiras pela sua capacidade de reanimarem exemplares à beira da morte. Com frequência, os jardins são usados como UTI do verde por pessoas que tinham plantas desmaiadas dentro das salas. O tratamento tem sucesso na maioria das vezes, mas as jardineiras também relatam perdas. Flores coloridas, como o amor-perfeito, raramente conseguem sobreviver nos jardins. “Já ganhamos várias mudas, mas não adianta. As formigas atacam com tudo”, lamenta Rosane.

A palavra “Direito” no jardim do curso foi escrita por um ex-funcionário
e mantida por Fátima e Rosane (Foto: Flávio Dutra/JU)

A solução das jardineiras foi apostar na composição majoritária de folhagens e pedras para deixar os jardins bonitos. Em um deles, desenharam uma espécie de “onda” com plantas verdes abaixo do nome “Direito”, escrito com pedras pintadas de branco por um ex-jardineiro. Agora, o plano delas é escrever “Economia” no jardim do lado. Para isso, calcularam a necessidade de 120 pedras, das quais já têm 50.

“Tem muito aluno que vem aqui no jardim do Direito tirar fotos para a formatura. Quando escrevermos Economia, acho que vão vir tirar fotos ali também”

Rosane de Lima Rodrigues

As jardineiras ressaltam que tanto as pedras como as tintas são catadas no lixo, o que reduz a quantidade de resíduos e torna os jardins sustentáveis. “A gente pega das caçambas mesmo; tem muita pedra e resto de tinta”, conta Fátima. Com elas, além das letras, desenham círculos e estrelas, onde plantam folhagens, árvores e flores. O adubo usado nos jardins também é sustentável, pois vem da composteira que elas mantêm ao lado dos espaços, onde colocam galhos, folhas e restos de frutas. “Quando apodrecem, viram uma terra preta que a gente coloca nas plantas”, completa Fátima.

Cabeça de felino apareceu misteriosamente no jardim do Direito (Foto: Flávio Dutra/JU)

O pior momento do trabalho é quando a UFRGS precisa realizar alguma obra no encanamento que passa embaixo dos jardins, o que destrói parte dos desenhos. Já a melhor parte do ofício é receber elogios.

“Quase todo dia alguém diz pra gente que tá bonito, nos dá parabéns. É muito bom ouvir isso. Para ficar melhor, acho que poderia haver uns banquinhos aqui para as pessoas sentarem”

Fátima Ávila Cardoso

Outra realização é quando elas ganham plantas para os jardins. “Tinha uma servidora que sempre nos dava mudas, mas acho que ela se aposentou. A gente também traz algumas de casa”, comenta Rosane.

Recentemente, um episódio intrigou as jardineiras. Uma cabeça de gato preta e branca feita de cerâmica apareceu no jardim do Direito. “Um dia, quando a gente chegou, já estava aqui”, conta Rosane rindo. Sem saber quem colocou o mimoso ali, resolveram deixá-lo. Agora elas têm mais uma companhia para cuidar dos jardins.


Fernanda da Costa

Repórter