“A mentalidade usurpadora desta terra já fez mais de quinhentos anos, e os povos indígenas continuam o sonho sagrado e dançam e cantam para dissolver esse espírito mau”
Trecho do livro A Terra dos Mil Povos
O vestibulando que abre A Terra dos Mil Povos e encara sua leitura pode ficar algo desorientado com o que encontra: o texto não corresponde confortavelmente ao que esperaria de uma narrativa literária. Trata-se de um texto que transita por gêneros – incluindo discursos históricos e antropológicos – e, como acentua Janice Thiél na apresentação da edição mais recente, compõe-se em um formato multimodal, ou seja, é um texto permeado de ilustrações e imagens.
Trata-se, de acordo com Trudruá Dorrico, indígena da etnia Macuxi e doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS, de um sistema de escrita muito próprio dos povos indígenas, abrangendo a oralidade e a escrita-desenho.
Já Ana Lúcia Liberato Tettamanzy, professora do Instituto de Letras da UFRGS, acrescenta que também se fazem presentes evocações da perspectiva de existência em que vários mundos coexistem no mesmo mundo. “Ou seja, as coisas não estão separadas ou, como ensina Ailton Krenak, há um cosmos vivo onde a gente tenta recuperar algo que com a humanidade ocidental se perdeu, que é o pertencimento à terra.” Assim, por exemplo, a forma como Kaká Werá apresenta as plantas, a alimentação, o entendimento do tempo, passa por essa outra cosmopercepção – maneira de sentir a realidade –, em que o humano não tem mais a centralidade.
Prevalece no livro uma recomposição da existência indígena a partir do que Kaká Werá pôde ouvir da sabedoria de anciãos que transmitem o que aprendem com os antepassados. Nesse sentido, há a validação da verdade e a confiabilidade dos conhecimentos provenientes dos sonhos e do que chamamos de mitos – que não são da ordem do fantástico, mas constituem a forma como os povos originários experimentam o mundo real, em que tudo está ligado com tudo, e o humano está muito longe de ser, como na cultura não indígena, a ponta de cima de uma pirâmide.
Ler Kaká Werá, segundo Ana, é se aproximar dessa cosmopercepção. “É um texto que não tem uma linearidade, que traz a possibilidade de nos oferecer uma outra forma de entender os acontecimentos pela lógica do sonho, pela lógica do mito.”
Existência dos povos indígenas
Ana observa que, em geral, o que a sociedade brasileira sabe sobre os povos originários é pouco e vem a partir de uma visão distorcida e estereotipada, geralmente presente nos livros didáticos ou na literatura indianista romântica.
Apresentando a perspectiva de um sujeito de origem indígena, “o livro funciona como se fosse a aula que nós não tivemos historicamente no Brasil, que nos introduz a ‘quem eram esses mil povos e o que eles são hoje’. É muito importante pensar que mesmo que não sejam mais mil, vários deles [em torno de 300] continuam presentes, são nossos contemporâneos”.
Em dado momento do texto, o autor apresenta uma cronologia (de 1500 a 1998) dos acontecimentos relacionados ao extermínio de centenas de grupos que viviam neste território. Esses fatos atrozes vêm em detrimento do que Kaká Werá aponta como o sonho do branco de pacificação.
Ana comenta que isso aparece de um jeito que só um indígena poderia colocar, indo além do que seria a troca de mercadorias por espelhinhos. “Isso é muito mal compreendido na nossa história, como se, para nós, fosse o engano original, em que se trocam coisas que têm valor para o ocidente mercantil da época, que seriam o ouro, o pau-brasil, por miçangas e espelhos, e também por machados mais adiante. A miçanga, o espelho e o machado cumpriam funções que permitiam a esses povos cultivar a beleza, que para mim é a grande marca e o que me encanta nos estudos e nas criações que eu vejo desses povos, no audiovisual, na literatura, nas artes, enfim. O Ailton Krenak diz muito bem: “quando a gente canta, quando a gente pinta o corpo, a gente quer buscar a beleza e a alegria de estar vivo, porque uma vida sem alegria, sem o canto, sem a dança, não faz sentido”.
A Terra dos Mil Povos, aponta a docente, nos faz pensar sobre o silêncio em relação aos povos indígenas e propõe a escuta dessas vozes na forma que a sociedade ocidentalizada reconhece, a escrita de um livro. Com ele, Kaká Werá nos mostra o quanto da língua portuguesa, da nossa alimentação, dos nossos rituais são permeados de contribuições indígenas, muito mais do que a gente tem se permitido conhecer.
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Vida Floresta – 2021. Dimensão: 1m x 0,8m. Acrílico sobre tela.
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Com o objetivo de ampliar as experiências de leitura, o JU produz, desde 2018, uma série de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem análises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a criação de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens aqui.
Roberto Azevedo é artista visual, mestre em Artes Visuais pela UFRGS e habitante da Ilha Tupinambarana, no município de Parintins (AM), um lugar na Amazônia. Como artista visual e arte educador, procura retratar a Amazônia e suas relações com os mais diversos aspectos, principalmente os que se relacionam às narrativas orais envolvidas naquele imaginário.





