As caras da UFRGS | Doutorando em Letras é luta viva pela inclusão de pessoas indígenas no espaço acadêmico
*Foto: Na biblioteca, Onório encontra a possibilidade de obter novos conhecimentos através dos livros (Marcelo Pires/JU)
A primeira vez que Onório de Moura ingressou em uma universidade foi por um processo seletivo especial para indígenas na Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Apenas uma pequena seleção de cursos de graduação havia sido ofertada por esse processo específico. Curioso, Onório se inscreveu para Engenharia de Software, na intenção de aprender mais sobre esse universo.
Tinha vivido até então na Terra Indígena da Serrinha sem muito contato com computadores e demais artifícios tecnológicos. Em função disso, a adaptação não foi fácil. Apesar de a vaga ser oferecida por um processo seletivo para indígenas, o curso não contava com as ferramentas de inclusão necessárias para integrar esse público; era pressuposto que todos ali presentes já tivessem contato com as máquinas e seus funcionamentos.
Onório não foi o único de sua comunidade a entrar no curso, e comenta que seus parentes exprimiam a mesma dificuldade. Todos que ingressaram com ele acabaram desistindo. Depois de dois anos tentando, Onório optou por uma troca. Com base no que vinha experienciando na academia, resolveu aproximar-se da comunicação, em busca de dialogar com os setores da instituição a fim de facilitar a permanência e o aprimoramento de ações afirmativas na universidade. Na comunicação, foi no curso de Relações Públicas que viu essa possibilidade. Dessa vez, concluiu a graduação, sendo o único dos indígenas com quem ingressou na Unipampa a ter conquistado o diploma.
Sua trajetória acadêmica é marcada pelo trânsito entre as três instituições de sua formação: Unipampa, Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e UFRGS. Graduado em Relações Públicas pela primeira, Onório ainda atua na universidade, coordenando um curso de extensão chamado “Aprendizagens interculturais – produção de sentidos na Educação”. Pela Unisc, é mestre em Educação. Atualmente, cursa o doutorado em Letras pela UFRGS.
“A Unipampa e a UFRGS têm questões em comum que podem melhorar no quesito ‘ações afirmativas para os povos indígenas’. Quando falamos em ações afirmativas, a gente tá falando de ingressos, de permanências, de egressos… Todas essas questões ainda não foram superadas pelas duas instituições”
Onório de Moura
Onório ressalta que é o primeiro indígena a ingressar pelo processo de ações afirmativas no programa de doutorado em Letras da UFRGS, assim como foi o primeiro indígena egresso da Unipampa.
Para além dessas três instituições, Onório também transita por três áreas do conhecimento, que acompanharam sua formação e carregam sua preocupação e sensibilidade oriunda da ancestralidade indígena. O ingresso no mestrado em Educação levou-o a refletir acerca da presença e do ensino de culturas indígenas nas escolas. Essa reflexão se conecta também à área de Relações Públicas, ao passo que Onório dá início a um processo de consultoria a instituições de ensino a fim de se fazer cumprir a Lei n.º 11.645 de 2008.
O doutorado em letras foi consequência de tudo isso. Tendo em vista a oralidade que marca forte presença na cultura kaingang, é nesse momento que Onório se põe a analisar as narrativas ancestrais de seu povo, percebendo que existe pouco registro escrito da mitologia kaingang. Dessa forma, encontrou na área da literatura a possibilidade de escrita da narrativa de seu povo. O doutorando ressalta a importância de os indígenas contarem suas próprias histórias, antes mediadas por antropólogos brancos. “Depois que ingressei no doutorado em Letras, organizei um livro chamado Narrativas ancestrais kaingang. A gente pega experiências, técnicas da área de Letras pra começar a desenvolver essas produções que a academia nos propõe.”

Albino, Onório diz que jamais foi estranhado em sua aldeia pela sua condição genética. O estranhamento veio na cidade, quando reivindicava pautas indígenas e tinha sua luta descredibilizada. Por ser albino, muitos não indígenas questionavam sua ancestralidade e vivência indígena.
“A sociedade não indígena tem aquela imagem do indígena pelado, usando cocar. Há um processo de desconstrução dessa imagem. Se você pede para uma pessoa as características dos povos indígenas que vivem aqui, elas não sabem dizer”
Onório de Moura
É preciso compreender o indígena como um sujeito repleto de todos os seus gostos, características e personalidade. A partir do momento em que o indígena, da aldeia e da cidade, é inserido no espaço acadêmico e passa a ter a oportunidade de compartilhar e expor as narrativas e vivências de todo um povo, o processo de reconhecer a subjetivação de cada um dá um passo adiante.
A atividade favorita de Onório fora da Universidade é voltar para a aldeia. O doutorando descreve esse retorno como sendo sempre um processo de cura. “A cidade adoece”, comenta.
“Necessidade de lavar a própria alma. Essa doença da saúde mental que tanto se fala, eu tenho medo. Então eu vou pra aldeia justamente pra não adquirir essa doença”
Onório de Moura
É na aldeia que Onório fala o kaingang livremente. O local em que suas subjetividades são reconhecidas. Algum dia, espera-se que a cidade compreenda todas elas também.
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