Os direitos humanos em Natividade Saldanha 

Linguística, Letras e Artes | Henrique Machemer e Regina Zilbermann analisam, a partir dos princípios de liberdade e igualdade, a obra poética do escritor que teve participação na Revolução Pernambucana e na Confederação do Equador

*Por Henrique Machemer e Regina Zilbermann
*Foto: Marcelo Pires/JU

Nesta edição, o JU apresenta uma série de artigos com relatos de pesquisas que receberam menção honrosa no último Salão de Iniciação Científica (SIC). Dessa forma, destacamos a pluralidade do conhecimento produzido na Universidade e a importância da formação de jovens pesquisadores para o desenvolvimento e a qualificação da ciência brasileira. Clique aqui para acessar todos os artigos.

José da Natividade Saldanha (1796-1830) foi um poeta pernambucano e afro-brasileiro atuante no começo do século XIX, filho ilegítimo de um homem branco e uma mulher negra. O autor, de estilo entre o neoclássico e o romântico, figura na maioria das histórias da literatura brasileira mais consultadas, mas é mencionado muitas vezes apenas de passagem ou classificado como literariamente desimportante. Nossa pesquisa, realizada no Instituto de Letras da UFRGS sob orientação de Regina Zilberman como parte do projeto “Literatura e Direitos Humanos”, não buscou necessariamente promover uma reavaliação dos méritos literários do autor. Antes, foi nossa principal intenção estudar sua obra por meio da lente dos direitos humanos e buscar o que nessa produção se relaciona a esses tópicos.

Para isso, realizamos a leitura da poesia do autor – gênero, dentre aqueles que Natividade Saldanha praticou, que optamos por privilegiar – atentos aos possíveis pontos de contato entre esta e os princípios de liberdade e igualdade, como formulados na Revolução Francesa em 1789 e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, no mesmo ano. A essa leitura se somou um estudo da fortuna crítica disponível a respeito do autor, por acreditarmos que a obra de Natividade Saldanha, para ser bem dimensionada, deve ser, antes de tudo, situada em sua biografia.

Mesmo antes do envolvimento com a Confederação do Equador, a preocupação com os direitos humanos já exercia influência na vida do poeta. Em 1817, Saldanha esteve engajado com a revolta republicana que ficaria conhecida como Revolução Pernambucana, cujo fracasso impeliu a primeira saída do Brasil por parte do autor. Ele partiu para Portugal, onde estudou direito em Coimbra, retornando a Pernambuco apenas em 1823. Exerceu durante a maior parte do ano seguinte a profissão de advogado, com algum sucesso, segundo indicam os seus biógrafos.

Em 1824, teve lugar o evento que ocuparia o centro da vida de Natividade Saldanha: a Confederação do Equador, um movimento republicano que se opunha à dissolução da Assembleia Constituinte, golpe promovido por D Pedro I em 1823, do qual decorreu no ano seguinte a imposição de uma constituição absolutista. A Confederação do Equador procurou estabelecer um governo alternativo, rebelde e republicano, que Saldanha integrou na posição de secretário. O governo tinha planos ambiciosos, dentre eles a abolição da escravatura – nenhuma dessas ideias pôde, porém, se efetuar. A Confederação do Equador foi ainda em 1824 esmagada pelo governo monarquista, e seus articuladores, condenados à morte.

Natividade Saldanha deixou o Brasil então uma segunda vez, para um exílio do qual jamais retornaria. O poeta esteve, durante mais ou menos um ano, num constante trânsito. Do Brasil, foi para os Estados Unidos; de lá, para a França; da França, para a Inglaterra; da Inglaterra, para a Grã-Colômbia, onde permaneceria até o fim da vida. Em cada lugar por que passou, Saldanha encontrou dificuldades: sofreu racismo nos EUA, foi considerado elemento subversivo na França e de lá deportado (não sem antes ter tido confiscados diversos manuscritos seus, de textos hoje considerados perdidos), conheceu a pobreza na Inglaterra e na Grã-Colômbia. Não deixou, porém de escrever, de fazer crescer uma obra que traduz amplamente sua vida de engajamento político e o duro sofrimento decorrente.

Na poesia que escreveu já fora do Brasil, podemos encontrar referências ao exílio e à perseguição política, ou mesmo poemas que trazem esses assuntos como motivo principal. Também pode ser observada em seu texto a articulação que o poeta realizava entre republicanismo e antimonarquismo e as ideias de liberdade e igualdade. Em mais de um poema, encontraremos Natividade Saldanha questionando os direitos excessivos dos monarcas partindo do pressuposto de que, uma vez que os homens são iguais, lhes cabem direitos iguais. Essa concepção vem muitas vezes acompanhada da ideia da morte, que nivelaria todos os homens, demonstrando a igualdade entre eles:

Reis, e Vassalos, Servos, e Senhores
Tornam-se em breve tempo à cinza pura,
Servem de pasto a vermes roedores.
Ama o teu Povo: rege-o com ternura
Pois são Vassalos, Reis, e Imperadores
Iguais no berço, iguais na sepultura.

José da Natividade Saldanha

Saldanha escreveu ainda odes em homenagem a personagens históricos e contemporâneos pernambucanos, o que oferece igualmente uma oportunidade de estudarmos a ideia de Brasil que fazia o poeta. Dentre as figuras que decide homenagear, encontramos Frei Caneca – também um republicano, uma das principais lideranças da Confederação do Equador –, Henrique Dias – um militar negro, considerado um dos heróis da Insurreição Pernambucana (1645-1654) – e Felipe Camarão – um importante líder indígena, também atuante na Insurreição Pernambucana. 

Nossa pesquisa buscou mapear instâncias em que o envolvimento do autor com os direitos humanos está patente em suas diversas formas. Esses excertos foram extraídos e compilados, formando um corpus que busca destacar a proximidade dessa poesia com a luta pelos direitos humanos. A partir desse corpus, foi produzido um artigo explicitando a presença do tópico na obra de Saldanha. Ao leitor contemporâneo, talvez pareça claro o engajamento do poeta pernambucano com esses temas, mas nem sempre esse envolvimento foi devidamente apreciado ao longo da história da literatura brasileira. 

Destacá-lo constitui, então, uma tentativa de lançar um novo olhar a esse aspecto da produção de Natividade Saldanha, bem como à história dos esforços em prol dos direitos humanos dentro de nossa literatura. A luta pelos direitos humanos e contra o racismo existe há muito tempo no Brasil, e recuperar sua história é recuperar a história de seus agentes. Para redescobrir a parte dessa história que teve lugar dentro da literatura, para melhor delimitar seus contornos, Natividade Saldanha é uma figura à qual devemos retornar.


Henrique Machemer é bacharelando em Letras.
Regina Zilberman é professora do Instituto de Letras e do PPG em Letras.


Em primeiro plano, prédio do Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, localizado no centro de Porto Alegre. Ele é bege, com detalhes coloridos. No fundo, aparece o céu azul e também o topo do prédio da Faculdade de Educação.

Ensaio

As imagens dos artigos desta edição compõem o ensaio fotográfico Entrelinhas, produzido por Marcelo Pires, estudante de Jornalismo da UFRGS e bolsista de Fotografia do JU. Confira o ensaio completo.