Por que cuidar do intestino é importante para a nossa saúde?

Bem-estar | A nutricionista Marina Berbiger ressalta que é necessário prestar atenção aos sinais do corpo e adotar hábitos diários que favoreçam a saúde intestinal

*Ilustração por IA – Microsoft Designer

Nas últimas semanas, o debate sobre saúde intestinal voltou com força no Brasil após o alto engajamento gerado em mídias sociais pelo falecimento da cantora Preta Gil, vítima de um câncer colorretal. Esse tipo de câncer é hoje um dos mais comuns no país e, apesar de grave, pode ser prevenido em grande parte dos casos com hábitos de vida mais saudáveis e diagnóstico precoce. Por isso, falar sobre o intestino é falar sobre qualidade de vida e sobre escolhas cotidianas que fazem diferença para a nossa saúde.

Mas, afinal, o que é ter um intestino saudável? A saúde intestinal é um conceito complexo: está ligada ao equilíbrio da digestão, à absorção correta dos nutrientes e ao bom funcionamento da microbiota — conjunto de microrganismos que compõem nosso trato gastrointestinal e exercem papel importante inclusive na imunidade. Um intestino saudável é aquele que não causa dor, desconforto, alterações persistentes no funcionamento e contribui para o bem-estar geral da pessoa.

É importante ressaltar que alterações no funcionamento intestinal são fisiológicas e não necessariamente sinalizam algo. Por exemplo, ao consumir determinados alimentos que são mais fermentativos, possivelmente vamos ter mais flatulência; se passamos por um período em que ingerimos menos água ou mudamos muito nossa rotina, como nas férias, podemos perceber um pouco mais de constipação. 

No entanto, quando o equilíbrio se rompe, sintomas mais disfuncionais aparecem. Entre os mais comuns estão dores abdominais regulares, excesso de gases não necessariamente relacionados a um subgrupo de alimentos específicos, constipação, diarreia frequente, presença de muco ou sangue nas fezes e perda de peso sem explicação. É importante lembrar que, embora muitos desses sintomas sejam relacionados a situações transitórias, eles podem também indicar problemas mais sérios. 

As alterações intestinais podem ser divididas em dois grandes grupos: os distúrbios funcionais e os orgânicos. Os funcionais são aqueles em que o intestino apresenta sintomas mesmo sem alterações visíveis em exames de imagem ou laboratoriais. O exemplo mais conhecido é a Síndrome do Intestino Irritável (SII), que atinge muitas pessoas e causa dor e distensão abdominal, gases e alternância entre diarreia e constipação. Apesar de incômoda, a SII não aumenta o risco de desordens mais graves, ainda que comprometa bastante a qualidade de vida.

Já os distúrbios orgânicos são aqueles em que existe uma alteração estrutural ou inflamatória detectável. Nesse grupo estão as Doenças Inflamatórias Intestinais (DII), como a Doença de Crohn e a Retocolite Ulcerativa, além das alergias alimentares e, de forma mais preocupante, as neoplasias do trato gastrointestinal, como o câncer colorretal. Esses casos exigem acompanhamento médico especializado e, muitas vezes, tratamento contínuo.

Diante de tantos sintomas possíveis, quando devemos buscar ajuda profissional? O sinal de alerta acende quando os sintomas são persistentes ou progressivos; ou se contiverem os sinais de alerta anteriormente mencionados como muco, sangue nas fezes, perda de peso involuntária.

Ainda, se os sinais são funcionais mesmo assim prejudicam a qualidade de vida, um profissional pode ser acessado, pois algumas estratégias e orientações mais individualizadas podem melhorar bastante a maneira como percebemos as sensações que nosso trato gastrointestinal nos proporciona. Profissionais de saúde como médicos e nutricionistas podem atuar em conjunto para investigar as causas e gatilhos, orientar exames necessários e indicar mudanças no estilo de vida que favoreçam o equilíbrio intestinal.

E como podemos, no dia a dia, fortalecer a saúde do intestino? O nosso padrão alimentar, mais que nutrientes específicos, é a peça-chave para esse fortalecimento. Estudos mostram que dietas ricas em frutas, verduras, legumes, cereais integrais e leguminosas, como feijão e lentilha, favorecem a microbiota intestinal e ajudam na prevenção de doenças intestinais. Esses alimentos fornecem compostos bioativos e fibras que aumentam o bolo fecal, facilitam a evacuação e alimentam as bactérias “do bem” do intestino. Essas bactérias, por sua vez, protegem nossa mucosa de exposições diárias a elementos que podem prejudicar a saúde do intestino, como microrganismos patobiontes (prejudiciais), metais pesados, excesso de agrotóxicos, aditivos alimentares, poluição e outros.

Por outro lado, o consumo frequente de ultraprocessados — alimentos prontos, ricos em aditivos, gorduras e açúcares — está associado a inflamação, desequilíbrio da microbiota intestinal e maior risco de doenças crônicas, incluindo o câncer. É exatamente nesse ponto que o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, se torna um aliado importante: ele recomenda dar preferência a alimentos in natura ou minimamente processados, preparar refeições caseiras e valorizar o ato de comer em companhia.

Mas não é só a alimentação que importa. O intestino também responde ao estilo de vida como um todo. A prática regular de atividade física estimula o funcionamento intestinal e melhora a circulação sanguínea na região abdominal.

O controle do estresse, com técnicas de relaxamento e momentos de lazer, também é fundamental, já que o intestino e o cérebro se comunicam constantemente por meio do chamado “eixo intestino-cérebro”.

Outro ponto que merece destaque é a comensalidade: o ato de compartilhar refeições. Comer junto, de forma tranquila, com ambiente adequado, fortalece vínculos sociais, melhora a digestão e ajuda a construir escolhas alimentares mais saudáveis. Em um ambiente universitário, onde as rotinas são corridas e muitas vezes marcadas por refeições rápidas e solitárias, valorizar esse momento pode ser um gesto simples e transformador.

Cuidar da saúde intestinal é, em última análise, cuidar da vida como um todo. É prestar atenção aos sinais do corpo, buscar ajuda quando necessário e adotar escolhas diárias que favoreçam o equilíbrio. A mensagem final é que um intestino saudável não depende de fórmulas mágicas, mas de hábitos consistentes, construídos passo a passo. E, nesse caminho, a alimentação equilibrada, o movimento corporal, o descanso adequado e a partilha das refeições podem ser nossos maiores aliados.


Marina Carvalho Berbigier é nutricionista (CRN2 9721), especialista em paciente crítico, mestre em Ensino na Saúde e doutora em Ciências em Gastroenterologia e Hepatologia. Trabalha no Laboratório de Avaliação Nutricional (LAN/UFRGS) inserido no Hospital de Clínicas de Porto Alegre – UBS Santa Cecília.

Quinzenalmente, profissionais de diversas áreas ligados à UFRGS escrevem sobre nutrição, saúde, cotidiano e outros temas ligados ao bem-estar. A seção tem curadoria de Fabiana Tanabe e Stéfani Schneider.


As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.