Por uma prática da Abertura da Boca

Artigo | Ao perceber uma dimensão poética na temporalidade, Artur Ferreira, bacharel em Artes Visuais, propõe uma prática que visa abrir camadas de tempos heterogêneos

*Por Artur Ferreira
*Ilustração: Luísa Cristine Karling/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Há mais de 3 mil anos, no Antigo Egito, objetos, imagens, estátuas e ferramentas eram alvo de uma prática chamada Ritual da Abertura da Boca. Conforme os ritos da religião egípcia antiga, a cerimônia animava seu alvo para desempenhar, no plano da vida além da vida, suas respectivas funções. No caso do falecido, era após o ritual em que, em sua vida além da vida, poderia comer, beber, escutar, ver e tocar.

Para esse ritual eram necessárias algumas ferramentas, dentre elas, pequenos copos talhados em pedra. Ao ver a imagem do conjunto de ferramentas, percebi que os copos remetem muito a copos para shot de bebidas alcoólicas. Diante dessa aparência anacrônica, decidi talhar um cilindro de parafina até obter um resultado que, em semelhança, se aproximava do copo de pedra que servia de ferramenta para o Ritual da Abertura da Boca.

Alguns dias depois, encontrei imagens de utensílios e recipientes de vidro da Roma Antiga. Mais uma vez, percebi um aspecto anacrônico em objetos da antiguidade. Dessa vez, foi o aspecto modernista que me chamou a atenção. Tendo a parafina fresca na memória de meus processos, decidi usá-la por sua qualidade que remete ao vidro. Assim como este, a parafina pode ser fundida e solidificada, podendo ser reciclada e dar vida a outras peças.

Para realizar a invocação daqueles objetos antigos, fiz um molde negativo, de argila, dentro do qual eu despejaria parafina fundida e, após solidificada, retiraria uma peça completa. Foi assim que prossegui. Busquei modos de dar cor à parafina e passei a fazer uma série de recipientes, como potes e copos, relacionados a objetos que existiram utilmente há 2 mil anos e que hoje, destituídos de suas capacidades, se tornaram artefatos hospedados em museus ao redor do mundo.

Foto: Vicente Carcuchinski

Diante das peças que fazem parte do conjunto que intitulei Jogo para Abertura da Boca, me vi diante de objetos de tempo impuro. Objetos que, como os descreve Didi-Huberman em Diante do tempo: História da arte e anacronismos da imagem, são constituídos por tempos heterogêneos. Se os tempos, portanto, os constituem, passei a pensar no tempo como matéria plástica e perceber uma série de relações anacrônicas que se estabelecem ao trabalhar a partir de objetos da antiguidade como chave para a abertura da sobredeterminação de tempos.

Essas relações anacrônicas, as que dizem respeito especificamente ao conjunto de parafinas Jogo para Abertura da Boca e ao processo constituinte dessas peças, informam sobre o passado e, também, sobre a condição imaterial do ancestral.

Acabei chegando a objetos que, em posterior constatação, descobri terem as mesmas dimensões daqueles de vidro provenientes da Roma Antiga. E, ao dispô-los no espaço, vi uma semelhança que estava além da dimensão unicamente física. Ali estavam recipientes que não podiam ser usados, a mesma condição que, após milênios, acometeu os ancestrais dos objetos que criei. Agora inseridos no espaço, um ao lado outro, formam uma composição de objetos que remetem a um passado do qual nunca fizeram parte.

Walter Benjamin fala sobre uma arqueologia material feita a partir de restos do passado. São trapos, e quem faz história deve coletá-los como um trapeiro, para uma montagem do passado a partir de seus resquícios. Resgatei os objetos de vidro, descartes da antiguidade, para montar o passado.

Satíricon, livro de Petrônio publicado no primeiro século depois de Cristo, é a história de um triângulo amoroso constituído por dois jovens homens, Ascilto e Encólpio, e um menino de 16 anos, pelo qual ambos são apaixonados, Gitão. Nesse livro, Trimalquião, um liberto novo-rico, conta a história de um artesão que descobriu como fazer vidro inquebrável. O artesão foi, sob ordem imperial, degolado. Se descobrissem aquela receita, diz Trimalquião, o ouro passaria a valer nada. Por sua vez, o próprio conta: “[…] Eu gosto mais dos vidros, pois não cheiram. Se não quebrassem, gostaria mais deles que de ouro, mas hoje em dia não valem nada” (Petrônio).

Esses objetos, que para os antigos romanos nada valiam, apesar de suas qualidades, ao serem estudados por meio da pesquisa poética e da materialidade dos processos, se tornam a porta de entrada para um passado que somente a teoria não pode alcançar.

A intersecção entre prática e historiografia, para a construção de uma compreensão sensível do passado, por meio do fazer artístico, não somente a partir da teorização científica e historiográfica, é o ponto crucial de minha pesquisa poética. Essa intersecção se enriquece no caráter poético do fazer histórico. Didi-Huberman considera a história uma forma poética. Já Nietzsche percebeu nela uma potência artística: “A única que é capaz de ‘perceber as realidades que lhe são impenetráveis, de ligar coisas que só Deus sabe se têm relação entre si”; por isso, segundo Nietzsche, a história aceita ser transformada em arte.

Essa abordagem, que age na intersecção entre a historiografia e o fazer artístico, em meu trabalho de conclusão de curso intitulado Como abrir a boca: imagens ancestrais em procedimentos contemporâneos, nomeei como prática da Abertura da Boca. No Antigo Egito, o Ritual da Abertura da Boca bifurcava a existência de objetos concretos em uma condição dialética, e cada objeto encantado adquiria caráter animado, ou utilitário, para ser desempenhado somente num plano desmaterializado. Uma relação metafórica que percebi no processo desenvolvido a partir de objetos antigos para construir objetos contemporâneos que trazem consigo uma dimensão narrativa, desmaterializada, a partir de sua dimensão concreta.

Ao buscar no antigo abrir a complexidade da experiência temporal por meio de seu caráter plástico e sensível, cheguei à prática da Abertura da Boca, que permite encontrar novos sentidos no passado, por meio da temporalidade e da capacidade poética de seus instrumentos. Uma prática desenvolvida no contemporâneo, mas que caminha no passado, abrindo tempos distintos que compõem aquele presente.


Artur Ferreira é artista visual, bacharel em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UFRGS. Sua pesquisa poética busca explorar a condição sensível da experiência temporal por meio do processo artístico informado por elementos da antiguidade.

O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pela professora Adriane Hernandez.