Há camas, mesas, cadeiras. Saíram do caixote dos retornados diretas para o sótão; nunca entraram em casa. Criei o quarto-Império, para onde atirei aquilo de que não consigo libertar-me ainda, e, dentro dele, as caixas-Império. Venham buscar. Uma pessoa precisa de tempo para conseguir atirar o passado borda fora. Libertei-me de muito. Dei. Vendi ao desbarato. Reciclei. Neste momento, o mais vivo mono do Império que por aqui resta, acho que sou eu.
-Trecho do livro Caderno de Memórias Coloniais
“Coragem. Não te esqueças de contar a verdade!” Foi o que ouviu Isabela ao embarcar como uma retornada a Portugal depois de viver a infância em Maputo, capital de Moçambique, na África. Cumpriu parte do pedido escutado antes de partir: teve coragem, por certo, mas contou outra verdade. Uma África paradisíaca, um branco salvador e bondoso, uma Maputo de relações amistosas entre negros e europeus. Eram essas as imagens que os portugueses gostariam que fossem divulgadas sobre o seu – então – falido império.
Não eram, porém, as imagens que a escritora Isabela Figueiredo tinha dessa mesma África e que relatou no romance autobiográfico Caderno de Memórias Coloniais, publicado em 2009. Filha de colonos portugueses que invadiram territórios como Moçambique, onde o livro é situado, a autora coloca em palavras a brutalidade do colonialismo que testemunhou enquanto criança branca e tensiona um regime de silêncio sobre o tema.
Como uma espécie de fantasma, a temática dos Retornados, portugueses que como Isabela tiveram que voltar à Europa após o início da descolonização, sempre assombrou o país. Ana Tettamanzy, professora do PPG em Letras da UFRGS, acredita que a dificuldade em tratar do tema remonta à própria mitologia dos lusos sobre si.
“Portugal tem um encanto pelo passado. Podemos lembrar até a investigação da palavra ‘saudade’, que gerou o movimento saudosista. Existe uma melancolia sobre a grandeza que eles foram paulatinamente perdendo. Depois de já terem perdido as colônias do Oriente, a Índia, o Brasil, Portugal foi o último país a abandonar suas colônias em África.”
Ana Tettamanzy
O silêncio que Isabela desmonta também foi responsável pela manutenção do mito da mansuetude, isto é, de que o colonialismo de Portugal havia sido mais doce e menos violento do que o dos vizinhos europeus. A narradora descreve episódios da infância e do início da adolescência em que o racismo era a lógica operante. Sem pudor ou ressalvas, conta com honestidade a violência física, verbal e sexual que era sofrida por negros e negras em Lourenço Marques – nome dado a Maputo pelos portugueses. Mais do que um acerto de contas com o próprio país, a autora revisita também a figura do pai.

Pátria, pater, patris, pai
Como quem dá um corpo ao colonialismo, Isabela Figueiredo apresenta o pai como protagonista na reelaboração de seu passado. Apesar do afeto que sentia pelo homem, a autora relata ao longo dos capítulos a brutalidade que o português radicado em Moçambique exercia fora das paredes de casa. O pai, assim como outros homens brancos, violentava seus empregados, mantinha estruturas de dependência e de segregação social e estuprava mulheres negras.
“A figura paterna é a metonímia do processo colonial porque esse é reflexo de uma civilização que vê na máquina colonial uma violação. E o corpo violado é a terra invadida e, de certa forma, a mulher”, observa a professora. Para Ana, a guerra colonial como a apresentada em Caderno de Memórias Coloniais é um processo falocêntrico e patriarcal. “Se pensarmos a partir de um estudo decolonial, a terra pode ser vista como um ventre, como uma mulher, e a guerra, nesse sentido, é vista como um atributo patriarcal, que se impõe pelo poder do homem, da arma.”
O papel dos corpos, inclusive o do pai, são também centrais ao longo da narrativa. Com indiscretas descrições – como “O corpo do meu pai, pelo contrário, sólido, redondo, disponível, revelava-se uma colina cheia de arbustos e vegetação à qual podia trepar, e sentir, cheirar, beliscar, morder” –, a autora revela não só as percepções cruas que tinha enquanto criança, mas demarca também quais eram os indivíduos permitidos nos espaços e qual era a valoração dada a seus corpos.
“Quando a narradora relata os comentários que eram feitos sobre as mulheres negras, por exemplo, percebemos que elas se tornavam sobretudo um corpo, um objeto. Se reduziam à genitália e a serem violadas. É o exemplo do que Frantz Fanon, teórico martinicano, fala quando diz que, no contrato racial feito pelo colonialismo, as pessoas negras não são indivíduos, elas não têm subjetividade.”
Ana Tettamanzy
A construção de uma justa memória
“É mais fácil para nós falarmos de algo que aconteceu lá fora do que falar do que aconteceu aqui conosco. O fato de Isabela Figueiredo não silenciar faz com que a gente reflita sobre a história do Brasil, inclusive sobre os acontecimentos mais recentes.” É o que observa Regina Zilberman, também professora do PPG em Letras da UFRGS. De acordo com ela, as lembranças trazidas em Caderno de Memórias Coloniais conseguem promover uma reflexão para além da memória de Isabela, ou de Portugal, desestabilizando os silenciamentos que também assombram o Brasil. “Vivemos aqui uma guerra colonial que é também uma guerra econômica e uma guerra étnica. E o livro traz isso muito bem. Não há como dizer que, por ser um livro português, é um problema dos portugueses. Não. É um problema nosso.”
Não havia olhos inocentes. É o que Isabela conta e é como faz a leitura se desenvolver. Ao fazer o difícil trabalho de escavação, tanto da memória individual quanto da coletiva, a autora evidencia a literatura como um importante agente de reflexão, de revisão identitária e de, quem sabe, construção de uma memória mais justa. “A Literatura sabe fazer muito bem a discussão de questões contemporâneas, tanto quanto a Sociologia, a História e a Política. Mas ela tem uma coisa muito única: ela faz com que o leitor se envolva com aqueles problemas, que ele participe deles. Eles entram no teu sentimento, inclusive, não só na tua razão. E quando as emoções são compartilhadas pelo próprio narrador, como no livro, isso palpita ainda mais. É uma espécie de coração da obra, dialogando com o teu coração. A literatura te informa, mas te comove. E sem esse envolvimento pessoal ela não tem sentido”, conclui Regina.

Especial Leituras Obrigatórias
Com o objetivo de ampliar as experiências de leitura, o JU produz, desde 2018, uma série de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem análises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a criação de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens aqui.
Xikhosa (Lourenço Eugénio Cossa) nasceu na província de Maputo, em Moçambique. Doutor em Educação e Artes pela UFRGS, já participou em várias exposições coletivas e cinco individuais, sendo três em Moçambique e duas no Brasil. Suas obras se encontram espalhadas em países como Portugal, Alemanha, Holanda, Brasil, Zimbabwe, entre outros. Versátil, produz arte em várias modalidades, como escultura em cerâmica e metal, pintura e gravura.




