Sarau discute a obra “Lisístrata”, de Aristófanes

Literatura | Evento promovido pelo Jornal da Universidade reuniu pesquisadores em língua e cultura grega e teatro

*Foto: Bathista Freire/Divulgação

Em cena, três mulheres combinam os detalhes de um plano para alcançar a paz: elas se recusariam a manter relações sexuais com os maridos enquanto eles estivessem em guerra. Intercalando os diálogos da cena, as atrizes se dirigiam à plateia para apontar dados atuais sobre feminicídios no Brasil. A encenação do início de Lisístrata, de Aristófanes, abriu o Sarau Leituras Obrigatórias Vestibular 2023 promovido pelo JU no Centro Cultural da UFRGS no dia 26 de outubro.

Para construir a cena, as atrizes e estudantes do curso de Teatro Bibiana Jung, Marilia DalMagro e Laura Mallmann, sob orientação da professora do departamento de Arte Dramática Inês Marocco, optaram por ressaltar aspectos que fazem parte do discurso feminista atual – o que as instigou a acrescentar à peça estatísticas sobre a violência contra as mulheres no Brasil contemporâneo. O exercício cênico foi desenvolvido dentro da pesquisa “As técnicas corporais do gaúcho e a sua relação com a perfomance do ator/ dançarino”.

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O trabalho, explica Inês, se desenvolveu durante três meses a partir de improvisações. “Selecionamos a primeira cena porque entendemos que tinha início, meio e fim, e definia bem o que acontece no resto da peça.”

Mesmo que a peça conserve uma atualidade, o desafio, segundo a docente, foi tornar interessante a cena e não só apresentá-la tal e qual. Por isso optaram por fazer pequenas inserções que ligavam algumas afirmações das personagens com fatos da atualidade.

“Por exemplo, quando as personagens falam do poder dos homens na acrópole e da necessidade de tomarem esse espaço, as atrizes têm uma inserção falando sobre como até hoje o poder está nas mãos dos homens”

Inês Marocco

Após a encenação, o sarau contou com uma conversa entre Rafael Brunhara, professor de língua e literatura grega do Instituto de Letras, e Marco Antonio Fronchetti, ator, diretor e servidor técnico do Instituto de Artes. A mediação ficou por conta do jornalista Everton Cardoso. Marco foi categórico em sua recusa de uma leitura feminista da peça. Pensando em como aconteciam as encenações na Grécia antiga, defendeu que o que se ressaltava era a zombaria, uma ridicularização das mulheres, interpretadas naquela época por homens caracterizados com atributos femininos exagerados. Não haveria, portanto, na época, um enaltecimento da força feminina.

Não obstante, observou Rafael, há o protagonismo de uma figura feminina que empenha todas as suas forças e engenhosidade para o estabelecimento da paz. Além disso, mais do que a greve de sexo por parte das esposas, o ponto central da peça é a tomada da acrópole, espaço de debates políticos essencialmente masculino, pelas mulheres.

A explanação do professor de grego a respeito das características históricas e literárias da obra, na opinião de Inês, complementou muito o trabalho realizado pela encenação. Rafael, que está construindo uma tradução própria da peça, disse que pretende levar em consideração os desafios da encenação em seu trabalho, buscando conciliar esse aspecto com as escolhas de caráter literário e linguístico.

Sobre as traduções, o docente, assim como Marco, considera que a mais rica e acessível é a realizada por Millôr Fernandes, ainda que a considere um tanto pudica, evitando o uso de termos mais vulgares relativos ao órgão sexual masculino, por exemplo. Rafael sugere, ainda assim, que os vestibulandos examinem também outras traduções para que possam perceber mais nuances do texto, já que cada tradutor faz escolhas singulares.

Foto: Bathista Freire/Divulgação