Simone Fogazzi e a educação artística para transformar o mundo

Meu Lugar na UFRGS | Professora, artista e ex-vice-diretora do Colégio de Aplicação da UFRGS acredita que a arte nos salva de nós mesmos

*Foto: Pietro Scopel/JU

Simone Fogazzi é um pouco ansiosa. A primeira vez que deu aula, como professora substituta no Colégio de Aplicação da UFRGS, não conseguiu dormir bem. Tinha 39 anos e dois filhos adolescentes. Queria que essa primeira aula cumprisse todas as suas expectativas e que os estudantes se sentissem à vontade com ela. Acordou cedo, tomou café da manhã rápido e entrou na aula. A turma de ensino médio esperava por ela.

Desde aquela primeira vez, quase 20 anos se passaram, mas a ansiedade antes da primeira aula nunca desapareceu totalmente. Simone decidiu cursar Artes em função do gosto pelo artesanato, pela pintura em porcelana e pelos desenhos. Formou-se em 1990 em Educação Artística com ênfase em Artes Clássicas na UFRGS e lembra que optou pela licenciatura na metade do curso, principalmente por sua empatia com crianças e jovens.

Simone também trabalhou como educadora de arte, dava aulas de pinturas e desenho no seu próprio ateliê e fazia algumas exposições como artista. Também foi docente nas redes pública e privada. Após passar no concurso do Colégio da Aplicação da UFRGS, deu aula no ensino fundamental, no ensino médio e na Educação de Jovens e Adultos. Atualmente, é professora do oitavo ano do ensino fundamental. A escola, como ela reflete, mudou sua caminhada.

Foto: Pietro Scopel/JU
A educação liberta

Para Simone, ensinar é “um ato humano”, de forma que não se reduz a abrir um livro ou passar um trabalho para os alunos: implica ter um relacionamento com os estudantes, abrir-se afetivamente com eles e construir uma relação afetiva de confiança e respeito mútuo. “Algumas pessoas querem reduzir a escola a dar conhecimento. A escola forma pessoas, forma cidadãos que vão aprender a conviver em sociedade. Tu percebes, então, que a afetividade é a porta de entrada para essa conexão.”

“A arte é uma parte também que nos salva muito de nós mesmos, nos salva da nossa ansiedade, das fragilidades que nós temos. Acho que isso ajuda muito também os estudantes. Fazer arte é uma questão de saúde também”

Simone Fogazzi

A partir disso, a escola se transforma em um espaço vivo, em constante movimento, no qual cada contato com os estudantes é um elemento fundamental que contorna e estende o próprio processo educativo. Em cada voz que escutou, aprendeu novas formas de interpretar o mundo, novas sensibilidades (por exemplo, com a integração de estudantes por cotas) ou materialidades (como a própria presença da Inteligência Artificial) para reconhecer.

O processo educativo, portanto, nunca é estático e exige estar atualizado constantemente, especialmente na área artística. Simone lembra as importantes discussões que apareceram durante diversos momentos na escola e as adaptações derivadas disso: desde as formas como as mulheres estão presentes na arte (por exemplo, nos museus, principalmente como modelos de artistas, e não como autoras), o que mostra a exclusão do pensamento das mulheres artistas ao longo da história da arte; até o racismo por trás da invisibilização de artistas negros e indígenas.

Frente a tudo isso, o Colégio de Aplicação da UFRGS foi o espaço no qual Simone decidiu transformar o mundo e, nesse processo, transformar-se também. Assumiu por oito anos como vice-diretora da instituição, cursou diversas especializações e nunca parou de colocar seus conhecimentos em favor da comunidade educativa. Nesse processo, a arte nunca deixou de ser a área central do seu exercício.

Ela se refere a si mesma como professora-artista. Questionada sobre isso, reflete que educar em arte é importante, porque a arte “é um ato criativo, [no qual] tu interferes sobre a tua realidade, tu explora as possibilidades de mudar o mundo, de colocar a tua visão de mundo para o coletivo”. E esse, finalmente, é o lugar desde o qual, envolta em livros, abraços de seus estudantes e colegas que a inspiram, Simone decide mudar o mundo.

Foto: Pietro Scopel/JU

A série Meu Lugar na UFRGS é um projeto conjunto JU e UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: