Tecnologia e as técnicas da evidência (histórica)

Ciências Humanas | Maria Eduarda Kossatz Leal aborda as possibilidades de contribuição da técnica para o fazer historiográfico com vistas a promover reparações por violências cometidas no passado

*Por Maria Eduarda Kossatz Leal
*Foto: Marcelo Pires/JU

Nesta edição, o JU apresenta uma série de artigos com relatos de pesquisas que receberam menção honrosa no último Salão de Iniciação Científica (SIC). Dessa forma, destacamos a pluralidade do conhecimento produzido na Universidade e a importância da formação de jovens pesquisadores para o desenvolvimento e a qualificação da ciência brasileira. Clique aqui para acessar todos os artigos.

Desde a minha entrada na graduação, escutei das minhas professoras e professores que estudar História é estudar a ação humana no tempo. No entanto, com a pesquisa, fui percebendo que esse tempo – também conhecido como contemporaneidade – estava repleto de produções e ações não humanas. O trabalho que tenho desenvolvido no projeto Técnicas da evidência histórica: giro forense, tecnologia e direitos humanos na contemporaneidade, como bolsista do Luppa, está em diálogo com as Humanidades Digitais, com o movimento internacional de direitos humanos e com o campo da Tecnologia. 

A pesquisa, apresentada no XXXV Salão de Iniciação Científica (SIC) e premiada com menção honrosa, foi construída a partir dessas noções. Orientado pelo professor Pedro Telles da Silveira e intitulado Técnicas da evidência histórica: visualidade, giro forense e tecnologia, o presente trabalho é um desdobramento do projeto principal citado anteriormente, e permitiu que eu me encontrasse como pesquisadora ainda durante a graduação. Por isso, agradeço imensamente ao meu orientador que permitiu que a pesquisa fosse um lugar de troca de ideias e descobertas, sempre considerando minhas indagações, ampliando meus horizontes e permitindo que eu me apropriasse do tema e da pesquisa dele, que se tornou minha também. 

Além de pensar apenas sobre os perigos da tecnologia e seu poder destrutivo, abordamos a tecnologia através da noção de técnica para, dessa forma, pensar sobre as possibilidades de contribuição dessa mesma técnica para o fazer historiográfico, ou seja, ver a tecnologia menos como ameaça – sem desconsiderar seus perigos – e mais como um campo de possibilidades para a História. Isso não significa ser alheio aos usos político-sociais da tecnologia e suas implicações no cotidiano, mas, sim, criar novas epistemologias de tecnologia e percebê-la como um campo em disputa. A partir dessa abordagem, podemos elaborar formas de intervenção no presente, de promoção de reparações históricas por violências cometidas no passado e de ampliação das possibilidades de futuro.

Assim, Técnicas da evidência histórica: visualidade, giro forense e tecnologia é título da pesquisa, e nele estão os principais conceitos utilizados para o desenvolvimento do trabalho, que se propõe, a partir da nossa contemporaneidade (a qual Crary, em Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX, define como um presente visual, repleto de imagens) pensar as novas técnicas de produção de evidência histórica com a utilização dessa tecnologia que surge e ordena o presente. É importante ressaltar que a evidência, seja ela histórica ou judicial, por exemplo, é sempre algo construído por meio da técnica, nunca algo “dado”.

Nesse sentido, a noção de giro forense é central na pesquisa e articula os conceitos de evidência, história e tecnologia em uma prática que busca reexaminar episódios de violência e violações de direitos humanos com a utilização de técnicas da ciência forense. Inaugurado na década de 1980 pela Equipe Argentina de Antropologia forense, o giro forense foi além da ciência forense tradicional, pois lidava com as particularidades do processo de Justiça de Transição vivido pelo Estado Argentino e por outros que passaram por regimes autoritários. Posto isso, cabe-se questionar: o que fazer se o Estado esconde evidências ou busca evitar acusações de violações de direitos humanos? Ou seja, como investigar Estados que não passaram por processos de justiça de transição? É a partir dessa possibilidade de investigação e produção de evidências que surge a prática contraforense e a Forensic Architecture (FA), uma agência de pesquisa na Universidade de Londres que conduz investigações sobre violações de direitos humanos. 

O estudo do trabalho multidisciplinar, conduzido pelo grupo a partir da disciplina histórica, amplia as possibilidades de produção de evidências dentro e fora da disciplina, pois as investigações conduzidas pelo grupo são levadas a tribunais internacionais como provas. Na pesquisa, estudamos as produções teóricas que falam sobre o trabalho realizado pelo grupo, como o livro Forensic Architecture: Violence at the Threshold of Detectability (escrito por Eyal Weizman, diretor da FA) e o diálogo que essas produções estabelecem com os estudos de mídia, tecnologia, arqueologia das mídias, direitos humanos, além, é claro, de explorar a relação que todos esses saberes têm com a História. Junto a isso, analisamos as investigações conduzidas pelo grupo com o intuito de elaborar um banco de dados que concentre não apenas as investigações da FA, mas, também, as diversas investigações contraforenses ao redor do mundo.

Na minha apresentação para o SIC, trouxe o exemplo de uma investigação realizada pela FA que materializou alguns dos conceitos que apresentei. A Executions and Mass Graves in Tantura analisou valas comuns e identificou a existência de outras valas a partir de evidências cartográficas e fotográficas do antes e depois do massacre cometido pelo exército israelense ao vilarejo palestino de Tantura. A investigação utilizou uma série de metodologias, como reconstrução 3D, open-source intelligence, além do testemunho situado, que é uma técnica de reconstrução de evidência a partir da centralidade do depoimento da vítima. A técnica é muito próxima da História Oral, no entanto, é a partir dela que um modelo 3D da cena do crime é criado. Nessa técnica, a memória e a lembrança do lugar situam o testemunho da vítima no espaço, constituindo uma evidência que é, ao mesmo tempo, elaborada, em parte, pela memória e, outra parte, pela técnica. Segundo o próprio site da FA, o modelo 3D do Vilarejo de Tantura reconstitui um lugar há muito tempo apagado da paisagem contemporânea e demonstra as maneiras que a memória do lugar se sustenta a partir da memória da população. Dessa forma, a investigação é, não somente, um instrumento de preservação da história e memória dos habitantes de Tantura, mas, também, a evidência, ou possível prova, de um crime.


Maria Eduarda Kossatz Leal é graduanda em História pela UFRGS e bolsista no Laboratório de estudos sobre os usos políticos do passado (Luppa).


Em primeiro plano, prédio do Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, localizado no centro de Porto Alegre. Ele é bege, com detalhes coloridos. No fundo, aparece o céu azul e também o topo do prédio da Faculdade de Educação.

Ensaio

As imagens dos artigos desta edição compõem o ensaio fotográfico Entrelinhas, produzido por Marcelo Pires, estudante de Jornalismo da UFRGS e bolsista de Fotografia do JU. Confira o ensaio completo.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”