Um acervo virtual de cerâmicas gregas 3D para a pesquisa e o ensino de História

Artigo | Mestrando no PPG em História, Vander Gabriel Camargo propõe a disponibilização de modelos virtuais como forma de democratizar o acesso ao patrimônio arqueológico da Antiguidade

*Por Vander Gabriel Camargo
*Foto: Arquivo Pessoal

As mídias e as tecnologias digitais não tomaram conta só do nosso cotidiano, mas infiltraram-se na História para dar-lhe mais vivacidade e torná-la mais compreensível pelos olhos contemporâneos. Filmes, jogos e animações são exemplos de produções em que encontramos narrativas que imaginam o passado e buscam representá-lo de forma a aproximar as pessoas do mundo antigo. Ao contrário de lutar contra as novas formas de pensar a História, as novas mídias podem ser usadas como aliadas ao nosso entendimento sobre os indivíduos que viveram há centenas ou milhares de anos. Uma das possibilidades é o uso das tecnologias de modelagem 3D para a replicação de artefatos arqueológicos nos ambientes virtuais, tendo isso sido feito com um grupo de cerâmicas gregas que foram transformadas em mídias digitais em um TCC do curso de Bacharelado em História da UFRGS.

A Grécia Antiga, para além das várias estátuas que conhecemos, foi uma civilização que produziu milhares de cerâmicas, recipientes utilizados para os mais variados fins e nos diferentes espaços sociais, sendo, por isso, fontes valiosas para se examinar o cotidiano dos grupos humanos que viveram naquele território e naquele período. No entanto, os vasos gregos estão espalhados pelo mundo, localizados em diferentes museus, o que dificulta o seu estudo por brasileiros que pesquisam na área e por educadores que buscam explorar esses objetos em sala de aula junto de seus alunos e alunas.

Considerando as cerâmicas como peças-chave para conhecermos mais sobre parte das populações que viveram no Mediterrâneo há mais de dois mil anos e buscando democratizar o acesso a esses objetos, ao mesmo tempo que divulgar a diversidade de seus formatos, técnicas e locais de confecção, foi desenvolvido um acervo online com modelos 3D de vasos gregos como Trabalho de Conclusão do Curso (na modalidade “práticas de história digital e humanidades digitais”). A sua produção foi orientada pelo professor Francisco Marshall (IFCH/UFRGS) e pela professora Kátia Pozzer (IA/UFRGS) e visa permitir o manuseio dos artefatos por meio de computadores e smartphones, ou seja, a interação entre as pessoas e os objetos produzidos no passado e (re)produzidos no presente.

Figura 2:  Processo de modelagem 3D de um cálice produzido em Atenas, realizado no software Blender (Foto: Acervo do autor)

O acervo de cerâmicas gregas, criado em uma plataforma de publicação de modelos 3D (o Sketchfab), é composto por dez vasos que foram modelados digitalmente, tomando como referência os objetos originais.

Os vasos tridimensionais digitais que constituem a coleção virtual representam os formatos mais comuns de recipientes cerâmicos produzidos e consumidos pelos gregos antigos, sendo que cada um deles conta com um texto em que é explicada a sua possível utilização na Antiguidade. 

Entre os vasos que são encontrados no acervo digital, citam-se: uma ânfora de produção Ática (região onde fica Atenas), uma enócoa feita em Mileto e um aríbalo criado em Corinto, todas elas com mais ou menos 2.500 anos de idade. As funções das cerâmicas vão desde o consumo do vinho e o transporte e armazenamento de outros líquidos ou comidas até o uso como recipientes para guardar perfumes e óleos de higiene pessoal. 

Com o objetivo de divulgar o acervo e os modelos 3D, foram elaborados cartões informativos que estão sendo divulgados no perfil do Instagram do projeto de extensão da UFRGS ERGANE: Arqueologia Digital na Educação, nos quais são expostas maiores informações sobre cada um dos formatos de cerâmica grega, além de possuírem animações dos artefatos em rotação que possibilitam uma maior compreensão da sua tridimensionalidade.  

Figura 3: Imagem do acervo de modelos 3D de cerâmicas gregas (Foto: Acervo do autor)

Os artefatos digitais também foram impressos em 3D, a partir da impressora do Centro Acadêmico de Tecnologia (CTA/IF) ao qual o ERGANE é vinculado. As impressões foram todas feitas em 1/4 do tamanho original das peças e vão compor uma caixa pedagógica, em breve disponibilizada pelo projeto para empréstimo a educadoras e educadores, para ser utilizada em sala de aula. Abordagens educativas que também compõem a caixa.

A sua produção tem a finalidade de contribuir para o ensino de História Antiga e de garantir maior acessibilidade na construção do conhecimento do passado, visto que, a partir da sua materialidade, podem ser explorados outros sentidos para além da visão no exame das fontes históricas.

O trabalho elaborado pelo autor, desse modo, faz parte do movimento crescente de expansão da utilização das novas tecnologias digitais para o estudo e a preservação do patrimônio arqueológico que data das últimas décadas (da Silveira, 2022). Ao explorar as possibilidades dos programas de modelagem 3D para a replicação de estruturas e artefatos arqueológicos em ambiente virtual, os resultados da pesquisa e do trabalho técnico são os de aproximar as pessoas aos artefatos históricos a partir de mídias digitais que simulam as suas características materiais, garantindo, assim, maior interação com os vestígios do passado. 


Vander Gabriel Camargo é mestrando no Programa de Pós-graduação em História/UFRGS, sendo bacharel e licenciado em História. É um dos fundadores do projeto de extensão ERGANE: Arqueologia Digital na Educação, sob coordenação geral do professor Pedro Telles da Silveira, e é membro do Laboratório de Estudos da Antiguidade Oriental (LEAO), sob coordenação da professora Kátia Maria Paim Pozzer.


“As manifestações expressas neste veículo não representam obrigatoriamente o posicionamento da UFRGS como um todo.”