Artigo | Ricardo Lubisco e Tatiana Engel Gerhardt relatam o processo de produção do documentário Eu, nós… Elas Quilombolas, rodado na comunidade quilombola de Morro Alto
*Por Ricardo Lubisco e Tatiana Engel Gerhardt
*Arte: Paulo Corrêa. Instalação Terragrita. Técnica mista.
Em 2022, em meio à crise sanitária de covid-19, tive a oportunidade de participar de um grupo de pesquisa que construiu um documentário em longa-metragem sobre a vacinação contra covid-19 na comunidade quilombola de Morro Alto (RS). Esse documentário foi a base para o meu relato de experiência e a construção do meu Trabalho de Conclusão de Curso do Bacharelado em Saúde Coletiva, realizado no semestre letivo de 2023/2.
A ideia de realizar o documentário Eu, nós… Elas Quilombolas surge da conjunção de pelo menos duas situações: estarmos vivenciando a maior crise sanitária, econômica e política do Brasil, que nos desencadeou o compromisso e a responsabilidade ético-política de registrar esse momento, muito motivado pela integração da minha orientadora, Tatiana Engel Gerhardt, e de Jaqueline Oliveira Soares, membros da equipe no GT “Racismo e Saúde”, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), pelo acompanhamento feito pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), importante exemplo de movimento social organizado no enfrentamento à pandemia, ao racismo e à necropolítica. Ao mesmo tempo, por um projeto de pesquisa em andamento que foca nas adversidades no território rural e no cuidado à saúde, no qual, a partir de uma bolsa de iniciação científica, estava se refletindo sobre o processo de vacinação contra covid-19, particularmente nas populações quilombolas. A escolha da comunidade quilombola de Morro Alto, presente entre os municípios de Maquiné e Osório, se deu por ser um dos maiores quilombos do Rio Grande do Sul, ainda não titulado, ilustrativo das situações envolvendo as dificuldades de reconhecimento da identidade quilombola para a vacinação.
Partiu-se, então, para a problematização da situação, buscando refletir sobre a naturalização da pandemia e, sobretudo, sobre a gravidade da falta de respostas adequadas, o que estava resultando na morte de populações vulnerabilizadas em um país tão desigual e injusto, e a sua não gestão e toda a sua complexidade. Nessa problematização, foi visto que a falta de informações e dados, naquele momento da pandemia, levou as próprias comunidades quilombolas a se responsabilizarem pelo mapeamento tanto do número de casos confirmados e suspeitos em seus territórios quanto da própria identificação de quem seriam as pessoas a serem vacinadas pela lista de prioridades do Ministério da Saúde. Um passo importante no reconhecimento identitário dessa população, mas que também revelou questões estruturais que prejudicaram e dificultaram o processo de vacinação.
Imersos nessa realidade e atentos à problemática da invisibilidade que marcou os processos de tomada de decisão (ou de falta de tomadas de decisão), o grupo de pesquisa foi buscar na produção audiovisual, para além do registro desse contexto, a possibilidade do desenvolvimento de um dispositivo pedagógico capaz de abordar a ausência do Estado, a necropolítica, o racismo estrutural e institucional, o privilégio e o direito que afetam as populações quilombolas e todas as demais populações invisibilizadas e vulnerabilizadas. O objetivo, então, dessa produção audiovisual, foi registar e documentar, mas fundamentalmente dar visibilidade a essas questões, tendo a vacinação contra covid-19 como ilustração desses processos que buscaram explorar e analisar os enfrentamentos das adversidades, vulnerabilidades, desigualdades e iniquidades que foram pautadas no racismo estrutural às quais essa população está submetida historicamente.
Com essas premissas postas, se buscou constituir uma equipe de trabalho que pudesse produzir esse documentário. Inspirados e ao mesmo tempo desafiados pelos usos da imagem na pesquisa científica, associando ciência e arte, razão e emoção, e produzindo um caminho metodológico a partir do método de produção audiovisual, foi-se entrelaçando também a referência estética de algumas linhas de captação das imagens a partir de Eduardo Coutinho, com referências teóricas da sociologia da imagem, da antropologia e imagem, para que se pudesse construir essa produção audiovisual.
Na época da pré-produção, em janeiro de 2022, ainda estávamos em distanciamento social. As nossas reuniões e os primeiros encontros, naquele momento, ainda para nos conhecermos enquanto equipe e entendermos melhor o projeto e seus objetivos, foram a distância. Dessa mesma maneira foram feitas a construção e passagem do roteiro. Fizemos esse processo com as mulheres quilombolas também, apresentando todo o projeto remotamente para ver se elas aceitariam, se achavam importante e como poderiam contribuir (inclusive para o roteiro). Fomos apresentando as ideias, e elas foram sugerindo questões, assim como com as profissionais de saúde e com as gestoras em saúde dos âmbitos regional e local.
A ideia de envolver um leque de atores que pudesse falar sobre a mesma situação, de perspectivas distintas, foi muito importante naquele momento. No início das discussões, falávamos muito sobre “as listas” e “os braços”. Foi o ponto de partida dessa história, a partir do que tínhamos conhecimento do que essas mulheres haviam feito: uma lista com os nomes de pessoas quilombolas aptas a receberem as doses de vacina e que tinham se responsabilizado pela construção dessa lista. Mas, a partir disso, houve uma problematização de pessoas que já não moravam no quilombo, que precisavam sair para trabalhar em outras cidades/estados e que, por conta disso, tinham perdido esse direito à vacinação na comunidade de Morro Alto. Essa era a principal questão que eu e a Tatiana discutimos nas primeiras conversas.
A partir disso, foram se desencadeando várias questões, como “o que era ser quilombola” e como, justamente, os pontos de vista são distintos em relação a isso, a depender do lugar que as pessoas estavam ocupando naquele momento.
Marcamos a data, juntamos a equipe e partimos para Osório. A equipe ficou alocada em duas residências: uma para o núcleo acadêmico e outra para o núcleo técnico, o que acabou sendo uma ótima escolha, pois sempre após os dias de gravação nos reuníamos e discutíamos sobre o dia de filmagens, o trabalho realizado e o planejamento para os dias seguintes. E a equipe do roteiro, da mesma forma, discutia como lançar questões ou até mesmo questões que não estavam previstas e poderiam ser realizadas. A ideia era de um roteiro semiestruturado, ou um guia de entrevistas: deixar as questões surgirem ao longo das entrevistas. Isso segue um pouco a ideia do que acontece nos filmes etnográficos, na própria pesquisa etnográfica, que é essa fluidez do processo. Porque estamos trabalhando em inter-relação com as pessoas. Dar essa flexibilidade ao roteiro foi essencial. Ele foi se construindo e se reconstruindo nesses quatro dias de gravação, que foram bastante extensos em número de horas de trabalho, pois iniciávamos às 8h e finalizávamos às 20h.
A realidade dessa produção nos moldou enquanto indivíduos, enquanto pessoas que estávamos lá, com uma ideia preconcebida. Fomos vivenciando em um período de quatro dias e desenvolvendo essa vivência nas singularidades das filmagens. Isso é algo muito verdadeiro. Dificilmente conseguiríamos retratar ou registrar aquela realidade se partíssemos de um roteiro rígido.
Fomos nos adaptando enquanto equipe ao ambiente e ao que se colocava para nós e, principalmente, ao que as pessoas estavam nos oferecendo. Foi isso que captamos, é isso que está registrado. Foram mais de 20 horas de gravação para 1h18 de documentário. Então muitas falas foram deixadas de fora, claro, depois de muita discussão entre a equipe na pós-produção, mas precisávamos cortar para montar um documentário coerente e com os momentos mais preciosos daquela experiência.
Com mais de 20 horas de gravação, precisávamos, então, passar para essa etapa de pós-produção, na qual precisaríamos pensar em trabalhar todas as tomadas produzidas, em termos de imagem e de áudio, mas sobretudo iniciar a montagem. Fizemos algumas reuniões com a equipe completa para entendermos onde queríamos chegar, depois de já ter vivenciado essa experiência e o que a gente poderia construir a partir disso.
Na mesa de montagem do filme, me vejo desafiado com esse montante de falas, porque tínhamos inicialmente o tema central da vacinação na comunidade quilombola, mas, durante a gravação, surgiram todas essas outras questões que foram trazidas por essas mulheres até nós e que não poderiam ficar de fora. Então, o desafio era: como que a gente vai construir um curta-metragem com 20 horas de gravação? Como vamos colocar todas essas falas em no máximo 29 minutos? Todas essas falas, toda a importância dessas questões que elas nos trouxeram e ainda contextualizar a vacinação?
Durante esse processo, conforme eu fui colocando os arquivos no editor de vídeo e tentando fazer uma montagem linear do que tinha acontecido, para que fosse possível visualizar o que tínhamos de material, foi ficando cada vez mais nítido que seria impossível fazer um curta-metragem. Quer dizer, possível seria, só que ainda assim hoje eu teria escolhido não fazer. Porque muita coisa teria que ser cortada, e muita coisa importante, que mexe com a gente, com quem está assistindo. São questões que perpassam esse tema inicial da vacinação contra covid-19 e que desencadearam falas e situações que precisavam ser ditas e que também se relacionam com um tema central de saúde coletiva, de saúde dessa população de uma maneira geral. Não era nosso papel, enquanto produtores audiovisuais e enquanto equipe de cientistas, deixar essas questões de fora por uma mera questão de roteiro. Então, após algumas reuniões, decidimos que faríamos um longa-metragem, em vez de um curta. Este foi um dos momentos mais importantes dessa produção toda.
Esse desejo de colocar esse registro no mundo tinha a nossa vontade de que ele também pudesse percorrer os caminhos dos festivais de cinema e também caminhos fora do próprio campo da saúde coletiva, da universidade. A densidade do que tinha nas gravações, entretanto, nos colocou a pensar sobre os objetivos que a gente teria com essa produção. Em uma dessas reuniões, foi esboçado um roteiro inicial de montagem, para tentar guiar o espectador pela história principal, pelo fio que unia todas as histórias, que era a vacinação, e a partir disso desencadear outras falas, abordar outras questões. E foi nesse sentido que foi feita a montagem do filme. Foi um processo longo de sete meses. Um trabalho de formiguinha, um pouquinho a cada dia, para que se pudesse chegar em uma primeira versão.
Em vários momentos das falas das mulheres quilombolas, veio a questão que é ilustrada na fala inicial da Catiane: “Eu, quilombola, ser vacinada enquanto uma quilombola, fez uma grande diferença”. Então houve todo um momento de visualização de cada uma dessas histórias, individualmente, para que a gente pudesse conseguir pensar como que elas poderiam ocupar um fio narrativo que não fosse a linearidade dos acontecimentos, e veio muito fortemente essa questão do “Eu, ser quilombola”, em um primeiro momento. Mas esse “eu” está ligado a uma identidade que é coletiva, que não é só o “eu” individualmente. E o próprio processo de vacinação também representava isso.
Não bastava um só individualmente ser vacinado, todos precisariam ser vacinados, porque, afinal de contas, a proteção é coletiva e não individual. Isso foi fazendo sentido pra gente na busca dessa linha narrativa.
Nesse processo de montagem nos demos conta de que essas mulheres quilombolas eram as protagonistas. A história inicial que queríamos contar sobre a vacinação contra covid-19, de como as gestoras lidaram com isso, como as profissionais de saúde lidaram e isso, foi ficando um pouco ofuscada por todas essas questões que as mulheres quilombolas nos trouxeram. A questão quilombola emergiu pra gente durante o processo de montagem, porque foi o momento em que paramos para ver e escutar essas falas, as entrevistas. A gente discutiu sobre elas. Assistimos essas 20 horas de filmagem algumas vezes para então nos darmos conta de que essas mulheres eram as verdadeiras protagonistas. A questão quilombola é o protagonismo no filme. E a Tatiana veio com a ideia brilhante do título “Eu, nós… Elas Quilombolas”. O título era algo que a gente já estava há algum tempo pensando e que primeiro seria “Se não fossem as listas e os braços”, título totalmente voltado ao processo de vacinação.
O intuito da montagem era cortar um pouco esses laços acadêmicos e tornar essa experiência uma produção audiovisual independente da questão acadêmica. Eu fui trabalhando no processo de montagem com a perspectiva do espectador, da visão. Como seria interessante passar essa história para que quem estivesse assistindo entendesse os conceitos da vacinação que a gente queria passar, de como se deu essa história naquela comunidade quilombola, mas também trazer todo o tempo a importância da identidade. Então o filme é todo entrecortado por essas questões do início ao fim: vacinação e identidade.
Foram sete meses de edição, um ano de produção total do documentário. A montagem do filme, as reuniões, a sensibilidade para se chegar a uma ideia final, tudo isso aconteceu junto com muitas outras coisas na nossa vida. Trabalhando em outros projetos, estudos, etc. Então, durante a pós-produção, nós não nos dedicamos exclusivamente a esse trabalho, e isso tem um impacto no resultado. Me sinto muito orgulhoso do que construímos, tem muito carinho e dedicação envolvidos. Só que seria mais bem lapidado se tivéssemos, por exemplo, um financiamento mais robusto, que a academia acreditasse na produção audiovisual enquanto ciência, que valorizasse a produção científica através da arte. De encontrar a sua legitimidade enquanto uma forma de produção que tem uma potência e que não é somente uma divulgação científica, é a potência de produzir uma transformação social, muito distinta da produção escrita tradicional.
A potência do uso das imagens está nisto: provocar transformações que dialoguem mais com o imaginário social do que a escrita. Há uma escrita nessas imagens.
O fato de ter escolhido gravar em audiovisual essa experiência se deve à dificuldade de não se conseguir retratar da mesma forma – essa escrita visual – em uma escrita textual. Esse pensar em imagens é um exercício que não é simples e, portanto, nos exige um deslocamento que é também epistemológico. E isso não tem menos valia do que pensar textualmente. São formas distintas, mas ambas possíveis de serem utilizadas na produção científica. Essa produção não teria o mesmo impacto se fosse um artigo científico. Se não tivéssemos imagens, se não olhássemos para aquelas mulheres e não tivéssemos elas olhando para a câmera. Se não retratássemos isso em ilustrações, com os pássaros voando, se não mostrássemos a figueira, os campos daquela região. A valorização entra na conjunção desses elementos que é o principal que trago pra esse trabalho de conclusão.
É um sentimento de alívio ter conseguido realizar esse trabalho. Tenho muito orgulho de ter feito esse documentário, principalmente por todas as questões que ele traz pra nós, pra sociedade. Orgulho da reflexão que fizemos enquanto equipe em todos os processos, desde a pré-produção até a pós-produção, de como lidamos com cada situação. Honramos muito a ética. Assim que finalizamos um primeiro corte, voltamos à comunidade de Morro Alto e fizemos uma sessão para apresentar o filme a essas pessoas. Fizemos pipoca, desfrutamos dos laços construídos durante a produção. Nós queríamos ver o que elas pensavam e se estavam de acordo com o que estávamos mostrando no filme. Nós queríamos mostrar a elas que estávamos ali não apenas para realizar o nosso trabalho no campo documental, mas que também havíamos nos afetado por essa experiência e que isso havia transformado a nossa relação e quem éramos até aquele momento.
O uso das imagens na atuação de um profissional sanitarista é riquíssimo. Somos um tipo de profissional que é formado para analisar as mais diversas questões que envolvem a saúde, do micro ao macro, e pensar em como podemos fazer para resolver problemas ou para melhorar essas situações que estamos estudando. No caso desse documentário, tentamos expressar, por meio da escuta e da linguagem visual, subjetividades latentes na construção das relações entre as pessoas que compõem a comunidade quilombola de Morro Alto (RS) e as pessoas profissionais de saúde que se relacionam com essa comunidade.
A forma artística com que resolvemos mostrar essa história revelou questões subjetivas que só apareceriam dessa maneira, como as imagens da Figueira capturadas por um drone, a fala engasgada da Dona Edite ao relembrar a sua luta para o fortalecimento da comunidade quilombola pela Associação Rosa Marques Osório, a percepção da jovem Maísa ao se compreender parte dessa grande família quilombola de Morro Alto, as ilustrações que conectam passado e presente, real e imaginário, e que falam diretamente com o emocional de quem está assistindo à obra. São elementos que não teriam o mesmo resultado apenas em um artigo científico (o qual a realização desse documentário também produziu) ou apenas com a gravação em áudio. O áudio de emoção da Dona Edite não teria a mesma força do que com a sua imagem emocionada. E a devolutiva dessa construção, para a comunidade quilombola de Morro Alto, exemplifica a qualidade do trabalho realizado através (também) da percepção de um sanitarista.
O que antes era desconfiança (da comunidade com a equipe) virou confiança no momento em que se apagaram as luzes e as primeiras imagens tomaram conta do telão improvisado na parede da Associação Rosa Marques Osório. Fomos testemunhas da atenção, do respeito, das lágrimas e sorrisos que permearam o rosto de quem estava lá vendo a sua história sendo contada sem distorções, sem pequenos interesses disfarçados e com muito respeito. Se essa intervenção cinematográfica foi a Morro Alto (RS) apenas para o registro do processo de vacinação contra covid-19 dessa comunidade quilombola, saiu de lá com o registro de gerações de pessoas quilombolas que nunca antes haviam sido escutadas e que têm muito a nos ensinar enquanto profissionais da saúde, enquanto acadêmicos e enquanto pessoas que também vivem em comunidades.
Assim como foi pra nós, que esse documentário possa ser realmente um dispositivo pedagógico antirracista.
Ricardo Lubisco é bacharel em Saúde Coletiva pela UFRGS e produtor audiovisual.
Tatiana Engel Gerhardt é professora da UFRGS e atua no bacharelado em Saúde Coletiva, na Pós-graduação em Saúde Coletiva (PPGCOL) e na Pós-graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR).

Especial novembro negro 2024
Ensaio | Paulo Corrêa
Todo ano o JU convida artistas negros para comporem visualmente a edição alusiva ao Dia da Consciência Negra. Cada texto é acompanhado por uma obra do artista e o conjunto pode ser acessado na página especial do Ensaio.
Paulo Corrêa. Instalação Terragrita. Técnica mista.





