ACONSELHAMENTO AOS PACIENTES

Um dos tópicos de maior importância dentro da oncofertilidade é a conscientização de profissionais de saúde e o esclarecimento aos pacientes sobre os riscos que o tratamento do câncer pode trazer à saúde reprodutiva e quais as opções para a preservação da fertilidade (PF). Infelizmente, ainda é baixo o índice de aconselhamento sobre PF para pacientes com câncer, além de existirem várias barreiras de acesso à PF dentre as (os) pacientes aconselhadas(os).

Barreiras de acesso à preservação da fertilidade 
1. Barreiras em relação aos pacientes:
Quando informados sobre a possível perda de fertilidade resultante do tratamento quimioterápico, muitos pacientes e familiares podem ter dificuldades em entender o real impacto em suas vidas. Da mesma forma, quando conscientizados em relação às opções de PF, os pacientes podem não conseguir tomar uma decisão. A quantidade de informações que os pacientes recebem a respeito do diagnóstico e tratamento oncológico é muito grande, e a depender do nível de literacia em saúde, algumas mensagens podem ser de difícil compreensão. Além disso, os pacientes podem temer que o atraso no início do tratamento oncológico para a realização da PF possa levar a uma piora na progressão do câncer. 
Assim, os profissionais de saúde devem dedicar tempo para informar os pacientes sobre todos os aspectos da fertilidade relacionados ao tratamento oncológico, além de fornecerem os encaminhamentos necessários. Pesquisas indicam que os pacientes esperam ser informados sobre os riscos de fertilidade e opções de PF, além de terem informações completas e personalizadas para tomar uma decisão reprodutiva em tempo hábil (Wyns et al., 2015). Para os pacientes pediátricos, as decisões relacionadas à PF podem ser tomadas pelos seus familiares/cuidadores. Nessa situação, muitos fatores podem exercer influência, como o contexto cultural dos responsáveis, as crenças religiosas, o  desejo dos responsáveis em ter uma continuidade da família e a percepção familiar de custo-benefício das técnicas de PF, entre outros. Pode ser necessário um diálogo aberto com adolescentes a respeito de sexualidade e de tópicos sensíveis como a masturbação (para coleta de sêmen), o que pode ser uma barreira em alguns casos. Pacientes que se sentem embaraçados nessas conversas familiares são menos propensos a terem uma ampla conscientização e a considerarem a PF (Taylor et al, 2016)
Quando ultrapassadas as barreiras a respeito da conscientização sobre fertilidade, outro impedimento que pode surgir é o custo das técnicas de PF, não disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Estes custos podem incluir consultas a especialistas, congelamentos de oócitos, espermatozoides, embriões, anuidades para clínicas de fertilização e futuras técnicas de FIV, além de outros procedimentos. 

2. Barreiras em relação aos profissionais de saúde:
Profissionais de saúde que atendem pacientes oncológicos devem esclarecer seus pacientes sobre os possíveis riscos do tratamento à fertilidade, bem como sobre as opções de PF. Além disso, os pacientes devem ser encaminhados para profissionais especializados em reprodução assistida o quanto antes possível. Apesar disso, ainda é grande o percentual de profissionais que não esclarecem e encaminham seus pacientes , devido ao baixo nível de informação do próprio profissional, a uma leitura equivocada de que a preservação da fertilidade não é muito relevante no planejamento do tratamento oncológico e à falta de tempo durante as consultas, dentre outras razões. 
A ASCO (American Society of Clinical Oncology) possui um guia para profissionais de saúde em oncologia contendo tópicos de discussão e encaminhamento relacionados à oncofertilidade (saiba mais em: <https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.2018.78.1914#:~:text=Suggest%20established%20methods%20of%20fertility,testicular%20cryopreservation%2C%20which%20are%20investigational.>).
Segundo o guia, todos os profissionais da área devem estar preparados para discutir as questões relacionadas à infertilidade assim que o diagnóstico de câncer for realizado, e de forma simultânea ao planejamento do tratamento. Durante este aconselhamento deve ser adotada uma abordagem multidisciplinar, envolvendo os profissionais da oncologia e da reprodução assistida, além de outros profissionais, como psicólogos. 

3. Barreiras em relação aos sistemas de saúde:
Além da indisponibilidade das técnicas de PF no SUS, já mencionada anteriormente, outras barreiras relacionadas ao custo e ao acesso à PF também são relevantes. Dentre elas, destacam-se: a falta de profissionais e estabelecimentos próximos à região onde o paciente está sendo tratado, dificuldades em relação a reembolsos para consultas ou procedimentos dos pacientes que possuem planos de saúde, e desconhecimento por parte do profissional oncológico de equipes e estabelecimentos relacionados à PF.