MEDICAMENTOS QUE AFETAM A FERTILIDADE FEMININA
O conhecimento a respeito de medicamentos que podem afetar a fertilidade feminina a médio e longo prazo ainda não é completo. Os parâmetros de fertilidade para os homens (como a quantidade e a qualidade dos espermatozoides) são mais fáceis de serem analisados em estudos experimentais e clínicos quando comparados aos parâmetros de fertilidade da mulher (como alterações na reserva ovariana ao longo de um tratamento farmacológico).
O eixo hipotálamo-hipófise-ovários controla os ciclos menstruais, a ovulação e a receptividade uterina; portanto, medicamentos que alterem a comunicação desse eixo podem dificultar a gravidez. Medicações que alterem os níveis de prolactina podem também afetar a ovulação e reduzir a fertilidade.
Medicamentos antiepiléticos: estudos em roedores e em humanos demonstram que o valproato pode induzir alterações hormonais, estando associado a alterações nos ciclos menstruais e hiperandrogenismo. A fenitoína e a carbamazepina podem aumentar a SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais), que é uma proteína que se liga a hormônios sexuais como a testosterona e o estrogênio. No entanto, não há evidências de que tanto a fenitoína quanto a carbamazepina alterem a fertilidade.
Medicamentos antidepressivos: segundo a pesquisa Vigitel 2021, 11,3% dos brasileiros relataram ter recebido diagnóstico médico de depressão, com uma frequência maior entre as mulheres (14,7%) do que em homens (7,3%). Um estudo aponta que, entre mulheres buscando tratamento da infertilidade, a prevalência de depressão chega a 41% (Crawford, 2017). Alguns antidepressivos como ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) podem interferir nos hormônios sexuais e também reduzir a eficácia de tratamentos para a fertilidade. Contudo, os resultados em estudos clínicos são inconclusivos. Uma pesquisa incluindo 1.650 mulheres em tratamento para fertilidade demonstrou que o uso de antidepressivos não alterou o índice de gestações, mas foi associado com maior risco de perda gestacional no primeiro trimestre, especialmente nas que utilizavam medicações não ISRS – apesar de alguns resultados conflitantes. (Evans Hoeker et al., 2018).
Outros medicamentos: alguns estudos já apontaram associação de comprometimento à fertilidade com uso crônico de anti-inflamatórios corticosteroides (como cortisona e prednisona) e medicamentos que aumentam os níveis de prolactina, como os antipsicóticos risperidona, clorpromazina, haloperidol, o antiemético metoclopramida, imunossupressores como a ciclofosfamida e o agonista de receptor H2 da histamina cimetidina, entre outros.
Quer saber mais sobre o assunto?
– Crawford NM, Hoff HS, Mersereau JE. Infertile women who screen positive for depression are less likely to initiate fertility treatments. Human Reproduction 32 (3): 582–587, 2017. doi:10.1093/humrep/dew351.
– Edinoff AN, Silverblatt NS, Vervaeke HE, Horton CC, Girma E, Kaye AD, Kaye A, Kaye JS, Garcia AJ, Neuchat EE, Eubanks TN, Varrassi G, Viswanath O, Urits I. Hyperprolactinemia, Clinical Considerations, and Infertility in Women on Antipsychotic Medications. Psychopharmacology Bulletin. 16;51(2): 131-148, 2021.
– Emokpae MA, Brown SI. Effects of lifestyle factors on fertility: practical recommendations for modification. Reproduction & Fertility 1: R13-R26, 2021. https://doi.org/10.1530/RAF-20-0046.
– Evans-Hoeker EA, Eisenberg E, Diamond MP, Richard S. Legro MD, Alvero R, Coutifaris C, Casson PR, Christman FM, Hansen KR, Zhang H, Santoro N, Steiner AZ. Major depression, antidepressant use, and male and female fertility. Fertility and Sterility 109(5): 879-887, 2018. doi: 10.1016/j.fertnstert.2018.01.029.
– Svalheim S, Sveberg L, Mochol M, Taubøll E. Interactions between antiepileptic drugs and hormones. Seizure 28: 12–17, 2015. http://dx.doi.org/10.1016/j.seizure.2015.02.022.