PRESERVAÇÃO DA FERTILIDADE EM MULHERES ADULTAS EM IDADE REPRODUTIVA
No caso de mulheres adultas em idade reprodutiva, a PF pode ser realizada a partir de diferentes técnicas. A opção mais adequada a ser empregada dependerá de fatores relacionados às condições físicas e de saúde da mulher, assim como sua condição social e marital. Vamos explicar a seguir estas opções de tratamento.
Criopreservação de embriões
A criopreservação de embriões (Figura 1) é a primeira forma de oferecer a oportunidade de gerar um descendente biológico a pacientes oncológicas adultas em idade reprodutiva. Essa possibilidade se concretizou a partir do estabelecimento e da ampla disseminação das tecnologias de reprodução assistida (RA) humana, vulgarmente conhecidas como técnicas de bebê de proveta.
Os avanços e aprimoramentos da criopreservação de embriões humanos gerados em laboratórios fizeram com que essa tecnologia se tornasse disponível em praticamente todas as clínicas de RA ao redor do mundo para casais inférteis. Entretanto, ela se aplica também a casos em que a mulher, plenamente fértil, se depara com alguma forma de câncer e, por conta do seu tratamento oncológico, pode perder sua fertilidade, tornando-se infértil ou até mesmo estéril.
Qual é a diferença entre esterilidade e infertilidade? A esterilidade refere-se à ausência de gametas nas gônadas, situação na qual a mulher ou o homem afetado não pode gerar filhos biológicos. Já no caso da infertilidade, o indivíduo possui gametas nas gônadas, mas, por algum outro fator anatômico ou fisiológico, ele ou ela não logra alcançar uma gestação e um nascimento bem-sucedidos, havendo a necessidade de buscar auxílio por intermédio de alguma técnica de RA.
A paciente oncológica que se encontra em uma relação marital estável pode procurar um centro de reprodução humana e se submeter aos procedimentos necessários para geração de embriões. Esses embriões podem permanecer armazenados nesse mesmo estabelecimento, em botijões de nitrogênio líquido (NLiq), até o momento em que a mulher, curada de sua condição oncológica, e seu parceiro desejarem fazer a transferência dos embriões para o útero da mulher, para tentar gestar e ter seu filho biológico. A seguir daremos mais detalhes sobre o processo de RA para a geração de embriões.
Um fator que deve ser levado em consideração, antes de escolher essa metodologia, é a estabilidade do relacionamento do casal, pois, caso venha a ocorrer uma separação ou a negativa do parceiro para que seja feita a transferência dos embriões, ela não poderá ser executada, mesmo que a mãe biológica assim o queira. O uso dos embriões gerados por um casal só poderá ocorrer a partir do consentimento de ambas as partes, conforme a legislação vigente no Brasil, assim como em muitos outros países do mundo. Outro fator importante a ser levado em consideração é a disponibilidade de tempo que a paciente tem antes de iniciar seu tratamento oncológico, pois o processo de geração de embriões poderá levar aproximadamente duas semanas. Por fim, como esse processo exige a administração de elevadas doses de hormônios na paciente, seu estado de saúde física deve também ser levado em consideração antes de optar pelo procedimento de RA.
Procedimentos para geração e criopreservação de embriões
O casal que deseja preservar a fertilidade da mulher a partir da geração de embriões próprios pode procurar um centro de reprodução assistida, onde os profissionais fornecerão toda a orientação sobre o processo de preparo para coleta dos gametas femininos (oócitos) e masculinos (espermatozoides), a fertilização em laboratório, o cultivo e a criopreservação dos embriões gerados, que serão armazenados em botijões de NLiq até que o casal deseje tentar uma gestação. A idade da mulher é um fator muito importante para o sucesso desse processo, visto que ela é um indicador da “reserva ovariana”, isto é, a quantidade de folículos e oócitos existentes nos ovários. Quanto mais jovem a paciente, maior deve ser a sua reserva ovariana e, portanto, maior será o número de gametas disponíveis para a fertilização e geração de embriões.
Como avaliar a reserva ovariana? Ela pode ser avaliada a partir de um exame sorológico para o hormônio antimülleriano (AMH), que indica de forma indireta a quantidade de folículos (e oócitos) presentes nos ovários. Também pode ser feito um exame de ultrassom nos primeiros dias da menstruação, para avaliar a quantidade de pequenos folículos em crescimento presentes nos dois ovários. Os dados obtidos a partir desses exames orientarão o médico sobre como realizar o processo da superovulação, no qual a paciente recebe doses de hormônio folículo-estimulante (FSH) por um número adequado de dias de forma que ocorra a produção máxima de oócitos maduros, aptos a serem fertilizados e a gerarem embriões saudáveis.
As doses de hormônios e os dias de administração dependerão da reserva ovariana e da resposta ao tratamento hormonal inicial, podendo ser concluído em poucos dias ou se estender por mais de uma semana. Assim, o tempo disponível pela paciente para dar início ao tratamento oncológico é um fator importante a ser considerado antes de ela decidir fazer o tratamento de RA para geração de embriões. Finalizada a superovulação, a paciente e seu parceiro deverão comparecer juntos na clínica de RA para a coleta dos oócitos e para que o parceiro produza uma amostra seminal. A coleta dos oócitos ocorre geralmente sob sedação. A coleta de amostra seminal ocorre na mesma ocasião, e o casal está apto a deixar a clínica poucas horas após o início dos procedimentos.
Os embriologistas do centro de RA realizarão o preparo dos oócitos e dos espermatozoides para a fertilização e os deixarão em cultivo até o dia seguinte, quando ocorrerá a observação e contagem dos embriões formados. Esses embriões permanecerão em cultivo por cinco a seis dias, em incubadoras específicas para que se desenvolvam até atingirem o estágio de blastocisto. Nesse momento, os blastocistos serão preparados para a criopreservação, isto é, serão expostos a substâncias crioprotetoras, que os protegerão das baixas temperaturas. Na sequência serão imersos em NLiq e permanecerão guardados em botijões pelo tempo necessário, até que o casal retorne para tentar uma gestação.
No seu retorno, a mulher será orientada sobre como ocorrerá o tratamento para receber o embrião em seu útero. Essa orientação poderá incluir ou não uma nova administração de hormônios, que irão auxiliar no preparo de seu endométrio. Cerca de dez dias após a transferência do(s) embrião(ões), a paciente poderá fazer um teste de gravidez e, caso esteja grávida, alguns dias após, poderá realizar um exame de ultrassom para visualizar o saco gestacional.
Procedimentos para a criopreservação de oócitos
A segunda opção de PF feminina é a criopreservação de oócitos através da técnica de vitrificação. Essa opção de PF pode ser utilizada para mulheres acometidas por alguma forma de câncer ou para aquelas que correm o risco de perder sua fertilidade em função de algum tratamento gonadotóxico. A vantagem desse procedimento sobre o de criopreservação de embriões está no fato de que a mulher não necessita estar em um relacionamento estável para coleta, armazenamento e futuro emprego dos oócitos para fertilização e geração de embriões.
Para a criopreservação de oócitos, a mulher será submetida a procedimentos semelhantes àqueles descritos na seção “Procedimentos para geração e criopreservação de embriões”. Ela deverá verificar sua reserva ovariana e submeter-se à superovulação e coleta dos oócitos. Esses gametas serão preservados em botijões de NLiq até quando a paciente, curada de sua patologia e desejando gestar, solicitar a “desvitrificação” dos oócitos e sua fertilização com sêmen de seu parceiro ou de um doador (banco de sêmen de doadores), para gerar embriões e fazer a transferência embrionária a fim de tentar uma gestação.