Depois do fim

Após um longo período de isolamento social, as relações humanas se tornaram uma grande incógnita, e o futuro permanece em aberto mesmo com as constantes adaptações

REPORTAGEM
Bruna Jacobovski
bruna_pjacobovski@hotmail.com

ILUSTRAÇÕES
Laur Peters (capa)
Munique Brum
Vitória Vieira

“Apesar da vontade de sair de casa e retomar à rotina, eu sinto muito medo, porque passei um ano em casa sem contato com amigos e familiares em função do vírus, e agora a exposição direta com pessoas que não sabemos se estão com o vírus ou não me apavora”, diz Fernanda Umsza, de 35 anos, bancária, de Porto Alegre, que teve que conciliar o home office com o final de sua gestação. Conviver com essa insegurança já se tornou parte do nosso dia a dia, mas como nos adaptamos a essa nova realidade?

Na imagem, uma plaquinha escrito “quarantine”, à mão, está pendurada na porta de uma casa
A quarentena teve início no Brasil em 16 de março de 2020, mas se tornou uma prática comum em todo o mundo | Foto: Freepik / Freepik

A pandemia da covid-19, que completou em fevereiro um ano no Brasil, provocou uma série de mudanças de hábitos na sociedade, e, com isso, muitas esferas foram prejudicadas devido às precauções que devemos tomar. Desde o início da pandemia até o final de março deste ano, a taxa de isolamento social no Brasil variou entre 31% a 62%. 

Esses índices, somados às regras de distanciamento controlado propostas pelos governadores dos estados, fizeram com que muitas escolas, faculdades, empresas e serviços se adaptassem. Dentre os termos que surgiram nesse período, alguns ganharam destaque, como o home office e o ensino a distância ou remoto. Essas adequações à rotina para conter o avanço do coronavírus modificaram não só o dia a dia, mas também a forma como nos relacionamos com outras pessoas. 

Alguns grupos foram mais afetados que outros, como os que ficaram desempregados na pandemia e aqueles que perderam familiares para o vírus, mas a adaptabilidade aos novos processos é contínua para toda a sociedade. Nos tornamos cada vez mais dependentes dos meios digitais para trabalhar, estudar e até nos aproximar de quem amamos. E a internet, que saiu do papel de coadjuvante para o de protagonista, passou a ter um grande peso nas relações humanas.

Entre idas e vindas

Arte: Vitória Vieira

As relações amorosas foram bastante afetadas pelo isolamento social. Diversos casais se separaram na pandemia. Segundo uma pesquisa do Colégio Notarial do Brasil (CNB), o número de divórcios aumentou 15% no segundo semestre de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019. A pressão psicológica da pandemia e a convivência constante em casa provocaram um desgaste nas relações, fazendo com que relacionamentos chegassem ao fim.

Porém, algumas pessoas seguiram na contramão desse movimento e criaram novos laços nesse período. Esse é um dos poderes da internet: proporcionar a aproximação entre pessoas sem necessariamente estarem no mesmo local. Como Lorenzo Quintana, de 22 anos, que conheceu a namorada, Daniela Costa, 19, por meio das redes sociais, apesar de ambos morarem em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. “A gente se conheceu pelo Instagram. Eu já conhecia ela de vista, porque ela era amiga de uma conhecida. Nos seguimos, e eu comecei a ver os stories dela.”

“Houve receio em nos encontrarmos a primeira vez, principalmente porque ela convive com a mãe e a avó, eu já fico mais sozinho, mas tentamos manter todos os cuidados possíveis”

LORENZO QUINTANA, que iniciou um novo relacionamento durante a pandemia

Eles começaram a se falar em julho de 2020, mas só se encontraram pessoalmente em agosto do mesmo ano. O encontro demorou para acontecer devido ao medo de contrair o vírus, principalmente por parte de Daniela, que estava trabalhando de casa com edição de vídeos. Já Lorenzo, por estagiar presencialmente no Palácio da Polícia, estava mais confortável com a situação. “Houve receio em nos encontrarmos a primeira vez, principalmente porque ela convive com a mãe e a avó, eu já fico mais sozinho, mas tentamos manter todos os cuidados possíveis”, comenta Lorenzo. Sobre o primeiro encontro, ele confessa: “A primeira vez que a gente se viu foi na casa dela, foi estranho, mas foi legal, sabe? Porque é diferente do que falar por mensagem”. Além disso, alega que se não estivéssemos na pandemia seria diferente. “O primeiro contato já foi um contato mais íntimo, que com certeza só aconteceu por causa da pandemia”, reitera.

Para ele, o único ponto negativo é a facilidade do relacionamento virar monótono, já que não é possível frequentar bares, cinemas e festas nesse momento. “Os contras é que tu cai numa certa rotina, sim, é sempre bom sair para comer e beber, ir a uma festa, mas é uma coisa que vai ser mais legal no futuro”, espera.

Novas rotinas 

A pandemia também afetou as relações no ambiente acadêmico. Brenda Maltz, de 21 anos, graduanda em História, entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no início de 2020. Uma semana depois do seu primeiro dia na faculdade, as aulas foram suspensas e só retornaram de maneira remota. “Entre a semana que eu tive aula presencial e o ensino remoto ter início, passaram alguns meses. No início, eu queria muito que as aulas voltassem, porque eu ainda mantinha aquela animação de primeiro semestre, mas a adaptação ao ERE [Ensino Remoto Emergencial] foi bastante dificil”, conta Brenda. 

“Quando entramos na universidade, conhecemos um mundo totalmente novo, e conhecer esse mundo através de uma tela, sem muito dinamismo, foi desanimador”

BRENDA MALTZ, que entrou na universidade em 2020 e teve de se adaptar ao ensino remoto

Para os calouros, foi um momento delicado, como ela ressalta: “Quando entramos na universidade, conhecemos um mundo totalmente novo, e conhecer esse mundo através de uma tela, sem muito dinamismo, foi desanimador”. Segundo Brenda, além do desafio de lidar com o ensino remoto, as interações sociais também foram afetadas por esse distanciamento, como, por exemplo, fazer trabalhos com desconhecidos. “As relações que criei com essas pessoas foram bem simples, exclusivamente para fazer os trabalhos.”

“Eu senti que a adaptação ocorria diariamente, porque é difícil a gente encontrar dentro de casa um espaço adequado para trabalhar já que é tudo improvisado”

FERNANDA UMSZA, que conciliou o final da gestação com o home office

Já para Fernanda Umsza, que conciliou o home office com o final de sua gestação, foi um período desafiador e de constante adequação, pois precisou assimilar todas as mudanças aos oito meses de gestação. “Eu senti que a adaptação ocorria diariamente, porque é difícil a gente encontrar dentro de casa um espaço adequado para trabalhar já que é tudo improvisado, então isso atrapalha um pouco”, afirma Fernanda. 

 Uma mesa com notebook, óculos, celular, fone de ouvido e uma pessoa segurando um lápis é retratada de cima, representando um ambiente de trabalho em casa
Com a pandemia, foi necessário se adaptar a novas rotinas e dinâmicas, como o home office e o ensino a distância | Foto: Freepik / Master1305

Dentre os benefícios do home office, como acordar quase no horário de começar a trabalhar por não ter deslocamento e poder estar de pijama até mesmo na frente do computador, Fernanda ressalta que um dos pontos negativos é o afastamento dos seus colegas. “O que eu mais senti falta do trabalho presencial foi a companhia das pessoas. Isso para mim faz muita falta, estar com as pessoas e compartilhar experiências.” Ela, que ainda não tem data para o retorno ao trabalho presencial após a licença maternidade devido ao agravamento da pandemia, lembra de outro ponto importante: a vaidade ficou “adormecida” nesse período. “Me dei conta que eu sinto falta até daquela rotina de levantar determinada hora, ter que me arrumar, sabe? Porque é muito fácil só levantar da cama, tomar um café, escovar os dentes e sentar na frente do computador”, completa Fernanda. Ou seja, aquilo que parecia ser uma vantagem no início da pandemia se tornou também um problema.

Em relação à sua filha de seis meses, Manuela, Fernanda afirma que não imagina como seria a rotina em home office com ela por muito tempo e nem como será o desenvolvimento da menina. Mas, com base na sobrinha de seis anos, que está distante dos amigos há mais de um ano, ela acredita que esse distanciamento está desgastando emocionalmente as crianças e que isso irá influenciar no futuro delas. “Essa coisa de ver os amigos pela tela do computador e não poder brincar, não poder estar junto, acho que está deixando ela [a sobrinha] chateada, e acredito que seja uma questão geral das crianças que estão em isolamento”, relata Fernanda. 

Além da questão emocional provocada pelo isolamento, a psicóloga educacional Victória Ferreira, de Belém, que mantém o perfil cyclo comportamental nas redes sociais, lembra do quão importante é a dinâmica escolar e de convívio social para o desenvolvimento comportamental. “As crianças, às vezes, não sabem distinguir o espaço, não aprendem a dividir, por exemplo, por  estarem sozinhas, sendo a única criança daquela casa”, explica Victória.


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O afastamento: da covid-19 à gripe espanhola

“As discórdias estão cada vez mais intensas no que se refere ao modo de pensar a crise sanitária e vêm estabelecendo uma forte polarização nos laços familiares e sociais”

ROSELENE GURSKI, psicanalista e professora do Instituto de Psicologia da UFRGS

Para a psicanalista e professora do Instituto de Psicologia da UFRGS Roselene Gurski, estamos vivendo um processo de erosão dos laços. Segundo ela, além do afastamento físico causado pelo isolamento social, a pandemia da covid-19 também evidenciou outras problemáticas, como a polarização política, a deslegitimação da ciência, os discursos de ódio e a disseminação de fake news. “As discórdias estão cada vez mais intensas no que se refere ao modo de pensar a crise sanitária e vêm estabelecendo uma forte polarização nos laços familiares e sociais”, aponta. Roselene ressalta que já vivíamos um cenário de mudanças nas estatísticas referentes à saúde mental, por isso os danos psíquicos provocados pela pandemia se sobrepõem e afetam ainda mais o modo de nos relacionarmos com o outro.

Ao contrário do cenário atual em que já existem certezas sobre as formas de transmissão do vírus, no passado, não havia essa construção rápida da ciência, então tudo era na base da hipótese e da experimentação, como comenta Gabrielle Werenicz, mestre em História e autora do artigo “Os braços da salvação: a mobilização de auxílio aos infectados pela Gripe Espanhola”. “Na época da gripe espanhola, as pessoas não tinham certeza do que poderia transmitir aquela doença. Poderia ser o contato com outras pessoas doentes, mas também poderia ser o ambiente, os lugares em que as pessoas viviam e circulavam. Então, na pandemia de 1918, diferentemente da nossa situação atual, não houve um distanciamento social pensando especificamente no distanciamento das outras pessoas”, afirma Gabrielle.

Apesar disso, ela relembra que a ideia de quarentena é muito comum ao longo da história e foi uma prática utilizada em diversos momentos, incluindo a gripe espanhola. “O isolamento era feito durante 40 dias, e a intenção era isolar tudo: as pessoas, os navios, as mercadorias e demais objetos. Na dúvida do que poderia estar transmitindo determinadas doenças, tudo era considerado suspeito”, pontua Gabrielle. 

As diferenças entre o passado e o presente são inúmeras, mas não há como negar que as epidemias geram impactos positivos e negativos nas relações humanas de uma sociedade. A psicanalista Roselene cita alguns desses pontos no contexto atual: “Foi favorável ver o uso das tecnologias como um dispositivo passível de produzir aproximações, o uso de videochamadas, por exemplo, ajudando a ultrapassar obstáculos de falta de tempo ou distância física”. Entretanto, há alguns contras desse movimento: “Tivemos uma pronunciada intensificação do sentimento de solidão e dos quadros de tristeza e depressão”, reitera.

Infográfico com título "Isolamento social - prós versus contras". Na categoria de prós, estão: uso das tecnologias para aproximar as pessoas, maior convívio entre pais e filhos e home office e ensino a distância (evitando deslocamentos). Na categoria contras, estão: aumento da solidão e dos quadros de depressão, falta do contato físico e falta de limite entre o descanso e o trabalho, aumentando o estresse. Cada um dos itens possui uma imagem para o representar.


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Um novo mundo ou apenas um recomeço?

“Alguns países já possuem um certo distanciamento e uma certa frieza nas relações humanas como base cultural. Aqui, no Brasil, temos o oposto”

GABRIELLE WERENICZ, mestre em História e professora no Espírito Santo

No início da pandemia, o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, declarou que, ao final desse ciclo, não haveria vencedor nem perdedor, mas sim um mundo diferente. Porém, para a mestre em História Gabrielle, algumas coisas não irão mudar, como, por exemplo, as relações humanas, pois avalia que é uma questão cultural. “Alguns países já possuem um certo distanciamento e uma certa frieza nas relações humanas como base cultural. Aqui, no Brasil, temos o oposto. Parece que, mesmo tendo consciência de tudo o que estamos vivendo, as pessoas precisam de calor humano e não conseguem manter esse distanciamento recomendado.” 

Um exemplo da afirmação de Gabrielle é Lorenzo, que iniciou seu relacionamento durante o período de isolamento social e costuma se encontrar frequentemente com a namorada, revezando entre idas à casa dela e à dele. Algo que pode mudar no futuro, pois ele lembra que o tempo de convívio dos dois será reduzido quando as rotinas voltarem à normalidade. “Talvez a gente só possa se ver no final de semana, porque ela viaja bastante a trabalho quando está envolvida com a dança, tem a dinâmica da faculdade também”, confessa Lorenzo. Nesse caso, os meios digitais podem colaborar com a relação a distância. 

Todavia, segundo a professora e psicanalista Roselene, precisamos ter o cuidado para não trocar a presença física pela virtual: “Sabemos que o avanço da tecnologia é inevitável e deve ser bem aproveitado, mas não pode ser pensado como substituição da presença”. Ela ainda reforça a necessidade de moderação. “Creio que o avanço das tecnologias já nos espreitavam, a pandemia talvez só acelerou alguns processos. Mas temos que estar atentos aos seus benefícios e limites, fazendo um uso crítico das tecnologias e meios digitais”, pontua Roselene.

Arte: Munique Brum

Para Brenda, graduanda em História que atualmente tem aulas de forma remota, haverá mudanças, e a sala de aula passará a ser mais valorizada depois desse período de ensino virtual. “Acredito que vá ser algo bem esperado por todo mundo e bastante valorizado por esse motivo.” Em relação aos colegas, entende que o contato vai ser mais intenso e que vão querer se encontrar para além da universidade, já que foram “impedidos” de cumprirem os rituais comuns ao entrar na faculdade, como o trote. Além disso, ela se mostra tranquila quanto à futura nova rotina. “Pra mim, acredito que a readaptação será muito fácil, já que o ERE nos fez perceber o verdadeiro valor de uma sala de aula”, comenta Brenda.

Por outro lado, as incertezas permanecem e ditam uma incógnita do que vem por aí. “Eu não sei exatamente como vai ser o retorno, vou ser bem sincera, porque, no início da pandemia, eu achava que ia durar só alguns meses”, relembra Fernanda, que teve de equilibrar o home office com a gravidez. Mas ela acredita que uma coisa é certa: as relações não serão mais como antes. “Eu imagino que principalmente essa questão do contato com as pessoas, do contato físico, do conversar na hora do almoço e poder socializar não vai dar para fazer mais, por enquanto”, finaliza.

O futuro permanece incerto, não conseguimos prever como será o amanhã, apenas supor diante de casos semelhantes no passado. A pandemia nos surpreendeu com sua rápida evolução e com as duras medidas restritivas trazidas por ela, que a cada dia nos desafia a permanecer buscando novos caminhos. E dessa maneira iremos seguir, nos adaptando e readaptando às condições que esse novo ciclo nos impõe.

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