Doença do século?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a depressão deverá ser a doença mais comum do mundo em 2030

REPORTAGEM
Luísa Tessuto
luisatessuto@hotmail.com

Ilustração de uma pessoa abaixada, com uma nuvem de rabiscos representando sua confusão mental
Arte: Maria Stela Jacob Saldanha

Você provavelmente conhece alguém que tenha depressão, mesmo que não saiba. A impressão de que a doença tem se tornado cada vez mais comum na sociedade se comprova em números. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) elenca a saúde mental como prioridade absoluta para os próximos anos e já considera a depressão, descrita como “estado melancólico” desde seus primeiros registros na Grécia Antiga, a doença mais incapacitante do planeta. 

Em um relatório de 2017, o órgão revelou que a doença afeta 322 milhões de pessoas no mundo, quase a população inteira dos Estados Unidos. No Brasil, são 11,5 milhões. Aqui, aliás, a prevalência é mais alta do que no resto do mundo: 5,8% da população brasileira é acometida, ante 4,4% de média global. Em 2030, ainda de acordo com a OMS, a depressão deverá ser a doença mais comum de todo o planeta. Uma última comparação: entre 2005 e 2015, o aumento do número de casos da doença foi de 20%. 

Mapa-múndi desenhado com pílulas de remédios
A doença afeta 322 milhões de pessoas no mundo | Arte: Jukka Niittymaa / Pixabay

Mas por que, afinal, a doença está aumentando?

Como esclarece a psiquiatra Bibiana Cadó, de Porto Alegre, formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e com especialização em Psiquiatria pela Fundação Universitária Mário Martins, a depressão é uma doença multifatorial. Por isso, não é possível elencar um único motivo para o aumento de sua incidência. A psicóloga Andrea Cardoso, de São Paulo, especialista em futurismo e que aborda o tema em seu perfil do Instagram @futurosx, explica que a depressão pode ter causas bioquímicas (substâncias químicas no cérebro), genéticas (histórico familiar), de personalidade (baixa autoestima, estresse ou pessimismo), ambientais (como exposição à violência, negligência, abuso ou pobreza) ou ainda situacionais (separação conjugal, perda de emprego, morte).

Uma das hipóteses para o aumento de casos é a de que houve uma melhora na capacidade de diagnóstico, consequência de um maior conhecimento acumulado sobre a doença. Outro fator apontado por Bibiana é o estresse, ocasionado por rotinas com acúmulos de tarefas e altas cargas horárias de trabalho, além de muitas horas gastas em transporte, com pouco tempo para o lazer. Esse estilo de vida, que priva o indivíduo do tempo para si, para a vida em comunidade e para a convivência familiar, acaba por gerar agravos à saúde mental.

“Em geral, a sociedade tem vivido uma busca material frenética e experienciado uma falta de sentido e de propósito na vida, o que também pode contribuir para a depressão”

ANDREA CARDOSO, psicóloga

Além disso, fatores socioeconômicos, como dificuldade de acesso à educação, à cultura e à saúde, também contribuem para o aumento de casos da doença. São diversos os estudos que apontam para uma maior prevalência de depressão em pessoas mais pobres. Uma reportagem do jornal O Globo, publicada em janeiro deste ano, relatou dados de uma pesquisa que afirma que os transtornos mentais, como ansiedade e depressão, são 1,5 a 3 vezes mais frequentes nas pessoas com menor renda. Temas como desemprego, desigualdade social ou excesso de trabalho favorecem o cenário.

Arte: Lui Griebeler

“Em geral, a sociedade tem vivido uma busca material frenética e experienciado uma falta de sentido e de propósito na vida, o que também pode contribuir para a depressão”, resume Andrea.

Como a pandemia pode influenciar esse aumento?

A porto-alegrense Ana Maria*, de 26 anos, desenvolveu um quadro leve de depressão na pandemia. Ela, que já vinha de uma trajetória de três anos de terapia resolvendo questões pontuais sobre a vida profissional e pessoal, viu tudo o que tinha trabalhado com a psicóloga ir por água abaixo com a chegada do coronavírus.

“Por ficar dentro de casa, acabei me isolando muito mais, e o convívio social é  superimportante para mim. Perder a rotina do dia a dia e não conviver com os meus colegas de trabalho foi difícil, mais a preocupação de minha família adoecer. Tudo isso faz com que a gente fique muito mal da cabeça. São vários pontos que me pegaram de vez, acho que não sou a única. Todo mundo sentiu um pouco, mas algumas pessoas têm mais flexibilidade para lidar e tentar manter a vida o mais próximo do normal. Mas  enxergo que eu não consegui”, conta ela.


LEIA MAIS

  • Depois do fim: o futuro das relações humanas após o longo período de isolamento social
  • O trabalho do amanhã: tendências indicam possíveis caminhos para o universo trabalhista

Já Carolina*, de 22  anos, de Canoas, conta ter ido “do oito ao oitenta” na pandemia. No início, usou o tempo a mais em casa para se dedicar aos estudos, fazer exercícios físicos e ler. Porém, conforme o tempo foi passando, viu a motivação diminuir.

“Não conseguia mais estudar direito, comecei a perder foco total para assistir à aula, ler livros. As coisas que antes me enchiam os olhos já não me motivavam mais, acho que principalmente por conta dessa incerteza com o futuro, de ficar com medo pelos outros”, relata. “Fui me fechando em uma bolha de negatividade que só me afundou. Chegou em um ponto que eu não conseguia mais levantar da cama e não via sentido em mais nada do que eu estava fazendo.” 

Ao consultar um psiquiatra, Carolina foi então diagnosticada com depressão e ansiedade generalizada e iniciou o tratamento com medicação. Para ela, a pior parte da doença é como as pessoas ao seu redor não sabem lidar com o quadro.

“Não conseguem ter paciência, não conseguem entender porquê a gente está diferente. Se tu consegue te abrir, acaba ouvindo: ‘Ah, isso é besteira’, ‘Tu tens tudo, estás reclamando de quê?”, ‘Olha para tua volta, tem gente passando fome’, ‘Não fica assim, é só pensar em outra coisa, pensa positivo’. Isso foi o que eu mais ouvi, e de pessoas muito próximas. Eram momentos que dava vontade de chorar muito e em que eu até me sentia culpada, me questionava por que eu estava assim”, desabafa. “Não tem como chegar para uma pessoa com câncer e falar: ‘Fica bem, regenera as células’. É a mesma coisa falar para uma pessoa com depressão pensar positivo.”

Em março, completamos um ano de pandemia de covid-19 no Brasil – e  enfrentamos o pior momento da doença no país até então. Esse fator também precisa ser levado em consideração quando falamos de saúde mental. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) encontrou, em uma pesquisa com cinco mil cidadãos, uma incidência de sintomas de depressão quatro vezes maior em 2020 do que a observada na mesma amostra em 2019, conforme publicou a revista Veja em dezembro do ano passado. Já um estudo realizado de forma online pelo Departamento de Neuropsiquiatria da UFSM apontou um aumento de 40% na intensidade dos sintomas de depressão nos indivíduos que participaram das três primeiras etapas da pesquisa, que entrevistou 6,5 mil pessoas maiores de 18 anos em todo o Brasil para avaliar como está a saúde mental dos brasileiros frente ao coronavírus. A última fase do estudo foi concluída em fevereiro deste ano. 

“Estudos têm mostrado uma correlação entre as infecções por covid e agravamento e início de quadros de saúde mental”

BIBIANA CADÓ, psiquiatra

O primeiro ponto a ser observado, é claro, é o isolamento. A psiquiatra Bibiana destaca que a necessidade de isolamento, além de privar o indivíduo de ter seus contatos sociais, o que por si só impacta muito na saúde mental, fez com que muitas pessoas tivessem suas redes de apoio diminuídas. Por exemplo, mães que, antes da pandemia, podiam contar com a ajuda da escola e dos familiares, tiveram que se virar sozinhas neste período. O impacto econômico também é um dos grandes culpados pelos prejuízos à saúde mental, e a angústia iminente da morte favorece o contexto de aumento de casos. A psiquiatra acrescenta ainda que a própria covid-19 pode propiciar o desenvolvimento de episódios de depressão e ansiedade.

“Estudos têm mostrado uma correlação entre as infecções por covid e agravamento e início de quadros de saúde mental. Os dados ainda estão sendo estudados e analisados, mas já jogam luz sobre o assunto”, destaca Bibiana. 

Por fim, é claro, tem o luto. No início de abril de 2021, chegamos à triste marca de 350 mil mortes no Brasil. Ou seja, são 350 mil famílias que sofrem a perda de um ente querido, lembra a psiquiatra. Isso obviamente terá um impacto na saúde mental da população em geral. A Secretaria Especial de Previdência e Trabalho divulgou  que, em 2020, houve um recorde de 576,6 mil concessões de auxílio-doença e aposentadorias por invalidez devido a transtornos mentais e comportamentais. O número é 26% maior do que o registrado em 2019.

“Não tem como prever exatamente qual é o impacto, mas já conseguimos nos dar conta de que vai ser negativo e de que teremos de lidar com isso nos próximos anos”, conclui a psiquiatra.

Ilustração com palavras relacionadas à depressão
Arte: Gabi Berwanger

Para a psicóloga Andrea, as marcas psicológicas da pandemia poderão durar mais do que as físicas. “Mesmo que nossos corpos se recuperem e a vacina nos proteja, as feridas emocionais ficarão por muito tempo”, opina. 

A psicóloga também ressalta que bebês e crianças de até cinco anos foram ainda mais impactados por não estarem em contato com outras crianças, porque essa interação é essencial para o desenvolvimento das habilidades sociais, cognitivas e sensório-motoras. Por isso, ainda não se sabe os efeitos do isolamento nesses casos, que já é uma nova preocupação para a psicologia. Além disso, a pandemia deixou seu impacto na geração de idosos que, devido ao isolamento e à exclusão digital, tem se sentido cada vez mais sozinha.


LEIA MAIS


Por outro lado, lembra Andrea, a pandemia trouxe uma aceleração tecnológica e digital e obrigou a sociedade a repensar seus hábitos, comportamentos e relações.

“Pais e filhos desenvolveram suas relações no cotidiano de suas casas. Escolas foram convidadas a repensar seus métodos de ensino-aprendizagem. Profissionais a se reinventarem e a se adaptarem ao home office. Pequenos empresários se renderam às vendas online, e os consumidores, às compras pela internet. Na psicologia, crescemos muito no atendimento online e comprovamos a eficiência da psicoterapia para a maioria dos casos, ainda que à distância. A ciência e a tecnologia deram saltos no ano de 2020, e muitas pesquisas ganharam velocidade. A própria vacina nos mostrou na prática essa aceleração tecnológica. Como já dizia Darwin: não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”, diz ela.


De que forma a sociedade pode evoluir para acolher melhor pessoas depressivas?

Ilustração de uma mulher consolando outra
A rede de apoio estar informada faz toda a diferença no tratamento do paciente
Arte: Serena Wong / Pixabay

A psicóloga Andrea elenca três principais pontos para uma melhor convivência com pessoas diagnosticadas com depressão, que serão ainda mais importantes nos próximos anos:

Conhecimento

Aprender as causas, sintomas e tratamentos da doença. A rede de apoio estar informada faz toda a diferença no tratamento do paciente, aponta Andrea. “Na psicologia, chamamos de ‘psicoeducar’ o paciente, familiares e amigos próximos”, acrescenta.

Acolhimento

Não diminuir o que a pessoa está sentindo. No senso comum, as pessoas ainda tratam a depressão como “frescura” ou “preguiça”, quando não diminuem o sentimento, falando que “não é nada, logo vai passar”. Esse tipo de comportamento prejudica ainda mais a condição do paciente, que não se sente acreditado e acolhido em seu sofrimento.

Escuta

Dar  espaço para a pessoa deprimida se expressar. E, mais do que isso, incentivá-la a falar. Muitas vezes, a pessoa pode estar desanimada, sem vontade de iniciar um diálogo, ou ainda muito negativa. Mesmo assim, é importante ouvir e acolher  seu sentimento e evitar comentários do tipo: “Você está muito pessimista, vamos levantar esse astral”. 

“As pessoas depressivas têm dificuldade em expressar palavras positivas que não representam seu estado interno. Ou, se forem positivas, podem estar mascarando seus sentimentos, o que é pior ainda”, ressalta a especialista.

Prevenção

Por fim, a psicóloga também frisa a importância da sociedade trabalhar na prevenção da depressão, desenvolvendo informações sobre o tema, ensinando a população a identificar sinais iniciais de um estado depressivo. Além disso, o incentivo a atividades e exercícios, como respiração e meditação, podem contribuir para o abrandamento dos quadros.


*Os nomes foram trocados para preservar a identidade das fontes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support