Muito mais do que simples robôs

O uso da inteligência artificial cresce a cada dia. Devemos nos preocupar ou ficar empolgados?

REPORTAGEM
Leonardo Caberlon
caberlonleonardo@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Leonardo Nogueira
Lucas Matusiak (capa)

Com certeza, você já assistiu a algum filme em que os humanos lutam contra a revolução dos robôs para sobreviver, ou viu alguma cena sobre viagem no tempo em que o futuro é cheio de carros voadores e viagens cósmicas. Esses cenários são as fantasias que permeiam os avanços tecnológicos. Porém, é possível que você nem se dê conta de que já está sendo impactado por eles agora mesmo, enquanto lê esta reportagem. 

Dentro dessas ideias, existe um conceito básico para a criação de grande parte das tecnologias disruptivas: a inteligência artificial (IA). Ela pode ser explicada com termos difíceis e técnicos, mas, de forma simples, é o meio utilizado para criar máquinas que conseguem reproduzir atividades consideradas humanas, como a fala e o uso da racionalidade.

Se você acha que não tem relações com esse tipo de desenvolvimento, está muito enganado. Faça um breve exercício: acesse qualquer rede social ou o Youtube e veja as primeiras publicações que aparecem. Essas escolhas de conteúdos foram todas realizadas por uma inteligência artificial que acompanha o seu perfil dentro das plataformas, tudo para lhe oferecer opções do seu agrado.

Assim, se agora já estamos rodeados por máquinas inteligentes, como será o futuro? Será que os temores dos filmes de ficção se tornarão realidade? Ou viveremos com cada vez mais facilidades? Essas são perguntas frequentes no mundo tecnológico, mas que dependem do tempo para serem respondidas com certeza.

Como a Inteligência Artificial vai impactar a sociedade?

É  fato que teremos que lidar com tecnologias cada vez mais avançadas. Nesse sentido, cabe a nós aceitarmos e estarmos preparados para o que está por vir, já que o uso dessas inovações vem aumentando. De acordo com pesquisa da Markets and Markets, o mercado de Inteligência Artificial deve movimentar, no mundo todo, US$ 190 bilhões até 2025.

Esse dado demonstra a importância da IA e como ela estará presente em todas as áreas da sociedade. Isso porque mexer com inteligência criada a partir de laboratórios é mexer também com a inteligência humana. Afinal, o cérebro é o órgão a ser modelado para a criação desses novos “seres”. 

Caminho a ser feito pela máquina para ser considerada inteligente

Para ser considerada inteligente, a máquina precisa passar pelo caminho de coletar e analisar os dados e transformá-los em informação. Depois, ela interpreta essa informação e a converte em conhecimento. Ao usar esse conhecimento para tomar uma decisão, aí sim, a máquina se torna inteligente. É como uma pirâmide que se afunila em etapas.

Dessa forma, as opiniões se dividem entre o medo da influência dos robôs no dia a dia das pessoas e o entusiasmo em criar novas formas de resolver problemas de maneiras mais rápidas, práticas e baratas. 

O mau versus O bom

Ao falar de inteligência artificial, é impossível não nos questionarmos se seremos beneficiados ou prejudicados pelas máquinas. A resposta é: depende. Tudo vai ser consequência de como será conduzido o desenvolvimento das inteligências artificiais no presente.  

“Já aprendemos que tecnologias não fazem mal a ninguém, quem faz mal a alguém são as pessoas más”

CRISTIANO KRUEL, head de Inovação da Startse

O head de inovação da escola de negócios Startse, Cristiano Kruel, explica que o pessimismo em relação à tecnologia ganha do otimismo, já que o medo fala mais alto. “Quando as pessoas rechaçam e são preconceituosas com tecnologias que elas não conhecem, acabam afastando as outras pessoas desse assunto, dando espaço para quem quer fazer o mau uso das inovações aprender a utilizá-las antes”, explica. “Já aprendemos que tecnologias não fazem mal a ninguém, quem faz mal são as pessoas más.”

Nesse sentido, o pós-doutor em Engenharia Eletrônica e Sistemas Digitais, Eduardo Borba, não vê o cenário catastrófico se tornando realidade, mas sim uma maior convivência entre humanos e máquinas. “Existe uma potencialidade enorme de que as IAs evoluam sempre mais. Porém, em algumas coisas, elas vão ser muito melhores do que nós, em outras, não, principalmente quando envolver o lado emocional acima da razão”, opina Eduardo, que também é professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

“A Inteligência Artificial está muito distante dos humanos. Os humanos não servem só para resolver probleminhas”

EDSON PRESTES, professor de informática da UFRGS e membro do projeto da Unesco sobre ética na inteligência artificial

O professor do Instituto de Informática da UFRGS, Edson Prestes, acredita ainda mais no potencial humano. De acordo com ele,  a inteligência artificial não consegue substituir toda a riqueza da interação humana. Assim, por exemplo, até a pessoa que vai fazer uma faxina dentro da  casa de um idoso é melhor do que um robô, devido a troca pessoal. “A IA está muito distante  dos humanos. Os humanos não servem  só para resolver probleminhas.”

No entanto, ele reforça que a inteligência artificial, mesmo sem atuar como substituta das pessoas, tem o poder de impactar todo o futuro da vida dos cidadãos, seja no trabalho, na economia ou nas relações pessoais.


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Por que a ética desses avanços importa?

Tudo que envolve mudanças sociais é acompanhado por uma conduta legal e ética, e para o desenvolvimento das inteligências artificiais não é diferente. Esse ponto é considerado um dos mais importantes no uso consciente da exploração responsável das tecnologias. Para o professor Edson, é essencial levar em conta os direitos humanos ao pensar em um desenvolvimento responsável.

“Como visualizar os diferentes instrumentos dos direitos humanos no contexto da tecnologia? Por exemplo, como são feitos os mapeamentos que proíbem a discriminação de raça e contra as mulheres? Isso vai levar à criação de regulamentações no desenvolvimento das inteligências”, completa o professor, que participa do projeto da Unesco que vai definir, até o final de 2021, uma lei internacional sobre ética na inteligência artificial.

Arte: Leonardo Nogueira

Esse tema é relevante a ponto de já terem sido detectados padrões racistas e machistas no uso de inteligências governamentais dos Estados Unidos. Para o head de inovação Cristiano, a explicação desse triste acontecimento é que, para criar inteligências artificiais, é preciso ter dados. “Dados são eventos do passado, e o passado sempre foi preconceituoso. Logo, essas informações sempre carregam algum viés de preconceito. Precisamos saber como criar algoritmos que minimizem estes impactos.” 

Mas, na prática, o que podemos prever de IA no futuro?


Carros autônomos
Carros autônomos do Google já são testados em cidades pelos Estados Unidos | Foto: Google/Divulgação

Segundo pesquisa realizada pela Ernst & Young, empresa de consultoria mundial, os veículos autônomos, ou seja, sem motorista, representarão 75% da frota em uso no mundo  até 2035. “No futuro, vamos dizer que éramos loucos por deixar os humanos dirigirem carros”, acredita o professor Eduardo. “Tudo estará interligado, desde os carros até os postes e sinaleiras.” Em lugares como o Vale do Silício, nos Estados Unidos, já é comum ver veículos andando sem nenhum motorista no volante.


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Tráfico de drones no céu
Tráfego de drones pode se tornar comum na camada aérea | Foto: Chesky_W/Getty Images 

Não é de hoje a ideia de utilizar drones para fazer entregas. Inclusive, essa prática já é feita por algumas empresas, como a Amazon e o iFood. Porém, tal avanço ainda não é comum nem mesmo para as gigantes companhias de tecnologia. Um futuro próximo promete a popularização do uso de drones autônomos em uma camada aérea específica para esses veículos. Essa ideia defende entregas mais rápidas, menos poluição e facilidade de alcance em lugares remotos. Porém, esbarra na qualidade da conexão, nas mudanças do clima e na necessidade de uma regulamentação própria para cada lugar.


Procedimentos médicos facilitados

Já imaginou um médico nos Estados Unidos poder operar um paciente no Brasil? Essa prática está a caminho de acontecer. Mas, para isso, além do avanço da inteligência artificial, é imprescindível uma conexão de alta potência. O 5G, nova geração de internet, promete ser a virada de chave e proporcionar essa experiência para a área da saúde. Além disso, já há startups focadas em soluções tecnológicas, como robôs, que conseguem identificar possíveis sinais no corpo que podem se transformar em doenças. O uso em massa dessas inovações proporcionará diagnósticos precoces e o aumento da saúde das pessoas.


Novas formas de conhecimento

As máquinas aumentarão suas próprias capacidades de raciocínio. Esses processos acontecem devido ao machine learning, método que faz com que a inteligência artificial desenvolva a identificação de padrões e os reproduza, e ao deep learning,  que possibilita que as máquinas tenham redes neurais que se comunicam e, por tentativa e erro, cheguem a uma resposta, realizando tarefas muito próximas às dos seres humanos. Isso viabilizará novas formas de ver o mundo que ainda não pensamos e, em consequência disso, de identificar maneiras diferentes de realizar tarefas.

Assim como há dez anos não existiam tecnologias que hoje fazem parte da nossa rotina, o futuro é imprevisível e promete trazer cada vez mais inovações às nossas vidas. De alguma forma, seremos afetados, o que resta saber é de qual maneira específica. Até lá, esse assunto continuará sempre em debate e reportagens como esta precisarão ser atualizadas com frequência. 


ENTREVISTA: O USO DA TECNOLOGIA HOJE

Como a inteligência artificial é utilizada no dia a dia de uma pessoa?

Carlo Gigel, publicitário e CEO do Grupo Plan Marketing

O publicitáio Carlo Gigel, de 43 anos, é uma pessoa ligada nos avanços tecnológicos e faz uso recorrente dos dispositivos inteligentes em sua vida pessoal e profissional. Ele é CEO do Grupo Plan Marketing, que leva a inteligência artificial para a publicidade.

Quais tecnologias (inteligência artificial) você tem e usa com frequência?
Sintéticas, que criam elementos como humanos digitais, vozes, imagens e vídeos; NLP  (Natural Language Processing), que permite uma conversa natural, buscando informações em bases diversas; análise de sentimentos e Big Data.

Quais as vantagens que você vê no seu dia a dia com o uso da inteligência artificial?
Nas aplicações de comunicação por voz humano virtual, que permite diálogo sem regras para simular uma conversa humana, e no processamento automático de informações para entender tendências e criar personalizações.

Quais as desvantagens?
A forma de “ensinar” e construir as redes neurais ainda são processos muito difíceis e complexos, o que faz com que os custos envolvidos das aplicações sejam elevados, por exemplo, nas transcrições de voz.

O que você espera ver de avanços tecnológicos nos próximos anos?
No curto prazo, o 5G irá revolucionar a forma que usamos e consumimos várias tecnologias, como transmissão de dados, eletrodomésticos, carros autônomos e supermercados como self-checkout. Já no médio e longo prazo, acredito que a medicina e a robótica, assim como a realidade estendida, estarão presentes em nossa rotina diária e também presentes no nosso corpo e mente.

Como você acredita que será o futuro da inteligência artificial?
Acredito que conseguiremos usufruir de todos os benefícios nas áreas de saúde, robótica, cidades inteligentes e entretenimento. Penso também que o que vimos nos filmes futuristas de convivência entre homem e máquinas está muito próximo de acontecer, e vamos encontrar uma forma saudável de colhermos o melhor da tecnologia em prol da humanidade.

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