De um balde, em cima do trapiche de madeira que adentra o lago, Imaculada de Oliveira tira o lambari que iria dar de presente à garça que estava à espreita. No instinto de fugir e tentar voltar para a água, o peixe se debate e consegue se desvencilhar. Tentar voltar para casa não é uma rotina só dos peixes nas ilhas que formam o bairro Arquipélago de Porto Alegre, mas de muitos moradores, como Imaculada, que vive na Ilha Grande dos Marinheiros há mais de 30 anos. Ela já perdeu sua casa duas vezes, mas retornou.
Acostumados às tempestades que enchem os rios e o lago Guaíba, os mais de seis mil habitantes das ilhas do bairro nunca haviam visto uma enchente como a de maio de 2024, que destruiu casas, escolas e postos de saúde. “Se tu falasse no ano passado [2023] que ia dar uma enchente maior que a de 1941, iriam mandar te internar”, relata Valter Bastos, que vive há 50 anos na ilha da Pintada. Muitos ainda não conseguiram voltar; outros voltaram às mesmas casas, agora ainda mais precarizadas, que submergiram nas águas.
Muitos rios e um lago
Uma delimitação formal como bairro não é suficiente para descrever o local e a identidade de quem vive nas porções de terra que se erguem do lago Guaíba. Formado pelas águas dos rios Gravataí, Jacuí, Caí e Sinos, o Guaíba é tão complexo que se comporta ora como lago, ora como um rio. Sua imensidão de 496 quilômetros quadrados drena um terço de todas as águas do território do Rio Grande do Sul.
Para os moradores, o que importa é em qual das ilhas você mora, como se cada uma tivesse seu próprio gentílico. Por lá, além das estações do ano, é o regime das águas que demarca a passagem do tempo. A convivência com o lago sujeito a cheias faz os moradores classificarem o bairro como um misto de paraíso com tempestade, em que as perdas materiais são uma possibilidade constante. Entre setembro de 2023 e maio de 2024, as ilhas foram mais “tempestade”: ocorreram três enchentes no período, que alagaram as casas de Imaculada e Valter. A Porto Alegre metropolitana não enxergou o que ocorria no bairro insular. Além de ser uma contenção contra cheias, o Muro da Mauá, localizado no Centro, simboliza também a separação que a cidade tem das ilhas.
O solo arenoso e úmido da região não é apropriado para a construção civil e dificulta o surgimento de vegetação. Ainda assim, parece oferecer as condições ideais para o enraizamento de quem por lá ousa se estabelecer.

Peixe fora d’água e pássaro na gaiola
Moradores do mesmo bairro, mas separados por dez quilômetros, Imaculada, de 57 anos, e Valter, de 72, não se conhecem, mas dividem experiências e sentimentos como se fossem vizinhos de porta. O contato com a natureza, a relação com a pesca e os laços criados na comunidade são alguns dos argumentos compartilhados que embasam o amor pelas ilhas. “É paraíso”. Assim ambos respondem quando perguntados sobre como é viver por lá. Sobre sair do local, rapidamente dizem não, pois é onde se identificam.
Instigados a refletir sobre o porquê de tamanho apego, os dois parecem combinar até mesmo as metáforas, trazendo o exemplo de animais e seus habitats. “Como é que eu vou tirar um peixe de um rio e colocar em uma poça de água? Ele vai morrer, sabe?”, compara Imaculada. Valter relaciona sua decisão com uma ave adaptada ao viveiro. “É que nem passarinho, tu deixa ele preso dez, 20 anos na gaiola. Tu solta e ele fica na volta. Estão todas as raízes aqui.”
“Não é a parede que produz um lar e um sujeito. O que produz um lar são essas construções coletivas comunitárias”
CAROLINA DOS REIS, psicóloga e professora da UFRGS
Em relação a esse elo vital, Imaculada usa o exemplo de vizinhos idosos que tiveram de deixar a região e acabaram falecendo, mas que poderiam viver muito mais se tivessem permanecido, como uma flor que não se adapta ao novo vaso e perece. Sabendo da importância de suas raízes, Gecy d’Ávila, sogra de Valter, não abriu mão de retornar para sua casinha na beira do lago aos 89 anos. Tão logo pôde, fez questão de voltar para sua família, rotina e vizinhança.

Para Carolina dos Reis, professora no Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a cidade é responsável por produzir subjetividades e modos de viver que, no caso da ilha, são marcados por redes de apoio. “Não é a parede que produz um lar e um sujeito. O que produz um lar são essas construções coletivas comunitárias.”
Um taboão em cima do outro forma a rampa de entrada da casa de madeira de Imaculada, firmada sob palanques a uma altura considerável do chão. Dentro, os utensílios estão erguidos. Na época de chuva, espera-se que a água suba em algum momento. À frente, uma bela vista, um barco e uma cadeira para admirar a paisagem e pescar. “Lar é ter onde morar. É poder morar dignamente, porque eu moro dignamente, graças a Deus, eu tenho a minha casa, então isso eu chamo de lar, sabe?”, reflete ela, que nasceu ribeirinha no Amazonas e se mudou para a ilha dos Marinheiros no fim da década de 1980.
A simplicidade não dispensa conforto. Com televisão, internet e luz, a moradora consegue ficar tranquila em seu quarto quando o clima não a deixa aproveitar a natureza. Porém, o lugar que mais a faz se sentir em casa, curiosamente, é fora dela. A beira do Guaíba é o lar de Imaculada.

Depois da tempestade
Historicamente, a região das ilhas é marcada por enchentes. Apesar disso, os moradores nunca tinham presenciado uma como a de maio de 2024. Eles exercitam uma antítese entre o apego e o desapego, por vezes abrindo mão de bens, mas nunca da morada na ilha. “Teve uma vez que eu disse que eu gostava mais das minhas plantas do que da minha própria casa. E a gente perdeu até as plantas na enchente. Mas nada que não se reconstrua. Se a gente está vivo, o material a gente repõe”, desabafa Imaculada.
Ocorre que muitas das infraestruturas a comunidade não consegue recuperar sozinha. Na Ilha dos Marinheiros, por exemplo, a única Unidade Básica de Saúde (UBS) está fechada. O acesso aos serviços de água e luz são parciais. A própria cota de inundação da cidade de Porto Alegre desconsidera as ilhas: a medição de alerta se inicia em dois metros e meio, mas a partir de dois metros a água já avança sobre o bairro Arquipélago. Com a destruição causada pela enchente histórica de maio, o contexto de precariedade e de risco aumentou.
O governo federal concedeu aos atingidos o direito de realizar uma compra assistida pela Caixa Econômica Federal. Pelo programa, os moradores podem adquirir um novo imóvel até 200 mil reais, mas longe das áreas alagáveis. Foram divulgadas três listas de beneficiados entre setembro e outubro de 2024, mas a presença de interessados foi baixa.
O urbanista, arquiteto e ativista Leonardo Brawl defende que outra solução possível seria a de investir em melhores tecnologias para as casas dos moradores, como palafitas mais altas e seguras, o que sairia mais barato do que a compra de um imóvel novo. “Os moradores sabem como é o seu dia a dia e quais são as necessidades mais urgentes”, diz. A professora Carolina concorda. Segundo ela, quando se trata das políticas de habitação de uma cidade, é preciso pensar também em subjetividades. As opções dadas aos moradores não levam em consideração o jeito que eles sabem – e querem – viver. É a construção de um modo de vida que precisa ser minimamente preservado no novo local, o que não é garantido pela compra assistida e explica a baixa adesão ao programa. “Modifica tudo na vida da pessoa. É o vizinho, é o amigo, é o colega, é o transporte”, acrescenta Valter.
No imaginário popular, ilha é pensada como um local de passagens breves, como férias e viagens, ou forçadas, como prisões ou naufrágios. Para os moradores das ilhas de Porto Alegre, ela é um lar definitivo. Nem rural, nem urbano, insular. Assim se forma uma identidade informal para quem vê de fora, mas natural para quem lá está.
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