Sextante

Vai e volta

Muitas pessoas se deslocam de uma cidade a outra para trabalhar diariamente. Como o fenômeno da migração pendular afeta a vida desses trabalhadores?

REPORTAGEM
Carla Mello | Laura Borges
carlagmello@outlook.com.br • lauraborgex@hotmail.com

Arte: Thiago Costa e Tom Schmidt Andreaus

Às 9h, em Alvorada, o dia de Vanessa da Rocha começa. A vendedora de 44 anos inicia sua rotina pensando nas tarefas que precisa cumprir cedo, porque logo terá que fazer uma viagem. Ela prepara suas refeições ainda pela manhã, já que passará boa parte do dia fora de casa. Enquanto a comida está no fogo, aproveita o pouco “tempo livre” para arrumar o seu cantinho: estende a cama, varre o chão, coloca a roupa para lavar e alimenta os cachorros. Não consegue dar bom dia à filha, Eduarda, e aos quatro netos – Maria Júlia, Igor Caíque, Ícaro Murilo e Thayla Melissa, que moram em uma casa grudada à dela –, nem mandar uma mensagem ao filho, Bruno, que mora com o pai.

A vendedora sai de casa, situada no bairro Umbú, por volta do meio-dia, mas só chega no Iguatemi, na zona norte de Porto Alegre, às 14h, horário em que começa seu expediente em uma das 363 lojas do shopping. Ela trabalha em uma escala 6×1, com apenas um dia de folga por semana.

Seu expediente termina às 22h, mas, por conta do tempo de deslocamento, chega perto da meia-noite em casa. Vanessa perde cerca de quatro horas diárias no transporte público. Em uma semana, isso soma 24 horas; em um mês, são 96 horas ou quatro dias em que Vanessa está em trânsito. “Eu tenho filhos e netos. Minha família aumentou nos últimos tempos, e eu gostaria muito de poder ter mais tempo com eles, poder curtir mais eles”, desabafa, lembrando que a última neta acabou de nascer. 

O deslocamento entre Alvorada e Porto Alegre dificulta a convivência de Vanessa com a família | Foto: Laura Borges

O relato de Vanessa é um exemplo da rotina de trabalhadores que vivem na região metropolitana de Porto Alegre e trabalham na capital. Chamado de migração pendular, esse fenômeno tem impactos individuais e sociais relevantes, mas não recebe atenção do poder público. O Censo mais recente, divulgado em 2022, não registrou dados de deslocamento entre a capital e os 34 municípios que compõem a Grande Porto Alegre. O último Censo a quantificar esse fenômeno foi o de 2010. Na época, a capital era o principal município de destino, atraindo 50,46% das viagens diárias. De 2010 para cá, a população da região cresceu de 3,9 milhões para 4,1 milhões de habitantes.

A Trensurb, uma das principais companhias públicas de transporte da Região Metropolitana, informa que cerca de 70 mil pessoas usam o trem diariamente, mas não sabe precisar quantas vão e quantas voltam de Porto Alegre. A Metroplan, que coordena grande parte das linhas de ônibus da região, informa transportar 250 mil passageiros por dia, mas reconhece que há dificuldade em saber o detalhamento das viagens feitas. 

Para o geógrafo Moisés Waismann, do Núcleo de Porto Alegre do Observatório das Metrópoles, essa lacuna de informação reflete um desinteresse em investigar as dificuldades que existem nesse trajeto diário e como elas afetam a vida da população. “Tem problemas psicológicos e sociológicos que se criam porque as pessoas não conseguem se deslocar para o trabalho e voltar de maneira adequada”, ressalta. 

A psicóloga e mestre em políticas públicas Greice Carvalho concorda. Segundo ela, períodos de deslocamento muito extensos podem afetar a conexão das pessoas com suas casas, famílias e comunidade. “Não é só de horas no relógio que se pensa nas consequências. Sob uma perspectiva emocional, o tempo fora de casa pode gerar uma sensação de alienação, onde o lar deixa de ser visto como um espaço de refúgio e convívio afetivo, passando a ser percebido como um local de passagem”, explica.  

Tanto especialistas quanto os trabalhadores que se deslocam diariamente concordam que mobilidade e moradia caminham juntos. Quem passa muitas horas no trânsito quer abreviar esse tempo e precisa de um transporte público rápido, eficiente e em boas condições. 

Tempo perdido

Morador de Canoas, Alef Alencar, de 29 anos, trabalha na zona sul de Porto Alegre e sente o peso da falta de qualidade do transporte diariamente. Para ele, o expediente começa às 8h, mas ele precisa pegar o primeiro ônibus do dia às 6h. Às 14h, Alef bate o ponto, mas só chega em Canoas, que fica a 18 quilômetros da capital, por volta das 15h40min. 

Ao todo, ele trabalha por seis horas e perde o equivalente a metade desse tempo caminhando e dentro do transporte público. Por ano, são 33 dias em trânsito. “Tu chega no ônibus, às vezes senta, muitas vezes não, e tu fica ali”, desabafa Alef. “É um tempo que se vai, um tempo que tu não aproveita nem para fazer algo que tu gosta, nem para fazer algo que tu precisa.”

Alef, que mora em Canoas, trabalha seis horas por dia e fica três horas em deslocamento | Foto: Laura Borges

Segundo a Pesquisa Mobilidade Urbana 2022, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), os brasileiros dos grandes centros urbanos tendem a perder duas horas por dia no trânsito, o que equivale a um desperdício de 21 dias por ano só com deslocamento ao local de trabalho, escola, faculdade ou compras. O estudo indica ainda que 80% das pessoas deixam de fazer uma atividade devido à dificuldade de locomoção.

“Hoje, numa sociedade integrada e espalhada, a gente precisa se deslocar. Quanto melhor a gente se deslocar, mais qualidade de vida temos”

MOISÉS WAISMANN, geógrafo do Observatório das Metrópoles

O principal meio de locomoção da população no dia a dia continua sendo o transporte público, que não é bem avaliado em todas as capitais. Os critérios de avaliação são valor da tarifa, conforto, estado de conservação, segurança e pontualidade. 

A discussão sobre mobilidade acaba se estendendo a aspectos que não dizem apenas respeito a viagens  de um lugar a outro. “Tem a ver com saúde, educação, com bem-estar, com o bem-viver de toda a comunidade. Hoje, numa sociedade integrada e espalhada, a gente precisa se deslocar. Quanto melhor a gente se deslocar, mais qualidade de vida temos”, diz o geógrafo do Observatório das Metrópoles.

Infográfico | Tom Schmidt Andreaus

Longe de casa

Quando é preciso sair do próprio município para buscar melhores condições de vida, o distanciamento do lar pode ser inevitável. Mas isso tem um custo. No caso de Vanessa, a quantidade de tempo gasta no deslocamento do dia a dia resulta na falta de um maior convívio com os filhos e netos. “Chego em casa e, às vezes, como alguma coisa, às vezes só tomo um café com leite.” Ela conta que nem sempre consegue ver sequer a filha e os netos que moram tão perto dela. “Porque às vezes estou cansada, esgotada, já passei um dia tenso. Não vou lá passar essa energia para os outros”, relata. 

Vanessa comenta que essa rotina exaustiva é a principal barreira para o contato mais frequente com quem ela mais ama. “Tenho uma vida bem corrida. Porque já são oito horas de trabalho. E aí tu já tem quase quatro horas de trânsito. São 12 horas fora de casa. Longe da minha família”, desabafa. Mesmo assim, quando consegue, Vanessa faz questão de curtir as crianças e ainda ajudar a filha, que também tem uma vida corrida, nos cuidados com os pequenos. Esse convívio, no entanto, poderia ser maior se não houvesse um apagão de dados sobre a migração pendular em uma das maiores regiões metropolitanas do país. Conhecer o tamanho do problema seria o primeiro passo para o seu enfrentamento. 

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