Sextante

Ecos da memória

Casas mal-assombradas são locais de fascínio e de estigma, mas ainda assim são lares de quem já partiu e de quem ainda está vivo

REPORTAGEM
Guilherme Guerra | Gustavo Pinheiro
guilherme.guerra2003@gmail.com • gustavosantanapinheiro@hotmail.com

ILUSTRAÇÕES Lorenzo Cuervo
Arte: Lorenzo Cuervo
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Noites de sono interrompidas por ligações estáticas em interfone, utensílios se movendo sozinhos, energia pesada e presença que se sente. Esse é o passado e, de certa forma, o presente de Mariele Chassot, 25 anos, mestranda em Ciência da Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nos dois apartamentos que já residiu em Porto Alegre – o atual no bairro Santana –, acontecimentos inexplicáveis e sobrenaturais fizeram, e ainda fazem, parte do seu dia a dia.

Mariele se mudou para o endereço atual em março de 2022 e diz que logo sentiu uma energia diferente no ambiente do novo lar, além de episódios em que toalhas caíam mesmo estando firmes em seus suportes e talheres se mexiam sozinhos enquanto ela cozinhava. Cerca de um mês depois, numa conversa, sua vizinha de porta revelou que o antigo morador havia morrido por overdose naquele apartamento. Mariele vive com a amiga Luciana e seu gato Zeca. 

“A imobiliária nunca nos avisou que alguém teria morrido no nosso apartamento. Inicialmente fiquei com receio por uma experiência anterior, que foi assustadora, mas com o tempo perdi o medo. Hoje em dia é bem tranquilo, e algumas vezes até esqueço que temos companhia do além, pois já se tornou corriqueiro”, conta Mariele. 

Mariele já se acostumou com os eventos paranormais do seu cotidiano | Foto: Gustavo Pinheiro

De acordo com a estudante, na sua antiga casa, as situações eram mais extremas ainda. Lá havia portas batendo, micro-ondas ligando sozinho, além de barulhos altos, como de móveis sendo arrastados e ligações de madrugada, vindos da residência de cima. Quando foi se queixar com o porteiro sobre os barulhos, ele lhe disse que o apartamento acima do dela estava vazio. Ninguém morava ali desde que um idoso  havia morrido dentro do lugar. 

Mariele revela ter estratégias para ignorar os acontecimentos sobre-humanos. Como culpar Zeca pelos barulhos, mesmo que o gato não tenha acesso ao cômodo em que aconteceram. Além disso, desvendou a energia do apartamento em que vive com uma sessão recente de limpeza de energia pessoal. Ela diz ter confirmado que o espírito que habita seu lar não é maligno, apenas ainda não está pronto para seguir em frente. 

Superando traumas

Nem todos os casos são iguais ao de Mariele, que se adaptou e convive em harmonia num lar com fantasmas. Muitas pessoas não suportam as manifestações e procuram ajuda, seja com sessões de exorcismo ou com a limpeza energética na casa. A iyalorixá Gabriela D’Aganjú, de 23 anos, atua com a segunda vertente. “O primeiro passo é identificar o que está causando a carga energética negativa. É comum que tenha mais de um agente. Para isso, recorremos ao jogo de búzios ou cartas. Através desses instrumentos, descobrimos as causas, as necessidades do ambiente e qual limpeza deve ser feita”, garante.

Jogo de búzios é utilizado para entender as necessidades de cada lar | Foto: Arquivo pessoal

Após o diagnóstico, é feito o serviço, que leva em torno de 40 minutos, dependendo do tamanho do local e da quantidade de cômodos. Em alguns casos, a limpeza precisa ser feita mais de uma vez ou periodicamente. Cansaço maior ao chegar em casa, impressão de ser observado, ver vultos, medo ao ficar sozinho e pesadelos frequentes são alguns dos sinais que indicam a necessidade do ritual de limpeza de um lar, segundo a iyalorixá.

“Certa vez, limpando uma casa onde havia morrido uma pessoa, percebemos os animais extremamente agitados, pulando, se escondendo, latindo e miando”

GABRIELA D’AGANJÚ, iyalorixá

Naturalmente, por trabalhar diariamente com isso, Gabriela diz já ter presenciado cenas sobrenaturais em lares mal-assombrados. “Certa vez, limpando uma casa onde havia morrido uma pessoa, percebemos os animais extremamente agitados, pulando, se escondendo, latindo e miando. O grupo que estava comigo avistou uma manifestação, janelas bateram, portas se fecharam enquanto estávamos limpando, e também ouvimos gritos”, conta. Ela afirma que, ao fim da limpeza, os animais dormiram tranquilamente, e os moradores ficaram com um semblante aliviado.

A iyalorixá Gabriela realiza limpezas energéticas nas casas das pessoas | Foto: Arquivo pessoal

Ao falar sobre o impacto emocional e espiritual da prática, Gabriela defende que, quando há envolvimento emocional, como, por exemplo, uma família que perdeu seu patriarca ou matriarca e continua morando no mesmo local, o impacto das manifestações é bem maior, e a limpeza pode ajudar a família a superar a perda. “A sensação de encaminhar a alma que pode estar presa ali normalmente ajuda as pessoas a seguirem em frente com a sensação de alívio e de dever cumprido”, relata a iyalorixá.

Uma perspectiva psíquica

Além dos exorcismos e das limpezas energéticas do lar, há quem prefira buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico para lidar com a ideia de viver num local mal-assombrado e tentar se acomodar no espaço com episódios paranormais. Emmanuel Kanter, psiquiatra especializado pela Fundação Universitária Mário Martins, aponta que existem diferentes estratégias para tratar a situação. Desde a abordagem comportamental, na qual se entra em contato com o ambiente de maneira progressiva, ficando mais tempo e buscando diminuir o desconforto, até a psicanálise, em que a pessoa entende qual o conflito inconsciente que está sendo representado pelo ambiente em que mora, como desavenças familiares ou medo da morte.

Emmanuel também busca uma resposta mais científica para explicar tantos relatos de casas mal-assombradas ao redor do mundo. “Existe um tipo de trauma descrito a partir das experiências de pessoas que atenderam padres e similares, o chamado trauma vicário. Significa que podemos desenvolver respostas traumáticas a partir de experiências que não testemunhamos, mas apenas escutamos, lemos ou vimos na televisão”, explica o psiquiatra. “Talvez a crença no sobrenatural maligno, no amaldiçoado, seja um tipo de trauma coletivo. Assim, quando um local é dito como sendo um exemplar desse tipo de situação, a resposta ocorre mesmo que nada estranho ocorra”, comenta.

Ainda assim, Emmanuel considera as vivências e os sentimentos das pessoas que passam por esses episódios como manifestações de estresse. Ele explica que a expressão ansiedade vem do alemão angst, que significa temor, ou seja, medo. “Assim, a resposta de ansiedade é essencialmente uma resposta de medo. Se há um medo sobrenatural de alguma forma desse tipo de ambiente, com certeza virá a causar um tipo de resposta emocional, que virá de acordo com o  histórico de aprendizado e temperamento de cada indivíduo.”

Arte: Lorenzo Cuervo

Fantasmas são a história

Mas, afinal, por que casas mal-assombradas e relatos sobrenaturais chamam tanto a atenção? O sócio do Café Mal-Assombrado POA, idealizador da caminhada Porto Alegre Mal-Assombrada e músico, André Neto, de 37 anos, defende que o fascínio não começou agora. “O primeiro conto de horror que se tem registro é O Castelo de Otranto, o castelo como esse lar, um local de apego, de despedidas, um lugar onde as pessoas ficam presas”, relata. A história foi escrita em 1764 pelo inglês Horace Walpole. 

André ainda compartilha uma memória que tem da sua infância, perto da sua casa, no trajeto até a sua escola. Ele passava por uma casa verde antiga e sempre via uma senhora solitária na soleira da porta. Certa vez, passando por ali, falou para os  amigos que aquela era uma casa mal-assombrada.

“Ele já morreu, mas a cadeira ainda é dele, mesmo morto ele ainda tem a posse, ele ainda está ali. Tem os seus pertences, seja cadeiras ou roupas, que ele não vai mais usar. De alguma forma, essa memória é o fantasma”

ANDRÉ NETO, sócio do Café Mal-Assombrado POA

“Passou duas horas, eu estava no recreio do colégio e uma amiga veio correndo me contar que uma casa perto de onde eu morava era mal-assombrada, então uma história que eu tinha recém-inventado já tinha se espalhado e chegado a mim novamente”, conta André. “Quando eu olhava para aquela casa e para a velha, automaticamente, era como se eu acionasse  um inconsciente coletivo: eu me remetia à minha história, à minha jornada, mesmo pequeno, sem saber ainda, sem ter vocabulário para definir aquilo. Eu percebia a decadência, a finitude, o final”, relembra. 

O ambiente do Café Mal-Assombrado POA reproduz ares góticos e de mistério | Foto: Gustavo Pinheiro

O músico entende que a capital do Rio Grande do Sul é um local propício para lugares mal-assombrados por conta do apego muito forte à cidade desde sua fundação. “As pessoas daqui são muito bairristas, entende? O apego à casa, ao lar, ao meu chão, à minha terra. O que é meu é meu, nesse local de apego. Onde as pessoas querem estar ali para sempre acaba tendo essas manifestações de pessoas que morreram, mas não partiram.”

Para André, fantasmas são memórias tanto de quem partiu como de quem ainda está neste plano. Havia na mesa da casa da sua avó uma cadeira em que ele, ainda menino, sentava às vezes, e ela brigava com ele por ser a cadeira do seu avô – já falecido na época. “Ele já morreu, mas a cadeira ainda é dele, mesmo morto ele ainda tem a posse, ele ainda está ali. Tem os seus pertences, seja cadeiras ou roupas, que ele não vai mais usar. De alguma forma, essa memória é o fantasma.”

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