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Constance Magogo Kadinuzulu (1900-1984)

Princesa e rainha-mãe Zulu e compositora musical, nasceu em Nongoma, num momento em que o reino Zulu tinha sido corroído pela guerra civil e pelo colonialismo na África do Sul.  Seu pai passou a maior parte da infância de Constance exilado, tendo morrido em 1913.

Nesse meio de reviravolta política, encontrou consolo na música. Frequentou uma escola de missão Anglicana e em 1923 seu irmão arranjou o seu casamento com o chefe do clã Buthelezi. Foi a décima e principal esposa do Chefe Mathole, com quem teve um filho e duas filhas. Assim, enquanto se aplicava à maternidade também se aplicava às habilidades musicais, servindo como uma imbongi, uma espécie de cantora e tocadora em ritos religiosos.

Sua proeminência nesse meio predominantemente masculino foi marcante. Em 1939 foi gravada pela primeira vez por um etnomusicólogo britânico que reconheceu seu talento, e no período de 1950-1960 suas performances originais e tradicionais passaram a ser gravados regularmente, através da South African Broadcasting Corporation. Foi então que a gravadora lançou suas composições na coleção The Bantu Composers of Southern Africa (Compositores bantu da África do Sul) (1969) e alguns anos mais tarde a Tracey’s International Library of African Music (Biblioteca Internacional de Música Africana da Tracey) lançou o álbum The Zulu Songs of Princess Constance Magogo KaDinuzulu (As canções da Princesa Zulu Constance Magogo KaDinuzulu ) (1973).

No mesmo momento em que Constance alcançava prestígio nacional e internacional como artista, o seu filho conquistava simultaneamente reconhecimento por liderar os Zulus durante o regime do Apartheid. Como rainha-mãe e imbongi, ela reverenciava a ideologia do Partido da Liberdade Inkhata, e quando uma brigada feminina do Inkhata se formou em 1977 ela foi coroada como a heroína das mulheres Zulu.

Constance Magogo Kadinuzulu continuou sendo reconhecida e relembrada por muitos nacionalistas e amantes da boa música da África do Sul e do continente.

BIBLIOGRAFIA

GUNNER, Liz. A royal woman, na artist, and the ambiguities of national belonging: the case of Princess Constance Magogo. Kunapipi: journal of postcolonial studies, v. 24, n. 1, p. 205-223, 2002.

HEALY, Meghan. Constance Maggo KaDinuzulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 30-32.

HUSKISSON, Yvonne. The bantu composers of Southern Africa. Johanesburgo: South Africa Broadcasting Corporation , 1969.

RYCROFT, David. Princess Constance Magogo. In: LUCIA, Christine (Ed.). The world of South African music: a reader. Newcastle: Cambridge Scholars Press, 2005.

Mawa (c. 1770-1848)

Integrante da família real Zulu na África do Sul, era tia dos líderes do povo Zulu no momento de consolidação do reino, nos governos de  Chaka, de Dingane e de Mpande.

Ela serviu seus sobrinhos Chaka e Dingane como representante real no assentamento militar por muitos anos, entre 1815 e 1840. Naquele ano seu sobrinho Mpande se tornou regente. Em 1842 este temeu que seu irmão Gququ quisesse tomar o seu lugar e por causa disso mandou matar ele e sua família. Ao que parece, Mawa apoiava Gququ na disputa real e por isso fugiu o mais rápido possível pelas margens do Rio Tugela, seguida por pelo menos trinta mil refugiados, a quem liderava.

 A área que ela e seus seguidores deixaram para trás ficou praticamente despovoada.  Ela negociou com autoridades coloniais inglesas e obteve permissão para fixar um assentamento às margens do rio Umvoti, na Província de Natal.

BIBLIOGRAFIA

BRYANT, Alfred. Olden times in Zululand and Natal: containing the earlier political history of the eastern-nguni clans. Londres; Nova Iorque: Longmans Green, 1929.

KUPER, A.. The ‘house’ and Zulu political structure in the nineteenth century. The Journal of African History, v. 34, n. 3m p. 469-487, 1993.

SHELDON, Katleen. “Mawa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 138.

Mmanthatisi (1784-1847)

Também referenciada como Ma Nthsi, Mantatise ou Manhatise, foi uma importante líder de um grupo do povo Soto, na África do Sul e Lesoto, durante a migração em massa no início do século XIX conhecida como Difaqane. Ela nasceu no Estado livre de Orange, África do Sul, filha de um chefe chamado Mothaha e se casou com o chefe de Tlokwa, que era seu primo. Seu nome, Mmanthatisi, indica que era mãe de uma filha chamada Nthatisi, após o nascimento de seu primeiro filho, por volta de 1800.

Quando o marido morreu em 1813, ela ocupou o cargo de regente de seu filho, chamado Sekonyele, que mais tarde se tornou o chefe de seu povo. No momento em que povos em fuga das guerras zulu começaram a invadir o seu território, em 1810, Mmanthatisi conduziu o seu povo, que na época se estimava em cerca de 35-40 mil pessoas, numa perigosa marcha para o oeste.

Liderou seu povo em um ataque bem sucedido contra Zwide, chefe do Ndwandwe, e capturou muitos bovinos. Ao longo dos anos seguintes, organizou várias campanhas militares dos Tlokwa, quando se juntaram à migração e invasão generalizada através dos rios Vaal e Orange. Embora alguns não atribuam a ela participação direta nos conflitos, mesmo que sua liderança tenha se limitado ao planejamento e estratégia, era um fato muito incomum uma mulher ter essa posição em uma sociedade patrilinear e suas atividades atraíram a atenção em toda a região.

Sekonyela se juntou a ela quando se estabeleceu no norte do Lesoto, embora continuasse ativa na política de Tlokwa depois que ele assumiu a chefia por volta de 1824.

BIBLIOGRAFIA

LYE, William F. The Difaqane: the Mfecane in the southern sotho area, 1822-24. Journal of African History, v. 8, n. 1,  p. 107-131, 1967.

SHELDON, Katleen. “Mmanthatisi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 23-233.

WEIR, Jennifer. Mmanthatisi. In:  SMITH, Bonnie (Ed).  Oxford encyclopedia of women in world history. Nova Iorque:  Oxford University Press, 2008, v. 3, p. 253-254.

Nandi (c.1760-1827)

Importante referência na história do povo Zulu, na atual África do Sul, sua história se confunde com a lenda e muitos episódios provém da imaginação popular transmitida ao longo do tempo por via oral.

Teria nascido entre o povo Elangeni, na área cultural dos povos zulus, e do relacionamento com o chefe Senzanghakona (1757-1815) deu à luz ao guerreiro Chaka, unificador do seu povo. Segundo alguns relatos, ambos não eram casados, o que explicaria o afastamento de Chaka na linha de sucessão do reino. Outras versões informam que ela teria sido banida junto com o filho pelo governante, o que levou à exclusão de seu filho após a morte do rei e a posterior conquista e unificação do reino por seus próprios méritos.

No período de exílio, ela e o filho viveram junto com seu povo, e junto ao povo Mthethwa, sob o governo do rei Dingiswayo, que chefiava a mais importante confederação de povos zulus, onde Chaka começou a se destacar como chefe militar.

Com a morte de Senzanghakona e a tomada de poder por Shaka em 1815, como outras mulheres dos estratos governantes, Nandi exerceu considerável influência no governo dos povos zulus, inclusive exteriorizando divergências pessoais em relação a determinadas decisões do filho.

As razões e circunstâncias da morte de Nandi são desconhecidas, e a reação de Shaka na ocasião foi dramática, promovendo o sacrifício de milhares de pessoas em sua homenagem. Mas um dos poucos amigos íntimos de Nandi, Mnkabayi, o acusou de ter arquitetado a morte dela.  

BIBLIOGRAFIA

SHELDON, Katleen; WEIR, Jennifer. “Nandi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 388-389.

WEIR, Jennifer. I shall need to use her to rule: the power of “royal” zulu women in the pre-colonial zululand. South African Historical Journal, v. 43, p. 3-23, 2000.  

Nontsizi Mgqwetho (+ 1920–1929)

Poetisa Xhosa da África do Sul, sua mãe era do clã Cwarha e seu pai do clã Chizama. Pouco se sabe sobre ela para além da sua obra.

Foi politicamente ligada à ativista Charlotte Maxeke, promoveu alguns bailes em Rand, e a dança é um elemento recorrente na sua poesia. Um jornal de 1949 refere-se a ela como “Miss Nontsizi Mgqwetho”, sugerindo que não tenha se casado. Sua obra foi publicada, no período situado entre 1920 e 1956, no jornal multilíngue de Johanesburgo Umteteli wa Bantu (O Porta-Voz do Povo), num total de 103 poemas, praticamente todos em xhosa.

Depois do seu primeiro poema, em que se autonomeou de Imbongi u Chizama (Poeta Chizama), passou a assinar como Imbongikazi Nontsizi u Chizama (A mulher poeta Nontsizi do clã Chizama) e, em seguida, Imbongikazi Nontsizi Mgqwetho (A mulher poeta Nontsizi Mgqwetho), indicando sua autoria feminina. O imbongi, poeta da corte real, era sempre homem. Ela alegava que sua atividade poética gerou oposição e inveja dos homens do seu grupo, e criticava-os por sua ineficiência política e perseguição às mulheres oradoras. Sua imagética é toda feminina, e gostava de enfatizar que a própria África seria uma imagem fêmea, notadamente, “uma galinha que protege seus filhotes sob as asas”.

Foi membro de uma manyano, grupo de oradorasmulheres, onde demonstrou preocupação com a falta de moral dos jovens. Cristã, não se furtava a criticar a hipocrisia de seus congêneres urbanos, e incentivava interpretações africanas da Bíblia frente às mulheres brancas. Foi uma entusiasta da luta anticolonial.

Sua obra foi esquecida por décadas, tendo sido recuperada em 1984 e republicada em 2007, consolidando-a como uma das maiores poetisas xhosa de todos os tempos.

BIBLIOGRAFIA

BROWN, Duncan. “Modern prophets, produce a new Bible’: christianity, africanness and the poetry of Nontsizi Mgqwetho. Current Writting , v. 20, p. 77-91, 2008.

BROWN, Duncan. My pen is the tongue of a skilful poet: african-christian identity and the poetry of Nontsizi Mgqwetho.” English in Africa , v. 31, p. 23-58, 2004.

OPLAND, Jeff. Nontsizi Mgqwetho: stranger in town.” In: Furniss, Graham; Gunner, Liz (Eds.).  Power, marginality and african oral literature Cambridge: Cambridge University Press, 1995, pp. 162-184.

OPLAND, Jeff. “Notsizi Mqqwetho”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 206-207.

OPLAND, Jeff (Ed.). The nation’s bounty: the xhosa poetry of Nintsizi Mgqwetho. Johanesburgo: Wits University Press, 2007.

Sindiwe Magona (1943)

Romancista sul-africana do grupo Xhosa, poetisa, dramaturga, contadora de histórias, atriz e palestrante motivacional, nascida em Gungululu, uma aldeia em Tsolo, na antiga região de Transkei, na atual Província Oriental do Cabo. Formada em pedagogia pela Faculdade de Treinamento de Professores de St. Matthews (1961), graduada na Faculdade de Damelin (1981) e Mestra pela Universidade de Columbia (1983).

Atuou junto à Organização das Nações Unidas – ONU no período de 1984 a 2003, principalmente no Departamento de Informação Pública, na seção de Programas de Rádio Anti-Apartheid.  Sua produção literária compreende uma autobiografia, coleções de contos, romances, peças de teatro e mais de 100 livros infantis e para alfabetização, muitos dos quais publicados nos onze idiomas oficiais sul-africanos.

Sua experiência de vida permitiu que ela abordasse questões relativas às circunstâncias que as mulheres enfrentavam, como a necessidade de deixarem suas casas e filhos em busca de melhores oportunidades e as condições miseráveis da população negra nas periferias das grandes cidades. Parte da sua obra dedica-se à vida cotidiana dos negros. Em contraste com as abordagens de outras autoras sul-africanas contemporâneas, ela lançou o desafio à dominação de gênero dentro da própria comunidade negra.

Seu feminismo se diferencia do das mulheres brancas e ela questiona dados da vida negra produzidos e filtrados por feministas brancas, além de confrontar o privilégio da escrita sobre a oralidade. Entre suas obras estão To My Children (Para meu filho) (1994), Mother to Mother (De mãe pra mãe) (1998), Beauty’s Gift (Presente de beleza) (2008) e Awam Ngqo (2009).

Sindiwe recebeu diversos prêmios pelo seu trabalho, como um doutorado honorário pela Faculdade Hartwick, em Nova York (1993), o Prêmio Heróis Xhosa (1997) e a Fita Branca pelo grupo Women Demand Dignity, em virtude do seu romance sobre os desafios das mulheres sul-africanas na sua luta contra o HIV/AIDS (2008).

BIBLIOGRAFIA

ATTWELL, David; HARLOW, Barbara. Interview with Sindiwe Magona. Modern Fiction Studies, v. 46, n. 1, p. 282-295, 2000.

KOYANA, Siphokazi.  Sindiwe Magona: the first decade. Scottsville: Universidade de KwaZulu-Natal Press, 2004.

KOYANA, Siphokazi. “Sindiwe Magona”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 32-33.

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