Tag: Romancistas

Aminata Sow Fall (1941)

Romancista senegalesa e ativista cultural. É lembrada como a primeira escritora publicada da África negra francófona.   Nasceu em Saint Louis, capital da colônia, realizou os estudos iniciais no Licée Faidherbe, em sua cidade natal, e no Licée Von Vollenhoven, em Dakar e formou-se em Línguas Modernas na França, na Université de Sorbonne, passando a atuar como professora quando retornou ao seu país. Na infância, teve uma educação aos moldes muçulmanos, de acordo com os preceitos corânicos, e sua língua materna é o wolof.

Após a independência do Senegal, foi membro da Comissão de Reforma Educacional, responsável pela introdução da literatura africana no currículo francês do Senegal, e autora de manuais didáticos de gramática francesa.  Com o ensejo de preservar o patrimônio cultural, dirigiu o Centre d’Études des Civilisations (Centro de Estudos das Civilizações). Anos mais tarde dirigiu a instituição La Propriété Littéraire (The Literary Property) (1979–88), e foi a   primeira mulher nomeada presidente da Associação de Escritores do Senegal (1980-1984. Em 1990, fundou a editora Éditions Khoudia.

Como autora, Aminata Sow Fall explora a dualidade das realidades africanas com o mundo sobrenatural, denuncia a ambição e a corrupção e valoriza os laços de solidariedade, a humanidade e a espiritualidade. Entre os seus romances estão Le revenant (O fantasma) (1976), La Grève des bàttu (A greve dos mendigos) (1979) e Le jujubier du patriarche (O jujubeiro do patriarca) (1998).

Na condição de defensora dos direitos e liberdades de criação, ela atua a partir de três centros de criação intelectual, o Centre International d’Études, de Recherches et de Reativaction sur la Littérature, les Arts et la Culture – CIRLAC (Centro Internacional de Estudos, Pesquisa e de Reativação da Literatura, das Artes e da Cultura), o Centre Africain d’Échanges et d’Animations Culturels – CAEC (Centro Africano de Animações Culturais), e no Bureau Africain Pour la Défense des Libertés de l’Écrivain – BADLE (Escritório Africano para a Defesa das Liberdades do Escritor).

BIBLIOGRAFIA

AZODO, Ada Uzoamaka. Emerging perspectives on Aminata Sow Fall: the real and the imaginary in her novels. Africa World Press, 2007.

AZODO, da Uzoamaka. “Aminata Sow Fall”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 449-451.

GUÈYE, Médoune. Aminata Sow Fall: oralité et société dans l’oeuvre romanesque. Paris:  Editions L’Harmattan, 2005.

ORMEROD, Beverly; VOLET, Jean-Marie. Aminata Sow Fall. In: IDEM. Romancières africaines d’expression française: le sud du Sahara. Paris: L’Harmattan, 1994.

Amma Darko (1956)

Romancista ganense, nasceu em Tamale, região norte da então colônia britânica da Costa do Ouro. Foi criada pelos tios, que adotaram três outros de seus irmãos.  Depois de concluir o ensino secundário em Accra, estudou na Universidade de Ciência e Tecnologia e se formou em Design industrial (1980).

Trabalhou em Gana por um ano após a formação universitária mas devido às dificuldades decidiu buscar  melhores perspectivas na Alemanha. Porém, devido à combinação da xenofobia e do racismo, não conseguiu mais do que trabalhar como doméstica. Neste período difícil, escreveu o primeiro romance, Alem do horizonte. Após sete anos, durante os quais produziu vários manuscritos adicionais (não publicados), retornou a Gana para começar sua carreira como inspetora fiscal, casou-se e teve uma filha e dois filhos.  

A circulação do manuscrito de seu romance, até então inédito, chamou a atenção da Schmetterling Verlag, uma pequena editora de Stuttgart, na Alemanha, que aceitou publicá-lo. Além do horizonte foi publicado em tradução alemã com o título  Der Verkufte Traum (1991).  O romance explora os sonhos,  ilusões e a inocência da protagonista, Mara, que experimenta a opressão e o abuso desde o casamento forçado em sua aldeia com o mensageiro semiletrado Akobi, a vida desestruturada em Accra e em Munique, onde o marido a entrega para a prostituição.

Em   Housemaid (Empregada) (1998), o segundo trabalho de Darko, publicado em inglês  pela editora Heinemann, o olhar é dirigido para a realidade traumática da pobreza e a disposição de homens e mulheres para se entregar plenamente uns aos outros. Quanto o terceiro romance, Faceless (Sem rosto) (1996), gira em torno das vidas trágicas de crianças de rua em Accra, expostas às desigualdades sociais profundas, à desagregação social e aos riscos do HIV-AIDS. Já em Not without flowers (Não com flores) (2007), os(as) problemas dizem respeito aos dramas psicológicos do casal  Aggie e Idan, personagens de uma classe média emergente em cenários marcados pela confronto entre a estabilidade das estruturas tradicionais e questões inauguradas pelo mundo urbano moderno.

A narrativa de Amma Darko põe à nu as consequências das desigualdades econômicas sobre as necessidades humanas básicas, e os choques daí decorrentes, bem como a complexidade das relações individuais e afetivas. 

BIBLIOGRAFIA

ODAMTTEN, Vincent. Broadening the horizon: critical introduction to Amma Darko. Banbury: Ayebia Clarke, 2007.

ADEJEI, Mawuli. Male-bashing and narrative subjectivity in Amma Darko’s first three novels. SKASE Journal of Literary Studies, v. 1, n. 1, 2009: http://www.skase.sk/Volumes/JLS01/pdf_doc/04.pdf

Balaraba Ramat Yakubu (1958)

Nascida em Kano, ao Norte da Nigéria, recebeu formação escolar islâmica e ocidental até a adolescência, quando foi forçada pela família a se casar. Teve dois casamentos forçados, de um total de quatro, dos quais ela logo se divorciou. Por causa disso, ao longo de toda a sua carreira estimulou as mulheres hauçás a buscar sua independência e oportunidades de sobrevivência. No início do século XXI fundou a empresa de publicidade Ramata General Enterprises, onde publica suas obras e exerce o cargo de administradora.

Ao longo da vida, Yakubu se destacou como romancista, roteirista e figura icônica da literatura popular hauçá, muito conhecida em cidades como Kano, Katsina, Zariya, Kaduna e Sokoto. Suas obras enquadram-se no gênero da literatura popular identificado como littattafan soyayya (literatura amorosa), muito apreciado, mas criticado pelas autoridades religiosas tradicionais. Ela explora no enredo de suas obras dramas amorosos e familiares, e no subtexto reside uma crítica aos privilégios patriarcais e aos condicionantes da opressão sobre as mulheres pela poligamia, casamentos arranjados ou forçados, a mutilação genital (pardah), e a falta de oportunidade de ensino.

Entre os seus livros mais apreciados estão Budurwa Zuciya (Coração virgem), Alhaki Kuykuyo Ne (A inevitável retribuição) e Wane kare ne ba bare ba (uma vez um cão, sempre um cão), que trata da coabitação entre co-esposas reiteradamente violadas em seus direitos e conjuntamente oprimidas. Em Wa azai auri jahila (Quem quer casar com uma mulher ignorante?), o tema principal é a educação como meio de libertação feminina. O romance acompanha o processo de libertação de Zainabu, uma jovem adolescente que abandona a família do marido para viver em Kano, onde trabalha durante o dia e estuda no período noturno, obtendo com o tempo estabilidade emocional, psicológica e financeira.  Por suas ideias, a autora é reiteradamente condenada pelas autoridades muçulmanas nigerianas, embora ela não conteste a religião, e sim as tradições culturais quando servem de meio de opressão e de privação dos direitos femininos.

BIBLIOGRAFIA

LARKIN, Brian. Indian films and nigerian lovers: media and the creation of parallel modernities. Africa, n. 67, p. 406-439, 1997.

WHITSITT, Novian. “Balaraba Ramat Yakubu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 196-197.

WHITSITT, Novian. Islamic-hausa feminism in Kano Market litterature; Qu’ranic reinterpretation in the novels  of Balaraba Ramat Yakubu. Research in African Litterature, n. 33, p. 119-136, 2002.

Barbara Kimenye (1930-2012)

Escritora de livros infantis ugandense, jornalista pioneira no leste da África. Foi secretária pessoal do kabaka (rei) de Buganda, Mutesa II. Nasceu na Inglaterra e estudou em um convento de Yorkshire antes de receber treinamento para enfermeira  em Hammersmith, Londres.

Mais tarde ela  se tornou jornalista,  escrevendo para jornais do Quênia e de Uganda. Entre os seus livros estão Kalasanda (1965), Moses (1967), Paulo’s strange Adventure (A estranha aventura de Paulo) (1971), Sarah and the boy (Sarah e a criança) (1973), The Runaways (Os corredores) (1973), Moses and the men from Mars (Moses e o homem de marte) (1991), The money game (O jogo do dinheiro) (1992), Beauty queen (A bela rainha)  (1997).

Os seus trabalhos sempre apresentam histórias de aventuras sobre meninos e meninas. Seu personagem favorito é um menino em idade escolar chamado Moisés (Moses) cujo amor pela aventura muitas vezes o levou, com os seus amigos, a enfrentar problemas com as autoridades. Suas qualidades morais são entretanto um meio de identificação com os jovens leitores a quem a autora procura transmitir mensagens positivas e construtivas.

BIBLIOGRAFIA

SCHMIDT, Nancy. The writer as a tacher: a comparison of the african adventure stories of G. A. Henty, Rene Guillot, and Barbra Kimenye. African Studies Review, v. 19, p. 69-80, 1976.

Bilkisu Funtuwa (1962)

Romancista nigeriana, nasceu na cidade de Funtuwa, no norte do país, onde atualmente reside em uma família poligâmica na qual ocupa a posição de esposa-sênior. Ela recebeu uma educação islâmica durante a adolescência.

Os romances de Funtuwa são parte de um corpo de literatura popular conhecido pelos falantes de hauçá como littatafan soyayya (livros de amor). A popularidade de suas obras, vendidas na cidade de Kano, gerou controvérsia no ambiente muçulmano conservador da sociedade hauça a que ela pertence.  Os enredos dos romances retratam as provações de namorados, amantes e casais conjugais, mas alguns deles não deixam de explorar temas sociais culturalmente controversos, como a poligamia, casamentos forçados e o purdah – a prática islâmica de reclusão feminina – e a afirmação feminina pela educação.

Ao contrário de outras produções similares, Funtuwa assume uma posição conservadora. Não se volta contra os casamentos forçados e considera que as mulheres sejam responsáveis ​​por sua própria miséria emocional quando cedem a sentimentos de frustração e ciúmes.  Suas personagens alcançam a libertação e assumem carreiras como advogadas, administradoras do governo e médicas, ao mesmo tempo em que levam vidas encantadoras como esposas de homens de negócios ricos.

Todos os seus romances lidam de perto com a kissa, que é a capacidade de despertar e excitar o interesse dos maridos. Na opinião de Funtuwa, a exibição de kunya (timidez) funciona contra o sucesso dos casamentos, pois  os maridos acabam voltando-se para relacionamentos extra-conjugais em busca de companheirismo e conversação. Nos dois volumes do romance Ki yarda da ni (Acredite em mim) (1997), a protagonista, Aisha, mostra-se resignada e abnegada na relação conjugal como primeira-esposa de Ismail, e sua aceitação da co-esposa garantem a harmonia da família poligâmica. Em certa ocasião chega mesmo a evitar que a outra seja repudiada pelo marido.

Talvez o componente mais agressivamente feminista da escrita de Funtuwa seja seu apoio inabalável à educação feminina. Em seus livros as mulheres sempre obtém a excelência acadêmica. No romance intitulado Wa ya san gobe (Quem sabe o que o amanhã trará (1997) a protagonista, Fati, obtém diversos diplomas universitários e coroa a ascensão profissional com a promoção ao cargo de assistente no Ministério da Educação.

Sob o guarda-chuva do feminismo islâmico hauçá, Bilkisu Funtuwa representa uma perspectiva conservadora. No entanto, continua a ser indiscutível que ela defende os direitos das mulheres através da valorização da educação feminina. Suas lições sobre como lidar com a confusão emocional decorrente da poligamia e dos casamentos forçados ajudaram inúmeros leitores(as) a melhorar a qualidade de suas vidas.

BIBLIOGRAFIA

WHITSITT, Novian. Islamic-hausa feminism  and a Kano market literature: Qur’anic reinterpretation in the novels of Balaraba Ramat Yakubu. Research in African Literatures, v. 33, n. 2, p. 119-136, 2002.

WHITSITT, Novian.  Kano market literature and the construction of hausa-islamic  feminism: a contrast in feminism perspectives of de Balaraba Ramat Yakubu e Bilkisu Ahmed Funtuwa. Thesis, Universidade de Wisconsin, 2000.

WHITSITT, Novian. “Bilkusu Funtuwa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 401-403.

Buchi Emecheta (1944-2017)

Romancista nigeriana,nasceu com o nome de Florence Onyebuchi Emecheta, nas proximidades de Lagos, Nigéria, de uma família de origem étnica igbo. Ela foi educada no primário em uma escola batista e no secundário em uma escola metodista para meninas em Lagos. 

Casou-se em 1960 com Sylvester Onwordi eles tiveram dois filhos antes de irem trabalhar na Inglaterra (1962), e depois ela teve mais três filhos. Separada em 1966, começou a carreira de escritora conjugando a educação dos cinco filhos e os estudos na Universidade de Londres, onde obteve o diploma de bacharelado em Sociologia (1974), o mestrado (1976) e o doutorado em Educação (1991).

Em seu primeiro romance, In the ditch (No fundo do poço) (1972), em que retrata suas experiências como imigrante, resulta de uma série de artigos que ela publicou no jornal The New Statesman. Seus mais de vinte livros tratam em geral das pressões sociais sobre as mulheres africanas. The joys of motherhood (As alegrias da maternidade) (1979), com seu título irônico, costuma ser utilizado como material de apoio para discutir na escola o peso das expectativas da tradição sobre as mulheres e as mudanças introduzidas pelo colonialismo. Em obra mais recente, Kehinde (1994), o enredo gira em torno de uma mulher que, depois de morar em Londres por dezesseis anos, é obrigada a voltar à Nigéria acompanhando o marido. Os conflitos daí resultantes em suas vidas refletem as experiências de muitas mulheres da diáspora africana moderna.

Emecheta trabalhou no Museu Britânico na década de 1960, e atuou como jovem trabalhadora para a Inner London Education Authority nos anos 1970.  Depois que os seus livros se tornaram bem-sucedidos ela deu aulas em diversos lugares, inclusive na Universidade do Estado da Pensilvânia, na Universidade de Rutgers e na Universidade da Califórnia, na Universidade de Los Angeles e de Illinois, entre outras.  Ela foi premiada com a Ordem do Império Britânico em 2005.

BIBLIOGRAFIA

FISBUN, Katherine. Reading Buchi Emecheta: cross cultural conversations. Westport: Greenwood Press, 1995.

SHELDON, Katleen. “Buchi Emecheta”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 298-299.

UMEH, Marie. Emerging perspectives on Buchi Emecheta. Trenton: Africa World Press, 1996. 

Calixthe Beyala (1961)

Escritora camaronesa de origem cultura Eton, nasceu em Sa’a. Foi educada na École Principale du Camp Mboppi, em Douala, e depois  frequentou o Lycée des Rapides, em  Bangui,  e o Lycée Polyvalent, em  Douala. Aos dezessete anos obteve uma bolsa de estudos para estudar em Paris, que lhe permitiu realizar o curso   universitário.  

Fortemente influenciada pela tia e avó, que lhe contavam estórias tradicionais que a inspiraram a seguir carreira como escritora. Aos vinte e três anos lançou o seu primeiro livro na Espanha, com o título de C’est le soleil qui lui brûlée (Foi o sol que o queimou), e decidiu dar continuidade a uma obra romanesca de grande reconhecimento internacional e várias premiações. Entre sua vasta lista de obras estão Maman a un amant (Mamãe tem um amante) (1993), que lhe rendeu o Grande Prêmio de Literatura Black África, e Les honneurs perdus (As honras perdidas) (1996), ganhadora do Grande Prêmio do gênero romance pela Academia Francesa. 

BIBLIOGRAFIA

ASAAH, Augustine H..  Revers, révolte et réveil dans Tu t’appelleras Tanga de Calixthe Beyala. Présence Africaine, v. 161-162, n. 3, p. 253-268, 1999.

CAZENAVE, Odile. Calixthe Beyala and the politics of sexuality : the example of Assèze l’Africaine. Présence Africaine, v. 154, n. 2, p. 283-298, 1996.

HITCHCOTT, Nicki. “Calixte Beyala”.  In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 439-440.

SALÉ, Charles. Calixthe Beyala: analyse sémiotique de Tu t’appelleras Tanga. Paris: Harmattan, 2005. 

Chika Unigwe (1974)

Escritora nigeriana de obras de ficção, livros didáticos, e poetisa, com obras publicadas na Inglaterra, Bélgica, Holanda e Estados Unidos. Nasceu em Enugu, capital do estado de mesmo nome, cuja população é majoritariamente vinculada ao grupo étnico igbo. Faz parte de uma família tradicional, e o pai, Fred Belonwu Unigwe foi deputado na Anambra State House of Assembly.  Realizou o curso secundário na Federal Government Girl’s College (Colégio Federal para Meninas) e concluiu o bacharelado na University of Nigeria, Nsukka (Universidade da Nigéria, Nsukka) em 1995. Casou-se, aos vinte e um anos de idade, com o belga Jan Vandenhoudt, e posteriormente, obteve o título de Mestre em língua inglesa pela Katholieke Universiteit Leuven (Universidade Católica de Louvain) (1996) e Doutora em língua inglesa pela Universiteit Leiden (Universidade de Leiden) (2004).

Em sua obra, Chika Unigwe aborda assuntos contemporâneos relacionados especificamente a situação dos(as) africanos(as) no mundo, como a questão da imigração para a Europa; temas vinculados ao universo feminino e a igualdade e gênero; e temas universais como as aspirações humanas, amor e sofrimento, o que projetou seu nome no mercado literário internacional. Em 2014 ela foi considerada uma das 39 escritoras mais influentes da África subsaariana, com potencial talento par definir tendências futuras na literatura africana. Unigwe integra o conselho de administração do coletivo pan-africano Writivism, e fundou na Nigéria a Awele Creative Trust, para apoiar jovens escritores(as). Seu segundo romance, publicado em holandês com o título de Fata Morgana (Fada Morgana) (2007), e em inglês como On black sister’s street (Na rua das irmãs negras), tem como eixo narrativo as agruras de mulheres africanas vítimas do tráfico internacional que vivem nas ruas da Bélgica como prostitutas, e a indiferença da sociedade belga com os(as) imigrantes. 

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. Chronicling beyond Abyssinia: african writing in Flandres (Belgium). In: BEKERS, Elisabeth et alii (Eds). Transcultural modernities: narrating Africa in Europe. Amsterdam; New York: Rodopi, 2009, pp. 55-76.

BEKERS, Elisabeth. “Chika Unigwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 101-103.

OTAS, Belinda. Chika Unigwe on the streets of Antwerp. Publishing Perspectives, 23/12/2009. Disponível: https://publishingperspectives.com/2009/12/chika-unigwe-on-the-streets-of-antwerp/

Chimamanda Adichie (1977)

Escritora criativa nigeriana e ensaísta, com envolvimento e liderança no pensamento feminista. Nasceu em Enugu, de uma família de origem Igbo da cidade de Abba, no Estado de Anambra, mas cresceu em Nsukka. O pai era professor de Estatística na Universidade da Nigéria e mais tarde tornou-se vice-chanceler adjunto da instituição, enquanto a mãe era graduada em Sociologia e tabeliã.

Adichie completou sua formação na Universidade Escola da Nigéria, vencendo diversos prêmios por excelência acadêmica. Ela estudou Farmácia e Medicina na universidade por um ano e meio, mas rapidamente percebeu que não queria seguir esta carreira. Desde a juventude escreveu algumas peças e obras em prosa, sendo influenciada pela escritora inglesa Enid Blynton, mas sobretudo pelos romancistas africanos Chinua Achebe, seu conterrâneo, e Câmara Laye, que oferecera a ela perspectivas de pensar a africanidade. 

Em 1997, publicou uma coleção de poemas intitulada Decisions (Decisões), e deixou a Nigéria para estudar Comunicação na Universidade Drexel, na Filadélfia. Depois de dois anos, pediu transferência para a Universidade Estadual de Eastern Connecticut, onde completou o bacharelado em Comunicação e especialização em Ciência Política (2001).  Foi quando começou a escrever o romance Purple hibiscus (Hibisco Roxo), publicado em 2003, quando passou a ganhar reconhecimento no cenário da literatura internacional.

Em 2004 ela obteve um diploma de Mestrado em Escrita Criativa na Universidade John Hopkins e em 2005-2006 obteve uma bolsa de estudos Hodder da Universidade de Princeton, onde lecionou Introdução à ficção. No outono de 2006, matriculou-se no Programa de Mestrado em História Africana da Universidade de Yale. Paralelamente, ela continuava sua carreira de escritora, publicando numerosas histórias em periódicos internacionais como Granta e o New Yorker e diversos ensaios em jornais de prestígio, incluindo o Guardian e o Washington Post.

Em 2006 foi publicado o seu segundo romance, Half of a yellow sun (Meio sol amarelo), que venceu o Prêmio Internacional de Conto David T. Wong, o Orange Broadband Prize de Ficção em 2007 e foi pré-selecionado para o Commonwealth Writers’ Prize de Melhor Livro (Região Africana) no mesmo ano. A obra teve também grande êxito comercial, especialmente no Reino Unido, e selou o status da escritora como um dos principais nomes da literatura africana no início do século XXI.  

Chimamanda regularmente retorna à Nigéria, apoiando ativamente talentos literários locais emergentes através da organização de workshops para aspirantes a escritores em Lagos. Em maio de 2008 ela se completou os estudos em Yale e se mudou para Columbia, Maryland. Em setembro do mesmo ano recebeu uma bolsa de estudos da Fundação MacArthur, um prêmio de 500.000 dólares. A primeira coleção de contos de Adichie, The thing around your neck (No seu pescoço), foi publicada em abril de 2009.

Como escritora de ficção, suas obras tratam de dramas sociais nigerianos, mas também das situações dos imigrantes nos Estados Unidos, tema abordado em sua conhecida conferência no TED, intitulada “Os perigos de uma história única” (2009). Sua atuação e denúncia das desigualdades de gênero levou a que proferisse a conferência We shoud all be feminists (Sejamos todos feministas) (2012), em que compartilha sua experiência como mulher africana feminista, e sua visão sobre a construção de relações de gênero e sexualidade, que logo foi transformada em livro de grande impacto editorial em 2014.

BIBLIOGRAFIA

COOPER, Brenda. New generation of African writers: migration, material culture and language. Oxford: James Currey, 2008.

HEWETT, Heather. Coming of age: Chimamanda Ngozi Adichie and the voice of the third generation. English in Africa, Centurion (África do Sul), v. 32, n. 1, p. 73-97, 2005.

OGWUDE, Sophie. History and ideology in Chimamanda Adichie’s fiction. Tydskrift vir Letterkunde, v. 48, n.1, 2011:   https://www.ajol.info/index.php/tvl/article/view/63824

TUNCA, Daria. “Chimamanda Ngozi Adichie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 94-95.

Doris Lessing (1919-2013)

Romancista e escritora de contos, vencedora do Prêmio Nobel da Literatura. Nasceu como Doris May Tayler em Kermanshah, na Pérsia, atual Irã.  Seu pai trabalhava para o Banco Imperial da Pérsia, e decidiu se mudar para a então colônia britânica da  Rodésia para se tornar fazendeiro, aí se estabelecendo com a família. Após tentativas infrutíferas, a família se estabeleceu em Salisbury, a capital da colônia. Lá Dóris obteve sua educação formal em internatos até os quatorze anos, e depois trabalharia como babá, telefonista, e secretária de uma firma de advocacia.

Em contato com intelectuais e escritores que se opunham ao sistema se segregação racial vigente na Rodésia, com socialistas e exilados europeus que lutaram na II Guerra Mundial contra o Nazismo e o Facismo, ela acumulou experiências que inspirariam os  quatro primeiros volumes de sua obra Children of Violence (Filhos da Violência) (1945). Antes de deixar a Rodésia, completou The Grass is Singing (A grama está cantando) (1950), logo aclamado pela crítica.  Devido ao seu posicionamento público contrário à exclusão dos negros, foi considerada uma imigrante e, como tal, proibida de entrar na Rodésia (1956), que é o “lar” referenciado no título do romance Going Home (Indo para casa) (1957).

Ela só voltou a ser bem vinda na década de 1980, após a independência do país, que passou a se chamar Zimbabwe, e lá  esteve diversas vezes, descrevendo essas visitas nos livros African Laughter (Riso africano) (1992) e em Under my sky (Sob o meu céu) (1994). Outros livros situados parcialmente na África são Mara and Dann (1999) e The sweetest dream (O sonho mais doce) (2001), em que retrata a má administração do país que ela observou em suas visitas.

Em 2007, quando recebeu o Prêmio Nobel da Literatura, em seu discurso falou da biblioteca que ajudou a financiar e organizar a fim de levar livros para áreas rurais pobres do Zimbabwe.  

BIBLIOGRAFIA

CHENNELS, Anthony. “Doris Lessing”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 493-494.

THORPE, Michael.  Doris Lessing’s Africa. Londres: Evans Bros, 1978.

WARD, Jouve. White woman speaks with forked tongue: criticismo as autobiography. Londres; Nova Iorque: Routledge, 1991.

Elsa Joubert (1922-2020)

Autora de língua africânder, nasceu em Paarl, África do Sul. Seu nome completo é Elsabé Antoinette Murray Joubert. Filha de um intelectual diretor de escola, W. A. Joubert e sua esposa E. A. Murray. Foi casada com o jornalista Klaas Steytler, falecido em 1998, com quem teve duas filhas e um filho.

Bacharela em Artes pela Universidade de Stellenbosch e Mestra em Literatura holandesa-africâner pela Universidade do Cabo, foi editora da seção para mulheres da Huisgenoot, uma influente revista africâner para a família. Visitou diversos países africanos e a Indonésia, que a inspiraram a escrever diversos livros acerca das suas experiências de contato com o “outro”, da sua própria posição enquanto africana branca, da posição da África do Sul entre a África e a Europa.

Sua principal obra foi Die swefjare van Poppie Nongena (A Grande Viagem de Poppie Nongena) (1978), traduzida para treze idiomas. Trata-se de um romance em forma de depoimento que relata as adversidades de uma mulher negra em luta contra o Apartheid no ano de 1976, no contexto do Massacre de Soweto. O livro teve a coautoria de uma mulher que teria sido doméstica em sua casa, com a qual ela dividiu os lucros pelas vendas do livro, através da qual a escritora percebeu que poderia denunciar o que estava sendo feito contra os negros no país. A adaptação da obra para o cinema, em parceria com Sandra Kotze, foi importante para a mudança de postura de sul-africanos brancos em relação ao Apartheid.

Die reise van Isobelle (A Grande Jornada de Isobelle) (1995) é um romance familiar épico que sintetiza o século XX africânder, da Guerra dos Bôeres às lutas dos anos 1990, pelo qual recebeu o Prêmio Hertzog (1998).

Mais recentemente, Elsa Joubert publicou suas memórias em dois volumes: ‘n Wolderlike geweld. Jeugherinneringe (Uma Violência Maravilhosa: Memórias de uma Jovem) (2005), e Reisiger. Die limietberge oor (Viajante: além do limite/Montanhas mais distantes) (2009). O excesso de detalhes fez com que, para muitos críticos, estas obras fossem consideradas tediosas, mas elas constituem um testemunho importante de alguém que viveu entre os grupos dominantes e viu os acontecimentos do século XX a partir deste ponto de vista.

BIBLIOGRAFIA

JANSEN, Ena. “Elsa Joubert”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 225-226.

LENTA Margaret. “A break in the silence”. In: Daymond, J; Jacobs, J. U.; LENTA, Margaret (Eds.). Momentum: On recent south african writing. Pietermaritzburg: University of Natal Press, 1984, p. 147-158.

McCLINTOCK, Anne. “The very house of difference”: race, gender and the politics of south african women’s narrative in Poppie Nongena. Social Text, n. 25-26, 1990, p. 196–226, 1990.

WENTZEL, Marita. The African connection. Elsa Joubert’s journeys towards selfhood and commitment. Current Writing, v. 11, n. 2, p. 121-135, 1999.

Goretti Kyomuhendo (1965)

Romancista ugandense, ensaísta e ativista.  Nasceu no distrito Hoima, no oeste de Uganda, e é uma das mais prolíficas autoras do país. Completou as séries iniciais na Kibuli Secondary School e as séries finais no Sir Tito Secondary School. Depois, foi estudar Marketing na Nekawa Business College, atualmente Makerere University Business School e obteve o Mestrado em Escrita Criativa da University of Kwazulu-Natal, em Durban, África do Sul.

Goretti foi uma das fundadoras do FERMITE, uma associação endógena sem fins lucrativos que surgiu da Associação de Escritoras Ugandenses de apoio às escritoras no país e em âmbito internacional. O programa contribuiu significativamente para a expansão do corpus literário feminino em Uganda, coletando e disseminando informações sobre questões relacionadas ao gênero e advogando um aumento de representatividade de mulheres na literatura gerada por comunidades locais. Ao mesmo tempo, encorajou um retrato positivo da mulher promovendo uma sensibilidade literária de gênero na sociedade.

O primeiro romance de Goretti, The first daughter (A primeira filha) (1996)  foi bem recebido em Uganda, e o segundo, Secrets no more (Sem mais segredos) (1999) recebeu o prêmio de melhor romance do ano pelo National Book Trust de Uganda. O terceiro romance Whispers from Vera (Sussurros de Vera) (2002) inicialmente foi feito em capítulos e publicado em jornais diários. Foi a primeira ugandense a ser convidada para um Programa Internacional de Produção Literária na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

Como escritora, ativista e feminista, Goretti Kyomuhendo afirma que escrever lhe concede um espaço que ela pode contribuir para melhorar a situação das mulheres contando histórias que definem suas experiências em suas próprias vozes. Não é coincidência que todos os seus personagens principais são mulheres.

BIBLIOGRAFIA

DAYMOND, Margaret. Afterword. In: Waiting: a novel of Ugnda at war, by Goretti Kyomuhendo. Nova Iorque: The Feminist Press, 2007.

KIGULI, Susan. FEMRITE and the woman writer’s position in Uganda: personal reflections. In: ARNDT, Susan; BERNDT, Katrin (Ed.). Worlds and worlds: African writing, theatre and society. Trenton: African World ress, 2007, p. 169-184.  

KYOMUHENDO, Goretti. To be an african woman writer: joys and challenges. In: ARNDT, Susan; BERNDT, Katrin (Ed.). Worlds and worlds: african writing, theatre and society. Trenton: African World ress, 2007, p. 185-192.  

SPENCER, Linda. “Goretti Kyomuhendo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 450-451.

Helen Olajumoke Oyeyemi (1984)

 Romancista e dramaturga anglo-nigeriana, nasceu em Ibadan e faz parte de uma família de imigrantes nigerianos na Inglaterra. Cresceu em um bairro multirracial ao sul de Londres desde quando tinha quatro anos de idade.  Seu pai trabalhou de vigia enquanto estudava para ser professor,  e sua mãe trabalhou de supervisora no metrô.

Seu primeiro romance, The Icarcus Girl (A garota Ícaro)  foi escrita quando ela tinha dezoito anos e estudava para os exames preparatórios de ingresso na universidade, equivalente ao vestibular, obra aclamada pela crítica em 2005. Estudou ciência política e social na Universidade de Cambridge, período em que escreveu duas peças teatrais e um segundo romance foi concluído meses antes da formatura.

Com obra publicada por importantes editoras, o trabalho de Oyeyemi é representativo da terceira geração de escritores nigerianos, junto com Chimamanda Adichie, Sefi Atta, Chris Abani, Helon Abila, e outros(as). Algumas de suas obras tem como protagonistas crianças imigrantes caribenhas e africanas que cresceram em Londres, motivo pelo qual alguns críticos afirmam que ela não poderia ser enquadrada na literatura nigeriana. Ela própria já disse que não se sente totalmente africana, nem totalmente inglesa. Suas maiores influências são Edgar Allan Poe e Emily Dickinson e alguns estudiosos inserem sua literatura como transnacional, diaspórica e  multicultural, situando-a  ao lado de autoras negras britânicas como Diana Evans e Bernardine Evaristo.

Sua escrita ecoa as diversas identidades culturais e lugares, incorpora a língua yoruba, a religiosidade afro com a mitologia grega e a literatura britânica. Em 2010 a autora participou do Calabash International Literary Festival na Jamaica. Oyeyemi mantém um blog chamado Bedtime stories for immigrant kids.

BIBLIOGRAFIA

BRYCE, Jane. ‘Half and Half Children’: third generation women writers and new nigerian novel. Research in African Literatures, v. 39, n. 2, p. 49-67, 2008.

COOPER Brenda. The middle passage of the gods and the new diaspora: Helen Oyeyemi’s The Opposite House.  Reaserch in African Literatures, v. 40, n. 4, p. 108-121, 2009.

IMMA, Z’Etoile. “Helen Olajumoke Oyeyemi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p.  67-68.

Ingrid de Kok (1951)

Poetisa sul-africana, crítica, acadêmica e administradora universitária. Nasceu em Johanesburgo, filha de um um metalúrgico e de uma professora da creche.  Estudou na Escola St. Andrew (1968) e formou-se em Ciências Políticas e Inglesas da  Universidade de Witwatersrand (1972) depois de uma viagem de intercâmbio no Missouri, Estados Unidos (1969-1970). Alguns anos mais tarde concluiu o seu Mestrado em Inglês na Universidade de Ontario, Canadá, com pesquisa sobre a poesia lírica de Thomas Hardy (1984).

Ao retornar para a África do Sul fixou residência na Cidade do Cabo, passando a trabalhar em  vários projetos de educação e desenvolvimento. Já publicava poemas desde 1977 em várias revistas literárias sul-africanas. A primeira coletânea, Familiar Ground (1988), tem como foco as paisagens de seu país e do Canadá,  e memórias de infância. Algumas poesias revelam a dimensão psicológica  das restrições impostas pelo regime de segregação em que ela cresceu. Em 1988 Ingrid passou a fazer parte do corpo docente da Universidade do Cabo.

Como poetisa, editora, crítica, educadora e facilitadora de eventos públicos, Ingrid de Kok contribuiu significativamente durante todo o período de transição da África do Sul após o Apartheid. Debateu o papel da arte e da cultura no processo de recomposição social. Ela atuou como editora de poesia na importante revista sul-africana New Contrast (1995-1996), e publicou sua segunda coletânea de poesias, Transfer (1996), no contexto em que ocorria a Comissão da Verdade e da Reconciliação – TRC, e expôs em algumas obras as dimensões da culpa e da catarse que emergiram naquele cenário. 

Os reflexos da violência social e a busca por reparação transparecem em poemas de duas outras obras dela: City in words: poems (Cidade em palavras: poemas) (2001) e Terrestrial things (Coisas terrenas) (2002), que foram parcialmente retomados na coletânea Seasonal fires: new and selected poems (Incêndios periódicos: poemas novos e selecionados) (2006), obra traduzida para o italiano e outras línguas.

BIBLIOGRAFIA

GRAHAM, Shane. South african literature after the Truth Commission: mapping loss. Niva Iorque: palgrave MacMillan, 2009.

KELLY, Erica. Strangely tender: an interview with Ingrid De Kok. Scrutiny2: issues in english  studies in Southern Africa, v. 8, n. 1, p. 34-48, 2003.

PATKE, Rajeev S.. Postcolonial poetry in english. Oxford:  Oxford University Press, 2006. 

Isabel Ferreira (1958)

Escritora angolana, na juventude participou das guerras de libertação do país, nas Forças Populares de Libertação de Angola (FAPLA).  Já na época sua propensão para as artes levou a que se envolvesse em atividades culturais, e ela passou a fazer parte de um grupo musical que tinha como objetivo elevar o moral dos guerrilheiros nas frentes de combate.

Obteve graduação com Licenciatura em Dramaturgia pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Amadora, Portugal, e Curso de Especialização em Dramaturgia pela Universidade de São Paulo. É membro da União dos Escritores Angolanos.

Como escritora, é autora do romance Fernando daqui (2007), e dos livros de poesia Laços de amor (1995), Caminhos ledos (1996), Nirvana (2004), À margem ddas palavras nuas (2007) e O leito do silêncio (2014).

BIBLIOGRAFIA

ALVES DA SILVA, Gislene. Entrevista. Isabel Ferreira: um grito literário vindo de Angola. Grau Zero- Revista de Crítica Cultural, v.3, n.1, p.259-266, 2015.

Ken Bugul (1947)

Pseudônimo utilizado pela romancista senegalesa Mariètou Mbaye Biléoma, que na língua wolof significa “alguém não desejado”. Nasceu em Ndoucoumane, foi criada em ambiente polígamo, de um pai que era um marabu de 85 anos. Depois de concluir o ensino fundamental em sua aldeia natal, ela estudou na Escola Secundária Malick Sy, em Thiès, em Dakar, obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu continuar os estudos na Bélgica na década de 1970. 

Em 1980, quando voltou ao país, foi uma das vinte e oito esposas do marabu de sua comunidade, e depois da morte dele ela se estabeleceu em Dakar, a partir de onde  se envolveu em trabalhos para a Federação Internacional  de Planejamento Familiar, com atividades em Nairobi  (Quênia), Brazzaville (Congo) e Lomé  (Togo). Posteriormente, ela se casou com um médico do Benin e deu à luz uma filha.

Como romancista Ken Bugul é ganhadora do  Grand Prix Littéraire d’Afrique Noire pelo romance Riwan ou le Chemin de sable (Riwan ou o caminho de areia) (2000), mas é mais conhecida entre os leitores americanos por seu romance Le baobab fou (O baobá louco) (1984), com traços autobiográficos e onde tece uma poderosa crítica aos resquícios do colonialismo na África. Em suas próprias palavras,  escrever é “matar a morte”. Seus textos contém uma escrita de urgência para aliviar o sofrimento pelos traumas herdados do período colonial, uma escrita contra a alienação e o assimilacionismo cultural. 

BIBLIOGRAFIA

CHUNG, Chorok Sally. “Ken Bugul”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 333-334.

MAGNIER, Bernard. Ken Bugul ou l’écriture thérapeutique. Notre librairie, v. 81, p.151-155, 1985.

GARANE, Jeanne. “La femme moderne, c’est moi; la femme traditionnelle, c’est aussi moi”: entretien avec Ken Bugul. Women in French Studies, v. 11, p. 101-112, 2003.

Latifa al-Zayyat (1923-1996)

Escritora e ativista política egípcia, nasceu em Damietta, onde morou até os seis anos de idade, e indo posteriormente para Mansura e para o Cairo. Seu pai era funcionário do governo e participava de conselhos municipais em todo o Egito. Ao longo da vida ela se envolveu em diversos acontecimentos da história de seu país, com destaque na luta anti-colonial.

Entre 1942 e 1946 ela estudou literatura inglesa na Universidade do Cairo, onde também atuou no movimento estudantil. Foi eleita secretária geral do Comitê Nacional de Trabalhadores e Estudantes e liderou manifestações contra a presença britânica. Em março de 1949, ela e o marido foram condenados e cumpriram três anos de prisão devido as suas atividades de contestação as autoridades coloniais egípcias e britânicas.

Em 1957 ela defendeu sua tese de doutorado e se tornou professora de literatura inglesa na universidade de ‘Ain Shams. Alguns anos mais tarde publicou seu primeiro romance, Al-Bab al-maftuh, traduzido ao inglês com o título Open the door (A porta aberta) (1960), que veio a se tornar um clássico da literatura egípcia e que narra diversos episódios da luta anti-colonial, e coletâneas de contos, uma peça e diversos romances.

No final dos anos 1960 Latifa retomou seu trabalho público e político, com destacada liderança acadêmica.  Liderou grupos como Egyptian Academy of Fine Arts (Academia Egícia de Belas Artes), chefiou o Departamento de Inglês da Universidade de ‘Ain Shams e fundou o Comitê de Defesa da Cultura Nacional. Ela publicou sua autobiografia em 1992, onde relatou suas experiências durante o tempo em que esteve presa.

Por seu ativismo, habilidade e influência política Latifa ganhou diversos prêmios, seu trabalho foi de grande importância não só para a literatura, mas também para cultura, o desenvolvimento social das mulheres e dos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

BENNETT, Sophie. “A life of one’s own”. In: ROBIN OSTLE, Ed de Moor; wild, Stefan (Eds). Writing the self: autobiographicaal writing in modern arabic literature.  Londres: Saqi Books, 1998, p. 283-291.  

MEHREZ, Samia. Egypt’s culture wars: politics and pratice. Londres; Nova Iorque: Routledge; Tayor & Francisc, 2008.

NASSER, Tahia Abdel. “Latifa al-Zayyat”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 237-238.

Leila Aboudela (1964)

Nascida no  Cairo,  de mãe egípcia e pai sudanês, mudou-se para Cartum aos seis anos de idade e lá viveu até 1987. Frequentou a Escola Americana de Cartum e um escola católica de freiras,  onde aprendeu inglês.  Mais tarde, estudou na Universidade de Cartum , graduando-se em 1985 em Economia e depois realizou mestrado em Estatística pela London School of Economics (Escola de Economia de Londres).

Em 1990, Aboulela mudou-se para Aberdeen com marido e filhos, quando trabalhou como professora no Aberdeen College e mais tarde como assistente de pesquisa na Universidade de Aberdeen.

Ela é muçulmana devota e seu trabalho ficcional envolve o papel da fé na vida dos seus personagens. Foi na Grã-Bretanha, onde ela se sentiu alienada, que começou a usar o hijab (véu) porque queria demonstrar publicamente a sua fé. Entre 2000 e 2012, viveu em Jacarta, Dubai, Abu Dhabi e Doha . Ela é muçulmana devota e sua fé inspira muito de seu trabalho como escritora.

Seu primeiro romance The translator (O tradutor) (1999), foi indicado ao Prêmio Literário Orange (2000) e ao IMPAC Dublin Literary Award (2001), sendo pré-selecionado para o Saltire Scottish Book Prize (2000).  Em 2002 ele foi adaptado para uma série de rádio e transmitido pela BBC Radio 4. Também foi traduzido para o espanhol, alemão, holandês e árabe, e considerado o “livro do ano” pelo New York Times (2006).

O conto The Museum (O museu) (2001) venceu o prêmio inaugural Caine de escrita africana (2000). É considerada a narrativa mais marcada por um posicionamento político de Aboulela, com ênfase aos discursos coloniais na África. Esta obra também foi adaptada e transmitida em programa de rádio pela BBC Radio 4. Outras peças para rádio incluem The Mystic life (A vida mística) (2003) e o drama histórico The Lion of Chechnya (O leão da Chechênia) (2005).

O seu segundo romance, Minaret (Minarete) (2005) foi apreciado pela crítica inglesa, e em The Kindness of Enemies (A bondade dos inimigos) (2015) ela retratou na ficção a vida do imã Shamil, que uniu as tribos do Cáucaso para lutar contra a expansão imperial russa. Ela também é autora de contos, publicados em diversas coletâneas, e é colaboradora da antologia New Daughters of Africa (Novas filhas da África) (2019), editada por Margaret Busby.

Sua obra de ficção de Aboulela põe em evidência a marginalização da mulheres norte-africanas e muçulmanas na Grã Bretanha e as causas do patriarcado Ocidental e Islâmico, bem como a má compreensão das diferenças culturais e religiosas. Ela afirma o caráter transnacional do Islã, ressaltando o papel da identidade africana, e, mais particularmente, sudanesa, na constituição da memória e identidade de seus/suas personagens ficcionais.

BIBLIOGRAFIA

HASSAN, Waïl S. Leila Aboulela and the Ideology of muslim immigrant fiction. Novel: a forum on fiction, v. 41, n. 2/3, pp. 298–319, 2008.

ABBAS, Sadia. Leila Aboulela, religion, and the challenge of the novel. Contemporary Literature, v. 52, n. 3, p. 430-461, 2011.

STEINER, Tina. “Leila Aboudela’.   In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 48-49.

Leila Sebbar (1941)

Escritora e crítica cultural, nasceu em Aflou, na Argélia, filha de mãe francesa e de pai argelino, ambos(as) professores(as) durante o período colonial e a guerra de libertação nacional. Esta situação ambígua é parte do projeto intelectual geral que dá sentido à sua obra, que pretende em última instância responder à pergunta: quais as implicações da descendência heterossexual, de lidar com híbridos ou estar entre culturas?

De 1979 a 1981 Leila foi uma importante colaboradora da revista Immigration and the Third World: Whitout Borders (Imigração e Terceiro Mundo: Sem Fronteiras). Sua coluna “Memória da Imigração” era popular entre os imigrantes. Com seu amplo conhecimento sobre identidade cultural e imigração, ela passou a ser frequentemente consultada para falar ou escrever sobre esses tópicos. É uma das debatedoras mais articuladas sobre os dilemas de culturas minoritárias e literaturas franco-magrebinas. Quase todos os seus livros discutem o passado colonial bem como a juventude marginalizada dos antigos territórios coloniais da França.

Leila relê meticulosamente o discurso oriental reinventando a linguagem e restituindo agência a um sujeito pós-colonial para resistir às categorias fixas criadas a partir do século XVIII. Isso é claramente visto em sua conhecida e muito celebrada trilogia em que ela repensa o orientalismo: Shérazade: 17 ans, brune, frisée e les yeux verts (Sherazade: 17 anos, loira, cabelos encaracolados e olhos verdes (1984); Les carnets de Shérazade (Cadernos de Sherazade) (1985) e Le fou de Shérazade (O louco de Sherazade) (1991).  A personagem Sherazade, como sujeito pós-colonial, revisita pinturas orientalistas, desconstruindo-as e redefinindo-se através de um estudo detalhado de sua história e memória cultural, bem como desenvolve as múltiplas conexões e ressonâncias entre elas para criar uma nova imagem de outra Sherazade.

Seu trabalho trata das estratégias da memória social e os dilemas da identidade em conexão com a herança colonial, tema desenvolvido no Parle mon fils, parle à ta mere (Fale me filho, fale com sua mãe) (1984), onde ela explora a frustração de duas gerações que não compartilham uma língua comum. Outra linha mestra de seu pensamento diz respeito ao exílio, que ela concebe como um espaço de criação, produção e reinvenção. Em seu romance Le Chinois vert d’Afrique (O chinês verde da África) (1984), o protagonista, chamado Mohamed Mehmet ou “Momo”, é originário da Argélia e tem uma avó vietnamita, o que lhe permite explorar a identidade em situações de hibridismo cultural.

Sebbar editou três grandes coletâneas de histórias sobre a infância, o colonialismo e a condição pós-colonial. Estas coletâneas representam o seu desejo de descobrir memórias históricas e culturais. São elas: Une enfance d’ailleurs avec Nancy Huston (Uma Infância estrangeira com Nancy Huston (1993), Une enfance algérienne (Uma Infância Argelina (1997), e Une enfance outremer (Uma Infância além-mar) (2001). Nesses livros, a produção literária se concentra na tensão do que significa pertencer a diferentes espaços, examinando tecnologias íntimas de exclusão, nas quais os sujeitos pós-coloniais estão constantemente recuperando suas identidades.

BIBLIOGRAFIA

EKOTTO, Frieda. “Leila Sebbar”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 313-314.

MORTIMER, Mildred P. Coming home: exile and the memory in Sebbar’s Le silence des rives. Research inAfrican Literature, v. 30, n. 3, p.125-134, 1999.

NUNLEY, Charles. From Shéherazade to Sherazade: self-fashioning in the Works of Leila Shebar. In:  BISHOP, Michael (Ed.). Thirty voices in the feminine. Amsterdam: Ed. Rodopi, 1996, p. 238-248.

Lina Magaia (1945-2011)

Lina Júlio Francisco Magaia foi escritora moçambicana de contos e romances, jornalista e parlamentar. Nasceu em Maputo, em uma família de classe média alta. Neta de um rei do povo Marraquen, teve acesso diferenciado à educação, tendo estudado em boas escolas devido a posição social de seu pai. Já aos dezessete anos, como secundarista no Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique ela escrevia artigos e crônicas para jornais denunciando a situação colonial, em um momento em que fazer isso era extremamente perigoso.

Seus escritos eram publicados em dois jornais de alta circulação, como O Brado Africano e A Voz Africana, cujos diretores foram presos em 1965. Foi então que ela começou a fazer panfletagem  e que decidiu participar da luta armada na Tanzânia, e foi presa durante três meses por conta de seu ativismo. Em 1967 ganhou uma bolsa de estudos para estudar Economia em Lisboa. Lá ela teve um filho, e apenas retornou à África em 1974,  na Tanzânia. Lá obteve treinamento militar e participou do pelotão feminino da FRELIMO, que inclusive esteve entre as tropas que tomaram Moçambique e declararam sua independência.

No período inicial da independência, Lina Magaia se tornou uma figura conhecida e respeitada em Moçambique, comprometida com o projeto de modernização Marxista-Leninista. Atuou no campo do desenvolvimento e reforma agrária e mais tarde assumiu a função de Ministra da Agricultura. No mesmo período continuou escrevendo colunas para jornais e também publicou livros. É um exemplo de guerrilheira comprometida com a igualdade.

Como escritora, em seu primeiro romance, Dumba nengue: histórias trágicas do banditismo (1987), retrata o cenário de conflito entre Frelimo e a Renamo, e se baseia em contos que ela tinha publicado na revista Tempo. No romance seguinte,  Duplo massacre em Moçambique: histórias trágicas do banditismo (1989), o foco continua a ser as atrocidades da guerra, em particular o massacre de 424 civis por tropas da Renamo na cidade de Homoine em 1987. Escreveu ainda Dehleta: pulos na vida (1994) e A cobra de olhos verdes (1997).  

BIBLIOGRAFIA

GONÇALVES, Luis. “Lina Magaia”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 25-26.

OWEN, Hilary. Mother Africa, father Marx: woman’s writing of Mozambique, 1948-2002. Lewisburg: Bucknell University Press, 2007.

SILVA, Tereza Cruz e. Identity and political consciousness in Southern Mozambique, 1930-1974: two presbiterian biographies. Journal of Southern African Studies, v. 24, n. 1, p. 223-236, 1998.


Maaza Mengiste (1974)

Nascida em Adis Abeba, capital da Etiópia, deixou o país aos quatro anos de idade quando sua família fugiu da Revolução Etíope. Ela passou o resto de sua infância na Nigéria , Quênia e Estados Unidos. Realizou os estudos de pós-graduação na Itália e concluiu um  mestrado em escrita criativa na  Universidade de Nova York.

Maaza Mengiste é escritora de ficção e não-ficção, e seus trabalhos tratam de questões relativas aos problemas sociais que envolvem as migrações, a situação dos imigrantes subsaarianos na Europa e os problemas políticos de seu país. Seu primeiro romance, Beneath the lion’s gaze (Sob o olhar do leão), retrata a história de uma família vivendo os anos tumultuados e sangrentos da revolução socialista etíope.

Como docente ela atuou como professora convidada em diferentes programas de pós-graduação, em cursos de escrita criativa, no Queens College, Universidade da Cidade de Nova York e no Lewis Center for the Arts da Universidade de Princeton. Ela participa de organizações de defesa dos direitos humanos, sendo filiada ao Young Center for Immigrant Child Rights.

BIBLIOGRAFIA

ASFAW, Zerihun. Stories of women in the novels of selected ethiopian women writers. Ethiopian Journal of Languages and Literature,, v. 12, n. 2,  p. 115-139, 2012.

MENGISTE, Maaza. Creative writing as translation. Callaloo, v. 35 n. 4, p. 939-943, 2012.

Margaret Atieno Ogola (1958)

Nasceu em Nairóbi, capital do Quênia, onde estudou na Thompson’s Falls High School e na Alliance Girls High School. Em 1984 obteve um diploma de medicina e enfermagem na Universidade de Nairobi e, em 1990, obteve um mestrado em medicina em pediatria na mesma universidade. Alguns anos mais tarde realizou estudos de pós-graduação em Planejamento e Direção de Projetos de Desenvolvimento na Universidade Católica da África Oriental (2004).

De 2002 a 2004 Margaret coordenou uma filial regional da Hope for African Children Initiative, uma associação de várias ONGs internacionais destinada a prestar apoio a mulheres e crianças soropositivas, de modo a evitar a propagação da epidemia. Atualmente trabalha como pediatra em Nairóbi e é diretora do Cottolengo Hospice, um lar adotivo para crianças órfãs soropositivas; vice-presidente de aconselhamento para a vida familiar (Quênia); e se envolve em projetos de promoção da situação das mulheres africanas.

Margaret Atieno também é escritora, e em seu romance The River and the source (O rio e a fonte) (1994), retrata quatro gerações de uma família queniana em uma sociedade em rápido processo de mudança.  Outras obras de sua autoria são: Cardinal Otunga: a gift grace com Margaret Roche  (Cardeal Otunga: um presente de graça com Margaret Roche) (1999), I sweet by Apollo (Juro por Apolo) (2002) e Place of destiny (Lugar de destino) (2005).

BIBLIOGRAFIA

ODHIAMBO, Tom Odhiambo.  Writing alternative womanhood in Kenya in Margaret Ogola’s The River and the source,  African Identities, v. 4, n. 2, p. 235-250, 2006.

SIRINGI, Samuel. African initiative launched to tackle HIV/AIDS in children. The Lancet, 05/01/2002: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(02)07255-0

Marguerite Taos-Amrouche (1913-1976)

Seu nome de nascimento era Marie-Louise Taos-Amrouche. Escritora de origem argelina e cantora de música folclórica berbere. Nasceu em Túnis, Pertencia a uma família cristã da região argelina de Kabylia emigrada na Tunísia devido à sua convicção religiosa.   Frequentou o ensino fundamental e médio na própria capital da Tunísia, e a seguir foi para a França, onde estudou na École Normale em Sévres (1935).

Sua mãe, Fadhma Ath Mansur Amrouche (1882-1967), era uma grande cantora e exerceu duradoura influência sobre ela, assim como o irmão mais velho, Jean Amrouch, conhecido escritor, poeta e jornalista francófono argelino. Segundo pesquisadoras recentes, este poderia ter contribuído para eclipsar o nome da irmã ao não dar crédito também a ela no trabalho de recolha e publicação da tradições de Kabylia que ambos realizaram, e que ele publicou em nome próprio no ano de 1939.

Considerada a primeira escritora moderna argelina, publicou o romance Le jacinthe Noir (O jacinto negro) (1947), e décadas mais tarde escreveu La rue des tambourins (A rua dos tamborins) (1969), L’amant imaginaire (O amante imaginário) (1975), e o romance póstumo Solitude ma mère (Solidão minha mãe) (1995). Nessas obras explora temas relacionados ao exílio, a alienação colonial,  e à identidade, ressaltando os sentimentos de separação, perda e um esforço incansável para encontrar paz e se reconectar com os grupos de origem.

Sua obra mais importante Le grain magique (O grão mágico) (1966), é uma compilação de histórias e poemas de Kabyle recolhidos da narração de sua mãe. Como cantora, gravou as tradições musicais populares de seu povo, nos álbuns Chants berbères de Kabylie (Cantos berberes de Cabilia) (1967), Chants de processions, méditations et danses sacrées berberes (Cantos de procissões, meditações e danças saradas berberes) (1967), entre outros.

BIBLIOGRAFIA

MALTI, Nathalie. Voix, mémoire et écriture: transmission de la mémoire et identité culturelle dans l’oeuvre de Fadhma et Taos Amrouche. Doctoral Dissertations, Louisiana State University and Agricultural and Mechanical College,  2006:  https://digitalcommons.lsu.edu/gradschool_dissertations/3839

MWANGI, Evan. “Marguerite Taos Amrouche”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 224-225.

SANTOS, José. Mythe des origines et nostalgie chez Taos Amrouche. The French Review, v. 77, n. 2, p. 326–339, 2003.

María Nsué Angue (1945-2017)

Nascida em Ebebeyin, à beira do Rio Muni, na Guiné Equatorial, pertencia a uma família de origem étnica fang de Bidjabidján.  Foi confida a uma família missionária que a levou para a  Espanha, quando tinha oito anos. Em Madrid,  estudou literatura, música e jornalismo, e deu início à carreira como escritora.

Em sua obra, onde subsistem elementos autobiográficos, ela ressalta o impacto do domínio colonial espanhol que persistiu em seu país até 1968 e que depois caiu sob uma ditadura militar. Ela afirma ter nascido na prisão, em 1948, na cidade de Bata, onde seus pais foram confinados por resistir à autoridade do regime colonial. Seu pai, José Nsue Angue Osá, foi um líder anticolonial e pró-independência. 

Seu romance Ekomo (1985) é o primeiro de autoria de uma mulher da Guiné Equatorial. Trata da história de uma mulher de etnia fang que após a morte do marido passa por uma transformação pessoal e procura romper os tabus da sociedade africana.

BIBLIOGRAFIA

LIFSHEY, Adam. Ideations of Collective Memory in Hispanophone Africa: The Case of María Nsue Angüe’s “Ekomo”. Hispanic Journal, v. 24, n. 102, p. 173-185, 2003.

MESTER, Anna. Repensar Ekomo de María Nsué Angüe: um desafion ecuatoguineano a la hispanidad. Tesis (Bachelor of Arts), Departamento de Linguas Románicas, Mount Holyoke College, 2009.

VIZCAYA, Benita. “María Nsue Angue”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 499-500.

Nadine Gordimer (1923-2014)

Romancista, ensaísta e contista.  Nasceu na cidade de Spings – atualmente Gauteng, cidade mineira na região oriental de Johanesburgo, no Transvaal, África do Sul.  Era filha de emigrantes judeus, o pai originário da Lituânia e a mãe, da Inglaterra. Estudou na Universidade de Witswatersrand, em Johanesburgo, e viajou para várias partes da África, Europa e América do Norte. Casou duas vezes e teve uma filha e um filho.

 Nos anos do regime do Apartheid, Nadine Gordimer esteve envolvida em uma organização político-literária de base, tendo sido membro fundadora e patrocinadora do Congresso de Escritores Sul-Africanos (COSAW) por vários anos. Foi abertamente uma defensora do Congresso Nacional Africano (ANC), mesmo mesmo durante os anos de clandestinidade.

Nadine começou a escrever aos quinze anos pequenas histórias que publicou com o nome de Face to Face (Face a face) dez anos mais tarde, em 1949, na revista liberal Forum, de Johanesburgo. É autora de mais de trinta livros, entre os quais romances, ensaios e crônicas em que retratou a deterioração social que afetou a África do Sul durante o Apartheid. Desde o seu romance de estreia, The Lying Days (Os dias da mentira) (1953), até The Conservationist (O conservador) (1974) e July’s people (A Gente de July) (1981), ela dedicou-se a abordar as difíceis escolhas morais surgidas numa sociedade marcada pela segregação racial.

Nos anos 1970, descreveu a si mesma como “uma branca sul-africana radical”. Na arena cultural, fundou o Congresso Sul-Africano de Escritores com o objetivo de tornar a leitura e a escrita acessível em comunidades negras. Depois das eleições democráticas de 1994, escreveu None to accompany me (Ninguém para me acompanhar) (1994) e The house gum (A arma da casa) (1998), romances que retratavam as cicatrizes deixadas pelo do regime do Apartheid

Alguns dos muitos prêmios que recebeu foram: O Booker Prizer (1974), o Grand Aigle d’Or (1975) o Prêmio Malaparte (1985) e o Prêmio Nobel de Literatura (1991) – tendo sido a primeira mulher do continente Africano a receber um. Ela é membro da Royal Society of Literature e membro honorário da American Academy of Arts and Sciences e da American Academy and Institute of Arts and Letters. Na África do Sul, Nelson Mandela a concedeu a Ordem da Cruz do Sul.

BIBLIOGRAFIA

BAZIN, Nancy Topping;  SEYMOUR, Marilyn Dallman  (Eds.). Conversations with Nadine Godimer. Jackson: University Press of Mississippi, 1990.

CLINGMAN, Stephen. “Nadine Gordimer”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 488-491.

ETTIN, Andrew. Betrayals of the body politic: the literary commitments of Nadine Gordimer. Charlottesville; Londres: University Press of Carolina, 1993.=

KING, Bruce (Ed.).. The later fiction of Nadine Gordimer. New York: The MacMillan Press, 1993.

OLIPHANT, Andries Walter (Ed.).  A writing life: celebrating Nadine Gordimer. London: Viking, 1999.

Nafissatou Niang Diallo (1941-1982)

Nascida em Dakar, Senegal, frequentou a escola primária Champ de Course, o Collège Moderne e o Liceu Van Vollenhoven, e aos dezoito anos matriculou-se em uma escola para parteiras.

Aos vinte e três anos, já casada com Mambaye Diallo, deixou o país para estudar na França, tendo vivido em Toulouse. Trabalhou como parteira no Centre de Protection Maternelle et Infantile. Em sua autobiografia, De Tilène au Plateau: une enfance dakaroise (De Tilène au Plateau, uma infância dakarense) (1975), retratou o crescimento de uma criança em meio urbano na África ocidental.

É autora de três romances, em que descreve aspectos da vida cotidiana da moderna sociedade senegalesa. São eles:  Le fort maudit (O forte maldito) (1980); Awa la petite marchande (Awa, a pequena vendedora) (1981) e La princesse de Tiali (A princesa de Tiali) (1987). Nafissatou  atuava em serviços sociais como parteira e como diretora de um centro de saúde e maternidade infantil. Foi mãe de seis filhos.

BIBLIOGRAFIA

COLE, Jonathan. Engendering health: pronatalist politics  and the history of nursing and midwifery in colonial Senegal,  1914-1967. In: D’ANTONIO, Patricia et alii (Eds). Routledge handbook on the global history of nursing. Nova Iorque: Routledge, 2012, p.  114-130.

Nawal el Saadawi (1931)

Feminista egípcia, escritora,  médica e ativista política.  Nasceu na aldeia de Kafr Tahla, perto do Cairo, de uma família de altos servidores do Estado. Estudou em escola para meninas de Alexandria e depois no distrito de Menouf, no Delta do Nilo, onde frequentou uma escola inglesa, embora a família demonstrasse sua posição anti-colonial. Completou os estudos na escola secundária para meninas Nabeweya Moussa e tornou-se pensionista na Escola Secundária Helwan para Meninas, onde se especializou em Ciências (1945).

Mudando-se com a família para Gizé, Nawal estudou como bolsista na renomada Escola de Medicina Kasr Alainy da Universidade do Cairo (1949-1954) período em que começou a redigir os seus primeiros escritos para o teatro, para revistas estudantis  e também ingressou na luta anti-colonial, envolvendo-se com o líder estudantil revolucionário Ahmed Helmy (1951), com quem teve uma filha, Mona.  

Após a formatura, trabalhou como médica residente no Hospital Universitário de Kasr Alainy, em centros de saúde e em 1958 passou a integrar o Departamento de Doenças Torácicas no Ministério da Saúde do Cairo e Gizé. Depois montou uma clínica e envolveu-se em duas relações conjugais, até o terceiro casamento, com Sherif Hetata (1964). Enquanto isso, realizou Mestrado em saúde pública na Universidade de Columbia, serviu como secretária-geral adjunto da Associação Médica do Egito e foi editora de sua revista (1968-1974).

Em 1972, os comentários de Nawal sobre as dimensões políticas e econômicas da situação das mulheres em seu primeiro trabalho de não-ficção, Woman and sex (A mulher e o sexo) (1969), levaram a sua demissão dos cargos públicos que ocupava. Ela deu continuidade às pesquisas sobre mulheres e neurose na Universidade Aim Shams, no Cairo, que inspirou seu romance mais conhecido, Woman at point zero (Mulher ao ponto zero) (1973)  sobre uma prostituta condenada por assassinato. Deste envolvimento com a literatura veio o seu vínculo com a Egyptian Women Writers Association (Associação de Mulheres Escritoras Egípcias) (1971), que ajudou a fundar.  

No final de 1970 ela se tornou chefe do Programa das Mulheres das Nações Unidas na África e ganhou renome internacional como feminista com a publicação de The hidden face of Eve (A face oculta de Eva) (1977), em que denuncia a situação das mulheres mundo árabe com um contundente relato sobre a prática da mutilação genital da qual ela própria foi vítima aos seis anos. Em 1981, foi presa por criticar abertamente o regime do presidente Anuar Sadat, sendo libertada após o assassinato dele em 1981. No ano seguinte, fundou a Associação de Mulheres Solidárias Árabes, destinada a promover a participação ativa das mulheres árabes em todas as áreas da vida social. Em 1992, foi colocada sob  “proteção” do governo contra sua vontade, e saiu do país.  

Quando voltou ao Cairo, deu continuidade à luta contra o conservadorismo egípcio, sendo acusada de insultar o islã e ameaçada de prisão em 2001, 2007 e 2008. Uma de suas peças teatrais, God resigns at the summit meetings (Deus renuncia nas reuniões de cúpula) (2006) levou a que ela fosse julgada por apostasia e heresia pelas altas autoridades religiosas da Universidade de Al Azhar (2008), e a obra  continua proibida no país. 

El Saadawi sempre retorna ao Egito e não se furta a debater os assuntos mais delicados. Seus muitos romances, memórias e ensaios lidam com a repressão política e econômica, o fanatismo religioso e a opressão das mulheres e práticas misóginas, como a excisão genital feminina. Hoje, ela se vê principalmente como romancista, mas permanece politicamente ativa, como quando usou sua candidatura nas eleições presidenciais de 2005 para expor a superficialidade da democracia do Egito.  Em 2011, se juntou às manifestações contra o governo do presidente Hosni Mubarak na Praça Tahrir, no Cairo.

Ao longo dos anos, seus livros se tornaram disponíveis em vários idiomas, e ela recebeu vários prêmios e doutorados honorários em reconhecimento ao seu ativismo e sua obra. Tem sido convidada como professora visitante em várias instituições acadêmicas nos Estados Unidos e na Europa e é uma conferencista regular e apaixonada em eventos públicos e conferências acadêmicas em todo o mundo.

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. Nawal El Saadawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 293-295.

EMMENYONU, Ernest N.; MAUREEN, N.. Emerging critical  perspectives on Nawal el Sadawi. Trenton; Asmara: Africa World Press, 2010.

LUZ, Flávia Abud. Entre memória e ativismo político: contribuições de Nawal el Saadawi para o feminismo egípcio e transnacional. Malala (USP), v. 8, n. 20, 2020: https://www.revistas.usp.br/malala/article/view/161802

SAADAWI, Nawal. A daughter of Isis: the autobiography of Nawal el Saadawi. Londres:  Zed Books, 2009.

Olive Schreiner (1855–1920)

Seu nome completo era Olive Emilie Albertina Schreiner. Pertencente ao grupo dos(as) boeres, os(as) colonos(as) brancos(as) durante a formação da África do Sul.  Nasceu no Lesoto, filha de um missionário germânico e de mãe inglesa, e era irmã de W. P. Schreiner, que foi o primeiro ministro da Colônia do Cabo de 1899-1902. 

Embora não tenha tido acesso à educação formal, aprendeu a ler com a mãe. Viveu na Inglaterra no período de 1874-1881, quando pretendia estudar medicina,  mas ganhou a vida como governanta. Foi quando escreveu The history of a african farm (A história de uma fazenda Africana) (1883), que alcançou grande sucesso na Europa e na América e é considerado o primeiro romance sul-africano. Retrata as circunstâncias da vida cotidiana de famílias rurais, rompendo com certos pontos de vista rígidos da era vitoriana. Tem como protagonista uma garota de uma fazenda situada no meio da savana que luta por sua independência pessoal.

Após o período das Guerras dos Boêres, quando ela criticou abertamente a política inglesa e as atividades do governador inglês Cecil Rhodes, Olive assumiu abertamente a causa das mulheres. No livro Woman and labour (Mulher e trabalho) (1911)  ela denunciou abertamente o “parasitismo sexual” dos homens, motivo pelo qual a obra se tornou referência para o movimento feminista radical sul-africano.

Casada desde 1894 com o político Samuel Cronwright (1863-1936), ela passou os sete últimos anos de vida na Europa, onde trabalhou no romance que nunca acabou de finalizar, publicado postumamente com o título de  From man to man (De Homem a Homem) (1926).

BIBLIOGRAFIA

BERKMAN, J.  A.. The healing imagination of Olive Schreiner: beyond south african colonialism. Boston: University of Massachusetts Press, 1993.

BURDETT. Carolyn. Olive Schreiner and the progress of feminism: evolution, gender and empire. New York: Palgrave Macmillan, 2001.

HEILMAN, Ann. New woman strategies: Sarah Grand, Olive Schreiner, and Mona Caird. Manchester; New York: Manchester University Press, 2004.

SAMUELSON, Meg. “Olive Albertina Schreiner”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 305-306.

Promise Ogochukwu Okekwe (1970)

Nascida com o nome de Promise Ogochukwu Onwudiwe, em Enugu, Nigéria. O pai, P. D. I.  Onwudiwe, trabalhou no Ministério da Educação e a mãe, Janet, era professora. Em 1989 formou-se em Inglês e Estudos Literários na Universidade de Calabar (1989), e depois concluiu o mestrado em Comunicação e Artes Linguísticas (1992) e o doutorado (1997) na Universidade de Ibadan.

Entre os anos de 1989 e 1991, Promise trabalhou na Comissão de Iluminação Pública da Federal Road Safety Comission, onde desenvolvera trabalhos educativos sobre segurança no trânsito, prevenção à acidentes, além de ser responsável pelas relações públicas do órgão. Depois deu início à sua carreira acadêmica, lecionando entre os anos de 1995 e 1998 no Yaba College of Technology (Colégio de Tecnologia de Yaba) e em seguida no  The Polytechnic Ibadan (Politécnico de Ibadan), onde ensinou comunicação, redação, literatura africana , Inglês  e relações públicas.

Envolvendo-se em atividades muito variadas, no final da década de 1990 ela atuou durante algum tempo em corporações bancárias, nas áreas de informação, inovação, marketing e comunicação.  Paralelamente, aproximou-se de autoras consagradas como Flora Nwapa e Buchi Emecheta, e fundou a Oracle Books Ltd, voltada para a promoção de jovens escritoras talentosas, e em 2005 criou a Organização Não Governamental The Lumina Foundation, voltada para a promoção, com suporte técnico e pedagógico, da excelência intelectual, da criatividade  e do desenvolvimento.

 Como escritora Promise tem publicações nos mais diversos gêneros literários, com quatorze romances, seis coleções de poesia, duas coleções de contos, quatro peças teatrais, duas obras motivacionais, além de ensaios e literatura infanto-juvenil.  Por vezes ela assina sob o pseudônimo Ada Iloekunanwa. Algumas obras são: In the middle of the night (No meio da noite) (2005), Soul-Journey into the Night (Viagem da alma à noite) (1992), Marry me to the rain god  (Case-me com o deus da chuva) (1993), Rubble (2000), The Street Beggars (Os mendingos da rua) (2001). Com destaque em várias áreas da criação e do conhecimento, na esfera acadêmica, administrativa, educativa, como editora, romancista e dramaturga, Okekwe exerce notável influência na literatura contemporânea nigeriana.

BIBLIOGRAFIA

EMENYONU, Ernest. “Promise Ogochukwu Okekwe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 14-15.

IWUCHUKWU , Onyeka. Nigeria —The Challenge of (and for) the Female Playwright. Critical Stages / Scenes Critiques, n. 15, 2017: http://www.critical-stages.org/15/nigeria-the-challenge-of-and-for-the-female-playwright/

OKOYE, Chikwuma. Posting the agenda in african women’s writing: the postcolonial condition in Promise Okekwe’s novels. In: AZODO, Ada Uzoamaka; EKE, Ngozi (Eds.). Gender and sexuality in african literature and film. Trenton:  Africa World Press, 2007, p. 55-71.

Rokhaya Aminata Maïga Ka (1940–2005)

Figura pública senegalesa, educadora, escritora de ficção e ativista pelos direitos das mulheres.  Nasceu na cidade de Saint-Louis durante o período colonial francês, de uma família muçulmana cujo pai era do grupo étnico Songai e a mãe, do grupo étnico Fula.

Obteve o Mestrado em Língua Inglesa e Especialização em Literatura e Civilização Inglesa e Americana, ambos pela Universidade Cheikh Anta Diop. Foi professora de inglês no Lycée Malick Sy de Thiès e no Lycée Van Vollenhoven de Dakar, atual Lycée Lamine Gueye.

Em sua atuação pública, trabalhou no Escritório Regional da UNESCO, em comissão para a Alimentação e Agricultura do Programa Alimentar Mundial (1978). Militante do Partido Socialista Senegalês e engajada em causas feministas, integrou a Secretaria de Estado da Condição Feminina, a Federação das Associações Femininas do Senegal e a Associação Senegalesa das Mulheres Graduadas, comprometendo-se com organizações como o Clube Internacional Soroptmista de Thiès e o Conselho Senegalês das Mulheres. Ela também foi membro de comitês científicos do Museu das Mulheres “Henriette Bathily”.

Como autora, suas principais obras são La voie du salut suivi de le miroir de la vie (O Caminho para a salvação seguido do espelho da vida) (1985), En votre nom et au mien (Em seu nome e no meu) (1989), Brisures de vies (Fragmentos de Vidas) (1998).

Casou-se duas vezes e teve três filhos. Recebeu títulos e homenagens, como o de Cavaleira da Ordem Nacional do Leão da República do Senegal e Cavaleira da Ordem das Palmas Acadêmicas pelo Ministério da Educação do Senegal.

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. “Rokhaya Aminata Maiga Ka”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 239-240.

HERZBERGER-FOFANA, Pierrette. Littérature féminine francophone d’Afrique Noire: suivi d’un dictionnaire des romancières. Paris: L’Harmattan, 2000.

KIBA, Simon. Femme de grande culture, Aminata Maïga Ka dénonce l’excision et le pouvoir de l’argent”. Amina, n. 327, p. 22-23, 1997.

Sindiwe Magona (1943)

Romancista sul-africana do grupo Xhosa, poetisa, dramaturga, contadora de histórias, atriz e palestrante motivacional, nascida em Gungululu, uma aldeia em Tsolo, na antiga região de Transkei, na atual Província Oriental do Cabo. Formada em pedagogia pela Faculdade de Treinamento de Professores de St. Matthews (1961), graduada na Faculdade de Damelin (1981) e Mestra pela Universidade de Columbia (1983).

Atuou junto à Organização das Nações Unidas – ONU no período de 1984 a 2003, principalmente no Departamento de Informação Pública, na seção de Programas de Rádio Anti-Apartheid.  Sua produção literária compreende uma autobiografia, coleções de contos, romances, peças de teatro e mais de 100 livros infantis e para alfabetização, muitos dos quais publicados nos onze idiomas oficiais sul-africanos.

Sua experiência de vida permitiu que ela abordasse questões relativas às circunstâncias que as mulheres enfrentavam, como a necessidade de deixarem suas casas e filhos em busca de melhores oportunidades e as condições miseráveis da população negra nas periferias das grandes cidades. Parte da sua obra dedica-se à vida cotidiana dos negros. Em contraste com as abordagens de outras autoras sul-africanas contemporâneas, ela lançou o desafio à dominação de gênero dentro da própria comunidade negra.

Seu feminismo se diferencia do das mulheres brancas e ela questiona dados da vida negra produzidos e filtrados por feministas brancas, além de confrontar o privilégio da escrita sobre a oralidade. Entre suas obras estão To My Children (Para meu filho) (1994), Mother to Mother (De mãe pra mãe) (1998), Beauty’s Gift (Presente de beleza) (2008) e Awam Ngqo (2009).

Sindiwe recebeu diversos prêmios pelo seu trabalho, como um doutorado honorário pela Faculdade Hartwick, em Nova York (1993), o Prêmio Heróis Xhosa (1997) e a Fita Branca pelo grupo Women Demand Dignity, em virtude do seu romance sobre os desafios das mulheres sul-africanas na sua luta contra o HIV/AIDS (2008).

BIBLIOGRAFIA

ATTWELL, David; HARLOW, Barbara. Interview with Sindiwe Magona. Modern Fiction Studies, v. 46, n. 1, p. 282-295, 2000.

KOYANA, Siphokazi.  Sindiwe Magona: the first decade. Scottsville: Universidade de KwaZulu-Natal Press, 2004.

KOYANA, Siphokazi. “Sindiwe Magona”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 32-33.

Tsitsi Dangarembga (1959)

Romancista, roteirista, dramaturga, consultora e diretora de cinema do Zimbábue. Nasceu em Mutoko, na então Rodésia do Sul  colonial, atual Zimbábue. Aos dois anos de idade mudou-se com os pais para a Inglaterra, onde frequentou a escola primária. Realizou o secundário em escola missionária localizada em Mutare. Na juventude, começou a frequentar o curso de Medicina na Inglaterra (1977) e o curso de Psicologia  na Universidade do Zimbábue, período em que teve início o seu envolvimento com teatro, escrevendo e encenando. 

Foi a primeira mulher negra do Zimbábue a  publicar um romance escrito em inglês, Nervous Conditions (Condições nervosas) (1988), que lhe rendeu reconhecimento internacional. A obra foi escrita em 1985 e não recebeu atenção de uma editora do seu país por ser considerada excessivamente crítica aos padrões patriarcais do mundo cultural xona, em que a estória transcorre. Foi publicada pela  editora The Women Press, de Londres, e logo teve outras edições nos Estados Unidos e na Dinamarca. O núcleo narrativo é a trajetória de auto-conhecimento e emancipação de Tambu das dimensões cruzadas da opressão colonial, racial e patriarcal  que envolvem a mulher negra.

Dangarembga escreveu muitas peças e contribuiu significativamente para a indústria cinematográfica do Zimbábue. Seu trabalho com o grupo de teatro Zambuko, liderado por Robert McLaren, aproximou-a do teatro comunitário, e nesta linha ela escreveu as peças Katshaa e Mavambo.

Em 1983, escreveu e dirigiu The lost of the soil (Os perdidos da terra), seguida por She no longer weeps (Ela não chorará mais) – que foi apresentada pela primeira vez na Universidade do Zimbábue em 1984. A peça conta a história de Marta, que é confrontada pelas normas familiares patriarcais e opressivas e resiste por todos os meios, lutando por sua independência pessoal. Ela também escreveu o roteiro do filme Neria (1993), que dramatiza as experiências das viúvas no Zimbábue e sua disputa pelo direito à herança familiar.  Já em Everyone’s child (Fihos de todo mundo) (1996)o o enredo gira em torno da tragédia que se abate na vida de quatro crianças órfãs  em meio aos efeitos devastadores da AIDS.

Quanto ao seu filme, Kare Kare Zvako: Mother’s day (Kare Kare Svako: o dia das mães) (2004), baseia-se em um conto popular do seu país, e tem sido exibido em mostras internacionais de cinema.

O livro The book of note: a sequel to Nervous Conditions (Livro de notas: uma sequência de Condições Nervosas) (2006), dá continuidade à busca de Tambu durante a década de 1970,  após  a independência do país, quando persistem restrições de diversa natureza em relação às mulheres, e principalmente as de natureza racial em relação às mulheres negras, a quem é constantemente negada igualdade de oportunidade sobretudo de formação educacional.

BIBLIOGRAFIA

BERNDT, Katrin.  Female identity in contemporary zimbabwean fiction. Bayreuth: Bayreuth University Press, 2005.

MKWESHA-MANYONGA, Faith. “Tsitsi Dangaremba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 161-162.

SUGNER, Charles. Nervous conditions: Dangarembga’s  feminist reinvention of Fanon. In: OBIAMA,  Nnaemeka (Ed.). The politics of mothering: womanhood, identity and resistence of african literature. Nova Iorque: Routledge, 1997, p.  32-49.

WILEY, Ann Elizabeth.  Negotiating the postcolonial: emerging perspectives on Tsitsi Dangaremba. Trenton: African World Press, 2002.

Unity Dow (1959)

Jurista, ativista dos direitos das mulheres e dos direitos humanos e escritora. Nasceu em Mochudi, no distrito de Kgatleng, em Botsuana. Recebeu educação fundamental e secundário em Mochudi e cursou Direito na Universidade de Botsuana e depois na Universidade de Edimburgo (1983). Casou-se  em 1984 com Peter Nathan Dow, um cidadão americano, com quem criou três filhos(as).

Começou a atuar como advogada e logo depois assumiu o cargo de Promotora Criminal nas Câmaras Gerais de Attoney, em Gaborone. Depois voltou a advogar em prática privada, com foco nos direitos humanos e direitos das mulheres, fundando o programa Mulheres e Direito na África Austral  – WLSA, um grupo de pesquisa que se concentrou nos direitos das mulheres, além de participar de outras associações voltadas para os direitos de mulheres e crianças, como o Metlhaetsile Women’s Information Centre.

Unity Down ganhou renome nacional ao mover um processo contra o Estado de Botsuana que ficou conhecido como “Caso da Cidadania”, em que contestou com sucesso a constitucionalidade de certos dispositivos do Ato de Cidadania (1982) que a impedia, por ser mulher, de transferir sua cidadania para seus filhos. A lei botsuana até então estipulava que os filhos herdavam a cidadania apenas pelo lado paterno, em evidente discriminação contra as mulheres e fortalecimento de uma visão patriarcal da sociedade.

Durante o processo, ela contou com o apoio do grupo  Emang Basadi (Levantem-se Mulheres), organização fundada para pressionar pela reforma de leis discriminatórias como essa. O caso foi parar na Corte Suprema. Em duas decisões marcantes, a Suprema Corte e, posteriormente, a Corte de Apelação declararam as disposições da “Lei da Cidadania” inconstitucionais, e o direito das mulheres foi constitucionalmente reconhecido.

Em 1998, Dow quebrou outra barreira de gênero ao se tornar a primeira juíza do Supremo Tribunal de Botswana, e mais tarde foi nomeada para o Tribunal de Recurso como juíza interina. Por tudo isso, ela é vista na África e no mundo como uma personalidade marcante e influente em defesa da afirmação dos direitos das mulheres e dos direitos humanos.

No século XXI Unity Down deu início a uma carreira paralela como autora de diversos romances, entre os quais Far and beyon (2000), The screaming  of the innocent (o grito do inocente) (2001), Jugling truths (2003) e The heavens may fall (O céu pode cair) (2006), cujas protagonistas em geral são mulheres em busca de afirmação e reconhecimento.

BIBLIOGRAFIA

DOW, Unity (Ed).  The Citizenship Case: the Attorney General of the Republico f Botswana v. Unity Down. Gaborone: Lentswe la Lesedi, 1995.

GAGIANO, Annie. Entering the oppressor’s mind: a strategy of writing in Bessie Head’s A question of poweer, Yvonne Vera’s The stone virgins  nd Unity Down’s  The screaming  of the innocent. Journal of Commonwealth Literature, v. 41 n. 2, p. 43-60, 2006.

LEDERER, Mary; MACHARIA-MOKOBI, Elizabeth. “Unity Dow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 248-249.

Woizero Senedu Gebru (1916–2009)

Nascida em Menagesha, na Etiópia ocidental, pertencia a uma família aristocrática. Seu pai foi um escritor e ex-prefeito de Adis Abeba. Ela foi educada em uma escola missionária sueca em seu país e completou os estudos na Suiça, onde estudou na Université de Lausanne (1928). 

De retorno à Etiópia, Woizero foi professora na Escola de São Jorge em Adis Abeba, e começou a atuar como jornalista. No período da ocupação italiana (1935-1942), participou ativamente da resistência, recebendo inclusive formação em uma academia militar. Ela atuou durante a guerra na assistência médica aos combatentes. Foi presa pelos italianos em 1937, sendo mantida na prisão até 1939.

Nos anos 1940-1950 Senedu Gebru retomou a carreira como educadora, tendo atuado na direção da Escola Etege, em Adis Abeba, que era mantida pela Imperatriz Menen Asfaw e destinava-se exclusivamente a meninas, onde ela incentivou o desenvolvimento do teatro e da oratória pública. Paralelamente,  escreveu em língua amhara (amárico) uma coletânea de contos, músicas e poemas intitulada  YaLebbe Meshaf (Livro do Meu Coração) (1956), e diversas peças de teatro popular, como Keyekketit quenoch (Dias de fevereiro) (1956).

Também teve intensa participação na vida política, tendo sido a primeira mulher eleita ao Parlamento da Etiópia (1957), onde foi nomeada vice-presidente da Câmara dos Deputados. Atuou na Cruz Vermelha e foi secretária-geral do Ministério de Assuntos Sociais. Deixou o país em 1974, por ocasião da derrubada do governo de Haile Selassie, imperador da Etiópia (1930-1974). Retornou ao país alguns anos mais tardem, voltando a escrever peças teatrais e a colaborar na “coluna das mulheres” do jornal Addis Zemen.

BIBLIOGRAFIA

BIZUNEH, Belete. Women in ethiopian history: a bibliographic review. Northeast African Studies, v. 8, n. 3, p. 7–32, 2001.

BURGESS, Gemma. A hidden history: women’s activism in Ethiopia. Journal of International Women’s Studies, v. 14, n. 3, p. 96-107, 2013.

Yvonne Vera (1964–2005)

Romancista, ensaísta e contista zimbabweana, nasceu em Bulawayo, na época colonial chamada de Rodésia do Sul, filha de pais professores: Ericah Gwetai e Lambert Gwetai. Foi educada na Mzilikazi High School, em Bulawayo, e começou a carreira como professora de inglês. Casou-se com o canadense John José, em 1987. Na América do Norte, completou o curso de graduação na York University, em Toronto, e no ano de 1995 defendeu a tese de doutorado The prison of colonial space: narratives of resistence (A prisão do espaço colonial: narrativas da resistência).

Em 1997 retornou ao seu país, de 1997 a 2003 dirigiu a Zimbabwean National Gallery (Galeria Nacional do Zimbabwe), em Bulawayo, onde desenvolveu diversos projetos com artistas profissionais, jovens talentos e crianças em idade escolar. Neste período, editou a importante antologia de textos de escritoras africanas, intitulada Opening spaces: an anthology of contemporary african’s women’s writings (Abrindo espaços: uma antologia de escritoras africanas contemporâneas) (1999). 

Pertencente a geração de jovens escritoras africanas, Yvonne Vera foi autora de diversas obras de ficção, entre as quais a coleção de contos Why don’t you carve other animals? (Porque você não esculpe outros animais?) (1992), seguida de cinco romances, alguns deles ganhadores de prêmios internacionais: Nehanda (1993), Whitout a name (Sem nome) (1994), Under the tongue (Sob a língua) (1996), Butterfly burning (A queima da borboleta) (1998) e The stone virgins (As virgens de pedra) (2002).

Em sua prosa ela explorou os problemas decorrentes da herança colonial em seu país (como o Massacre de Matabeleland), desenvolveu biografias de mulheres fortes (Nehanda) e temas considerados tabus, como a violência sexual contra as mulheres.

Seus trabalhos foram publicados no Zimbabwe, Canadá e outros países, incluindo traduções em língua espanhola, italiana e sueca.  Faleceu vítima de meningite, relacionada à AIDS, no Canadá, onde procurou tratamento para a doença.

BIBLIOGRAFIA

HUNTER , Eva. Shaping of the struggle: an interview with Yvonne Vera. Current Writing, v. 10, n. 1, p. 75-86, 1998.

MUPONDE, Robeert; TARUVINGA, Mandivavarira (Eds). Sign and taboo: perspectives on the poetic fiction of Yvonne Vera. Harare: Weaver Press, 2003.

SHELDON, Katleen. “Yvonne Vera”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 121-122.

VERA, Yvonne (Ed). Opening spaces: an anthology of contemporary african’s women’s writings. Portsmouth: Heinemann, 1999.

Zaynab Amina Alkali (1950)

Escritora nigeriana e educadora. Nasceu na comunidade de Tura-Wazila do Estado de Bornu, Completou sua graduação na Universidade Bayero, em Kano, onde fez doutorado em literatura africana. Pertencente a uma família convertida ao cristianismo, ela própria adotou o islã durante a década de 1960. Em 1971, casou-se com Dr. Mohammed Nur Alkali, diretor-geral do Instituto Nigeriano de Política e Estudos Estratégicos, em Jos, Nigéria, com quem teve seis filhos.

Profissionalmente, foi diretora do Internato para meninas Shekara, em Kano, e trabalhou como professora assistente na Universidade Bayero, como professora sênior de Inglês e coordenadora de Inglês e estudos gerais nos estabelecimentos de Modibbo Adama College e Universidade de Maiduguri. Em 2009, assumiu a reitoria da Faculdade de Artes em Nasarawa State University, onde antes lecionara Escrita Criativa e Literatura Africana em Inglês.

Em suas obras, Zaynab discute o impacto das transformações sociais sobre as áreas urbanas do Norte da Nigéria, com destaque para a situação das mulheres, questões de gênero, identidade religiosa e os desafios da modernização. Seu primeiro romance, intitulado em inglês The stillborn (O natimorto) (1984), ganhou pela Associação Nigeriana de Autores – ANA, trata dos desafios enfrentados por pela jovem esposa Li, ao tentar negociar suas aspirações pessoais e independência com as pressões da tradição e da família, num cenário de transição entre a vida comunitária rural e o meio urbano, e a alternativa do ensino e formação pessoal como meio de afirmação social feminina sem que isso represente uma ruptura com as convenções sociais e religiosas. Considerada conservadora para alguns críticos, a obra procura equilibrar diversas instâncias numa perspectiva de reconciliação das mulheres com a tradição em um contexto moderno.

A alternativa educacional para a afirmação feminina reaparece em várias estórias criadas por Zaynab Alkali, tema desenvolvido no romance The virtuous woman (A mulher virtuosa), que explora a trajetória de duas jovens muçulmanas ao ganharem bolsas de estudo em um internato, e como a obtenção da formação educacional não precisa necessariamente afetar a modéstia e as virtudes morais pessoais. Também em Cobwebs (Teias de aranha), a personagem principal, Mama, tem a visão de mundo alterada ao ingressar na Universidade de Azir, e o quanto tal mudança afeta a sua relação com os seus filhos pequenos.   Quanto ao romance The vagabond (A indigente), o problema diz respeito à proibição do acesso ao ensino por uma mãe à filha, a quem obriga a um casamento. Após a perda do filho durante o parto a adolescente Bibi contrai uma fístula vesico vaginal e outras doenças que, associadas ao trauma da perda, a transformam em uma indigente de rua. 

Em todas as suas obras, uma questão central diz respeito aos efeitos da poligamia na subjetividade feminina, e as consequências sociais dos privilégios patriarcais reservados aos homens, bem como a educação como alternativa de afirmação social feminina. Nelas, a autora problematiza a posição convencional esperada das mulheres, mostrando alternativas para que ganhem autoconfiança pessoal sem entrar em choque com sua devoção religiosa.

BIBLIOGRAFIA

GARBA, Ismail Bala. Of real freedom and gender equality. Jenda: a Journal of Culture and African Women Studies, v. 8, 2006.

LOFLIN, Christine. “Zaynab Alkali”. In: PAREK, Pushpa Naidu; JAGNE, Siga Fatima (Eds.).  Postcolonial african writers: a bio-bibliographical  sourcebook. Londres; Chicago: Fitzroy Dearborn, 1998.

WHITSITT, Novian.  “Zainab Amina Alkali”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 178-179.

Zaynab Fawwaz (c. 1850–1914)

Romancista libanesa-egípcia, biógrafa e primeira escritora sobre política de gênero e reforma no Egito.  Nasceu na cidade de Tibnin, no sul do Líbano, em uma família simples sobre o qual sabe-se pouco.  Ao que parece, fez parte da casa  de Ali Bek al-As’ad, um poderoso governante local. Foi a esposa deste, chamada Fatimah bint As ‘ad al-Khalil, que escrevia poesia e tinha considerável educação religiosa, que parece ter ensinado Zaynab a ler e a escrever.

As fontes discordam sobre a trajetória precisa da juventude de Zaynab Fawwaz. Não há certeza sobre seu casamento, nem sobre quando e porque ela se mudou para o Cairo, talvez através de Beirute ou de Alexandria.  O certo é que, no Egito, ela começou a trabalhar com o editor literário de polímeros e jornais, Hasan Husni Pasha al-Tuwayrani (c1849- c.1896). Seu jornal, al-Nil (O Nilo), publicou muitos dos mais conhecidos e polêmicos ensaios de Fawwaz nos anos de 1890.

Esta foi a década em que as reivindicações pela educação das meninas e pelos direitos das mulheres se confundiu  com o pensamento e ativismo nacionalista após a ocupação britânica do Egito (1882). O nome mais associado a esse debate é o do advogado Qasim Amin, cujo tratado de 1899 Tahrir al-mar’ah (A Libertação da Mulher) criou um furor, especialmente em virtude de questões com a segregação de gênero e a cobertura corporal, gerando muitas críticas em livros e ensaios escritos por homens inconformados. No entanto,  naquela década uma pequena elite de mulheres emergiu e manifestou por escrito suas reivindicações, algumas delas a partir de uma perspectiva ocidental e cristã, e outras, como Fawwaz, a partir de uma perspectiva islâmica – e ainda mais, calcada na tradição do xiismo, o que era bastante incomum no Egito.

Ela foi provavelmente a mais prolífica dessa geração de mulheres escritoras. Escreveu o romance Husn al- ‘awaqib aw Ghadat al-Zahirah (Boas consequências, ou a Donzela de al-Zahirah),  uma peça de teatro al-Hawa wa’l-wafa’ (Amor e Fidelidade) – que provavelmente nunca foi encenada. Sua grande obra foi o dicionário biográfico de mulheres do mundo, al-Durr al-manthur fi tabaqat rabbat al-khudur (Pérolas espalhadas entre as classes de senhoras enclausuradas) (1894), em que apresenta vidas de mais de quinhentas mulheres, de poetisas da Arábia pré-islâmica a renomadas mulheres da Grécia e Pérsia Clássica, da realeza na Europa Medieval, escritoras, cientistas, artistas, governantes e educadoras de seu próprio tempo.

Por volta de 1905, quando a sua coleção de ensaios jornalísticos e alguns poemas foram publicados no al-Rasa’il al-Zaynabiyyah (As epístolas de Zaynab), parece que ela já não estava mais publicando imprensa periódica, embora seu segundo romance tenha saído no mesmo ano, e é dito que ela escreveu pelo menos mais dois trabalhos que nunca foram publicados.

Em sua própria vida, Fawwaz traçou um caminho notavelmente independente: o seu casamento com o escritor sírio e funcionário público otomano Adib Nazmi al-Dimashqi (c.1840- c.1915) não durou muito devido ao fato dele ser polígamo e de tê-la  mantido em isolamento em uma propriedade rural síria sem os jornais egípcios.  Manteve correspondência com Berthe Honoré Palmer, em Chicago, e pretendeu que o seu dicionário de mulheres viesse a integrar a  Biblioteca de Mulheres na Exposição Universal de Chicago de 1893.

BIBLIOGRAFIA

BOOTH, Marilyn. Exemplary lives, feminist aspirations: Zaynab Fawwaz and arabic biographical tradition. Journal of Arabic Literature, v. 26, n. 1-2,  p. 120-146, 1995.

BOOTH, Marilyn. “Zaynab Fawwaz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 365-366.

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