GUERRILLA GIRLS: a igualdade de gênero no universo da arte


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AS MULHERES PRECISAM ESTAR NUAS PARA ENTRAR NO MUSEU DE SÃO PAULO? Apenas 6% dos artistas do acervo são mulheres, mas 60% dos nus são femininos.

Esta frase, estampada em grandes cartazes provocativos, acompanhada de uma figura feminina com cabeça de gorila reclinada é parte das ações das Guerrilla Girls (Garotas guerrilheiras, em tradução livre), que em 2017 estiveram no Brasil para um retrospectiva de 32 anos de seu trabalho. Elas são artistas ativistas feministas. Mais de 55 pessoas foram membros do grupo ao longo desses anos. O anonimato faz parte e mantém o foco nas questões problematizadoras . Elas usam máscaras de gorila em público e usam de fato, humor e visões ultrajantes para expor gênero e vícios étnicos, bem como corrupção na política, arte, cinema e cultura pop. Derrubam a ideia de uma narrativa convencional, revelando o questões atuais, negligenciado o injusto.

As Guerrillas acreditam em um feminismo intersecional que luta contra a discriminação e apoiam os direitos humanos para todas as pessoas e para todos os sexos. Fazem parte de seu trabalho mais de 100 projetos de rua, cartazes e adesivos em todo o mundo, incluindo Nova York, Los Angeles, Minneapolis, Cidade do México, Istambul, Londres, Bilbao, Roterdã e Xangai, para citar apenas alguns, incluindo o Brasil no ano de 2017. As Guerrilhas também estão presentes com seus projetos e exposições em museus, atacando-os justamente por seu mau comportamento e práticas discriminatórias diretamente em seus próprios muros, incluindo uma projeção furtiva sobre a desigualdade de renda também no meio da arte.  O grupo emprega Culture Jamming na forma de pôsteres, livros, outdoors e aparições públicas para expor problemas sociais.  Culture jamming é um termo relacionado com a pós-modernidade, em uso desde o início dos anos 80, que coloca em voga,  através do ativismo e da street art (apoiada numa semiótica de guerrilha), as técnicas de anti consumismo, de forma a romper ou subverter a cultura mainstream.

As Guerrilhas Girls pregam que: “Podemos ser qualquer um. Nós estamos em todo lugar.”  

Guerrilla Girls há 32 anos estão em luta pela igualdade de gênero no universo da arte.

Recentemente, o Museu de Arte de São Paulo – MASP apresentou uma retrospectiva completa, com 116 trabalhos significativos, incluindo dois novos cartazes brasileiros, baseados nas obras mais conhecidas das Guerrilla Girls. Ambos tratam das dificuldades de ser uma artista num mundo da arte e numa história da arte dominados por homens: As vantagens de ser uma artista mulher (1988/2017). e As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu? (1989) e agora no MASP? (2017) em que abordam o contraste entre o pequeno número de artistas mulheres em comparação com o grande número de nus femininos na exposição do acervo no Metropolitan Museum de Nova York (5% e 85% em 1989, 4% e 76% em 2012) e no MASP (6% e 60% em 2017).

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“As mulheres precisam estar nuas para entrarem no Metropolitan Museum? Menos de 5% das artistas na sessão de arte moderna são mulheres, mas 85% da nudez nas obras é feminina”

O cartaz acima original do Metropolitan, atualizado agora para a mostra do Masp em 2017, faz a mesma pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? E mostra números não muito diferentes do Metropolitan: no Masp, apenas 6% dos artistas em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos.”

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“The Advantages of Being A Woman Artist” obra original de 1988 também foi elaborado para a mostra do Masp, se chama: “ As vantagens de ser uma artista mulher: Trabalhar sem pressão do sucesso. Não ter que participar de exposições com homens. Poder escapar de mundo da arte em seus quarto trabalhos como freelancer. Saber que sua carreira pode decolar quando você tiver oitenta anos. Estar segura de que, independentemente do tipo de arte que você faz, será rotulada como feminina. Não ficar presa à segurança de um cargo de professor. Ver as suas ideias tomarem vida no trabalho dos outros. Ter a oportunidade de escolher sua carreira ou a maternidade. Não ter que engasgar com aqueles charutos enormes nem ter que pintar vestindo ternos italianos. Ter mais tempo para trabalhar quando o seu homem lhe deixar por uma mulher mais nova, Ser incluída em versões revistas da história da arte. Não ter que passar pelo constrangimento de ser chamada de gênio. Ver sua foto em revistas de arte usando uma roupa de gorila.”

Porque devemos chamar atenção para descriminação de mulheres no mundo da arte?

Essa é resposta das guerrilheiras: aos homens ricos e brancos. São eles que sustentam os museus com doações em dinheiro e obras de arte. Os museus não servem mais ao propósito de documentar a história da arte, mas a história do poder e do dinheiro, e elas demonstraram, por exemplo, que em 1989 que o valor pago por uma tela de Jasper Johns (US$ 17,7 milhões) poderia comprar obras de 67 mulheres artistas consagradas, entre elas, Sofonisba Anguisolla, Rosa Bonheur, Mary Cassat, Artemisia Gentileschi, Angelica Kauffmann, Lee Krasner, Judith Leyster, Berthe Morisot, Suzanne Valadon, Remedios Varo, Elizabeth Vigée Le Brun, Frida Kahlo e Georgia O’Keefe.

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Quando o racismo e o machismo não estiverem mais na moda, quanto valerá a sua coleção de arte? O mercado de arte não pagará milhões de dólares pelo trabalho de alguns poucos homens brancos para sempre. Pelos US $17,7 milhões que você acaba de pagar por único quadro de Jasper Johns, você poderia ter comprado pelo menos um trabalho de cada uma destas artistas não brancas.

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Quantas mulheres realizaram exposições individuais nos museus de Nova York no ano passado? 1895 / 2015

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Prezado Colecionador de Arte, Notamos que sua coleção, como a maior parte delas, não contém muitas obras de mulheres. Sabemos que você se sente péssimo com isso e irá corrigir a situação imediatamente. Com carinho, Guerrilla Girls.

 

 

Confira o vídeo no canal no youtube das Guerrilla Girls, um trecho da entrevista e retrospectivas de alguns trabalhos em ação:

“ O que é bom para nossa imagem, é quando você olha para as nossas máscaras, você pensa, que o nós representamos e defendemos é a consciência do mundo da arte e o que nós sentimos, sobre a representação do que existe sob da representação de mulheres e minorias. E quando você vê, nosso logotipo basicamente, é quando você nosso rosto. Isso é o que nós somos em frente ao que não é pessoal.”

 

“O discurso que emerge da sequência de cartazes nessa retrospectiva pode ser enquadrado no discurso sobre políticas da identidade que surgiu com o multiculturalismo no final da década de 1980, particularmente nos Estados Unidos. E não surpreende que um cartaz de 1986 declare que “é ainda pior na Europa”. No mesmo ano, outro cartaz das Guerillas traz uma lista de galerias e críticas de arte em Nova York que declaravam pelo menos 30% das exposições e dos textos a mulheres. Hoje, trinta anos depois, essa porcentagem seria considerada muito baixa. A questão de raça também surgiu em 1986 com o cartaz “ Apenas 4 galerias comerciais em Nova York exibem mulheres negras. Apenas uma exibe mais do que uma.” O tema se repetiu várias vezes depois. […]. A preocupação com o maior equilíbrio entre mulheres e homens artistas na arte moderna e contemporânea (a questão é muito mais difícil com obras anteriores ao século 20) se tornou quase uma norma, e não há curador de uma bienal de arte que não considere seriamente tais questões. Nos museus e na história da arte, muito do interesse renovado que observamos em artistas mulheres, não brancas ou que trabalham fora do eixo Europa-Estados Unidos ecoa também o trabalho das Guerrillas Girls” (Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP).

As Guerrillas Girls nos provocam a pensar sobre o que consideramos arte, que artistas estão legitimados a estar nos museus, acervos e grandes exposições, e nas principais narrativas do que chamamos de “história da arte”. Quantas mulheres artistas e artistas negros você tem na sua curadoria pessoal e no seu repertório de imagens artísticas?

 

Contribuição: Joe Nicolai – aluno de Artes Visuais (Licenciatura UFRGS

Fontes: https://www.guerrillagirls.com/

Catálogo Guerrilla Girls MASP 1985-2017, Adriano Pedrosa.

 



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