Expedição Catástrofe: por que escolas fecham?


Uma escola aberta tem barulho de criança, de professora, de sineta, de sirene, de brincadeiras, de aulas de matemática. Uma escola aberta tem cheiro de merenda na cozinha, de bala no recreio, de suor depois da aula de Educação Física, de tinta na aula de Artes. Uma escola aberta tem cor de giz no quadro verde, tem nome escrito na mesa, tem palavras inconfessáveis na porta do banheiro, tem chiclete colado embaixo da cadeira, tem flor de cartolina colorida no mural da escola. Nos corredores de uma escola aberta circulam ares de descoberta, do que está por vir, da vida em profusão. Se na escola da cidade entram barulhos de carros e da vida urbana pulsante, na escola do campo, as janelas se abrem para o verde e para a imensidão das distâncias de uma casa a outra.

Lá na escola do campo, de vez em quando, um animal passa, todos se cumprimentam na estrada, e as professoras conhecem o nome de todos os pais. Tem professora que deu aula para alunos em muitos anos seguidos e os viu crescer: criança, jovem, quase adulto. Tem pai e mãe que também estudaram na escola e se vêem naquele espaço, ocupado agora pelos filhos. Tem mãe que não sabe ler, mas diz que a professora pode fazer o que quiser com o seu filho para ele estudar. Tem criança que falta a aula para ajudar na lavoura. Tem criança que só usa uma roupa e o mesmo chinelo o ano todo. Tem dias que as professoras ganham laranjas e até linguiça. Tem dias que a gente até sobe em árvore com os alunos. Para ir na escola, às vezes tem que pular mais de uma cerca e desviar dos bois pelo caminho. Na sala de aula para muitas séries, tem quadro dividido – tarefas para o terceiro ano de um lado e para o quarto ano, de outro. Uma folha de atividades para o segundo ano, e uma atenção maior para quem está aprendendo a ler suas primeiras palavras. Lá na cozinha, a merenda quase pronta, só dar mais uma mexidinha. Quando terminarem a leitura, podem ir comer.  “Se estiver neblinando”, avisa a mãe, não tem aula. Para ir embora, as professoras pegam carona e, se for de caminhão, melhor ainda. E tem muita palavra inventada na escola, palavras que não estão nos livros e nem nos repertórios das professoras, mas elas existem e encantam. Cabe um mundo em uma escola.

Um dia, uma artista ouviu uma notícia no rádio: de 1995 a 2016 foram fechadas 60.065 escolas rurais no Brasil.

60.065. 60.065. Sessenta mil e sessenta e cinco escolas foram fechadas no Brasil.

E por que escolas fecham? Por que há poucos alunos, por que os pais mudam atrás de melhor trabalho, por que professores são caros, por que mais vale gastar em ônibus para levar a uma escola maior do que investir em escolas integradas na comunidade, é o que dizem os gestores.

 

‘’Escolas – casebres, escolas-desertos, escolas-ermos; coberturas, paredes e fundações em desmoronamento; ervas daninhas invasoras de equipamentos públicos; quadros negros silenciosos; mobiliários pernetas, esfacelados. Ecos do vazio aberto pelas políticas públicas de educação, agricultura e urbanização.’’ Trecho extraído da página do Expedição Catástrofe

  

A inquietação sobre a notícia abismal das ex-colas do campo levou Carolina Fonseca se reunir com um grupo de artistas, pesquisadores de diversas áreas e com atravessamentos distintos em seus processos criativos, Laura Castro, Ícaro Lira e Yuri Firmeza, Filipe Britto, Glayson Arcanjo e Pedro Britto, Alexandre Campos, Pablo Lobato e Renata Marquez, a percorrer por entre três estados brasileiros: Bahia, Minas Gerais e Goiás. Estados em que escolas do campo foram fechadas em maior número. A expedição por entre as ruínas esquecidas ou o que restou das escolas fechadas, traz a tona uma produção estético política descolonizada que nos põe a refletir sobre tempo, espaço, sujeito, território e educação brasileira.

“São diferentes artistas que experimentam processos criativos múltiplos e reconheço neles um interesse singular nas relações entre espaço, imagem, restos, algo que emerge das relações entre práticas de espaços, sujeitos, num tipo de documentação expressiva, que não pretende representar nada, mas achar nas latências indícios para instaurar sensações”, explica Carolina Fonseca

A ação artístico política realizada  pelo grupo de artistas escancara através dos registros em fotografias e relatos escritos, os disparadores de um descaso de políticas públicas com as pessoas e famílias  que vivem no campo. É através dos relatos escritos e visuais que nos deslocamos pelos territórios devastados dos três estados percorridos pelos artistas. A primeira parada nos leva ao extremo sul da Bahia, onde há um número expressivo de escolas indígenas e quilombolas fechadas. Durante o caminho, somos levados até a Dona B, ao Seu Zé, ao Córrego do Bacalhau, entramos em verdadeiros desertos ensolarados pra encontrarmos as escolas fechadas. Nos deparamos com relatos sensíveis e muitos deles desacreditados das pessoas que vivem no campo e todo o seu processo de retomada das terras pelos latifundiários da região.

 

 

Extremo sul da Bahia, Zona Remota

 

 

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’Cruzamos o coração da cidade – a estação a praça a igreja – e mergulhamos no labiríntico deserto verde*.

*T e r r a r r a s a d a  ,

fica dilatando essa palavra na cabeça, enquanto guio o carro pela estrada de terra.

Entre a vasta floresta de eucaliptos, uma casa aponta,

Seu JL sorri

Moram ali desde sempre. Os filhos já estão criados. A escola fechou, sim, não tem mais criança.

Dona B desconfia

Projeto? Mas que pesquisa é essa? Pra quem? Pra que?

Canto de olho, um jeito caboclo de interrogar com o corpo todo que fala, qualquer coisa que eu não posso, não consigo descreverA escola fechou porque não tem mais criança, mas eu queria estudar.’’

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Expedição Catástrofe, imagem de divulgação. Fonte: https://expedicaocatastrofeblog.wordpress.com/

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Expedição Catástrofe, imagem de divulgação. Fonte: https://expedicaocatastrofeblog.wordpress.com/

 

 

 

Goiás, no deserto de agosto

 

”A descoberta nos levou a uma estrada desoladora, a seca aqui está no clímax e os ipês arroxeiam alguma esperança. Após 6 longos quilômetros de dúvida,  são muitas construções com feição de abandono, uma revelação inconfundível. Na beira da estrada, sem eira nem beira estava a casa demolida, não só abandonada,  ex-cola, escola em frangalhos. Uma tarja azul à óleo fazia um barrado, quase um uniforme estraçalhado. Só o fogão a lenha restava com alguma integridade. Estávamos um pouco desprevenidos, e fizemos o registro com o celular.”

 

Torre de Transmissão e Livro Objeto

A necessidade de dar voz a tudo que presenciaram durante as expedições levou-os pensar em uma ação que pudesse alertar para o fato praticamente ignorado do fechamento dessas escolas, expondo as múltiplas ex-escolas cobertas pelo esquecimento de uma política governamental de criação de escolas-polos e de reunificação dos alunos para reduzir gastos.

 

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Expedição Catástrofe, imagem de divulgação. Fonte: https://expedicaocatastrofeblog.wordpress.com/

 

 

Foi em setembro de 2017 que o grupo realizou uma Torre de Transmissão em Goiânia, ação realizada em uma área rural de Goiás. Junto de colaboradores, os artistas leram os nomes das diversas escolas rurais fechadas. A ação/performance/instalação/protesto teve duração de 24 horas e foi transmitida ao vivo por streaming e outros meios. Pablo Lobato registrou todo o evento que acarretou em um documentário de trinta minutos que recebeu  apoio do programa Rumos pelo Itaú Cultural para lançar o projeto Expedição catástrofe: por uma arqueologia da ignorânciaO livro-objeto mapeia e expõe o quadro devastador das 60.055 escolas rurais fechadas.  A publicação do livro foi lançada em 14 de abril de 2018 no Espai – Ateliê, onde também ficou exposto um fragmento do vídeo da Torre de Transmissão junto de uma leitura coletiva.

 

 

   “O Censo Escolar registrou o fechamento de 60.065 escolas rurais no período de 1995 a 2016. Ler os nomes das escolas fechadas cartografadas em todo o território rural brasileiro é ressuscitar estatísticas de um arquivo morto e mudo. É sobrepor datas, pessoas, homenagens e imagens ao dado estatístico estéril”.

 

‘’As salas de aula vazias foram transformadas em salas de visitas e quartos. Nos quadros verdes de lições remotas, ainda havia faixas, abecedários, desenhos infantis. O cenário era um palimpsesto.’’ – quando a escola vira casa – Renata Marquez (MG)

No Rio Grande do Sul, regiões como Vale do Sol, Bento Gonçalves e Boqueirão do Leão, também tiveram escolas rurais fechadas alheias ao conhecimento da população e do Comitê Estadual de Educação do Campo. Ultimamente, escolas públicas urbanas também tem sido fechadas. Entre 2017 e 2018 seis escolas de ensino fundamental e médio da rede estadual em Porto Alegre também foram fechadas, entre elas estão as seguintes escolas:  Alberto Bins, Benjamin Constant, Oswaldo Aranha, Doutor Miguel Tostes, Marechal Mallet e Plácido de Castro. O panorama de destruição e descaso com as escolas e com a população rural segrega e prejudica a relação que esses alunos têm com o próprio território, ou seja, seus hábitos, necessidades, espaço e os temas do campo. Ao deslocar essa camada da população rural para os centros urbanos, entende-se que se torna cada vez mais inviável o trânsito desses alunos e torna-se necessário pensar e reconstruir toda uma nova dinâmica familiar-escolar bastante desgastante para que se consiga permanecer na escola, e o resultado disso é a evasão e a precarização da educação do campo completamente desconectada das necessidades e subjetividades desses estudantes.

 

Refletir sobre esse quadro suscita problematizações mais profundas que extrapolam a geografia remota dessas escolas desertificadas e fechadas. Escancaram dimensões fundantes do sentido de educação, cultura, rural e urbano, que em articulação testemunham sobremaneira um retrato panorâmico do Brasil. O pretexto estético-político aqui apresentado viabiliza processos de formação e crítica de artistas visuais, educadores, gestores públicos, entre outros. Tanto a expedição, quanto a exposição e a publicação configuram plataformas de experimentação e de atravessamentos entre as linguagens artísticas e outras áreas do conhecimento, tais como educação, geografia, ciência política e ciências agrárias. Um projeto cuja tentativa é estabelecer uma evidência e paralelo com as missões artísticas e científicas do Brasil colônia, engajadas com processos de conquista, domínio e captura do próprio território brasileiro, que passa pela produção de conhecimento para viabilizá-los.

No caso da Expedição catástrofe: por uma arqueologia da ignorância, viabilizar o acesso a tais bens culturais relegados à inoperância, à inutilidade, à invisibilidade, por fim, à própria destruição e desaparecimento, evoca uma perspectiva de descolonização da própria dimensão rural deste país. Trata-se de uma contraposição aos regimes de visibilidade hegemônicos substancialmente consolidados pelo axioma da modernidade, que por sua vez passa pela negação do rural. Criar outro regime de visibilidade deste parque arqueológico pressupõe um posicionamento político interessado em evidenciar a agonia dos desígnios da modernidade e suas territorialidades constitutivas ( Fonte: https://expedicaocatastrofeblog.wordpress.com/ )

 

O que pode uma escola? Quando uma escola fecha, quantas possibilidades se desfazem?

 

Texto e pesquisa: Luciana Gruppelli Loponte e Céu

 

Para saber mais:

 

– Sobre a Expedição Catástrofe:

https://expedicaocatastrofeblog.wordpress.com/

https://www.uai.com.br/app/noticia/pensar/2018/04/27/noticias-pensar,226266/expedicao-catastrofe-artistas-analisam-fechamento-de-60-mil-escolas.shtml

http://www.itaucultural.org.br/rumos-2015-2016-expedicao-catastrofe

http://www.belohorizonte.mg.gov.br/evento/2018/04/lancamento-livro-e-video-expedicao-catastrofe-por-uma-arqueologia-da-ignorancia-e-lei sobre o livro-objeto

https://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/entre-ru%C3%ADnas-e-resist%C3%AAncias-1.1423696

 

– Sobre fechamento de escolas no Brasil:

Governo do RS fecha escolas

https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/governo-do-estado-fecha-seis-escolas-por-queda-no-numero-de-estudantes-em-porto-alegre.ghtml

Cresce o número de escolas fechadas no campo no Brasil

https://www.brasildefato.com.br/2018/02/09/cresce-o-numero-de-escolas-fechadas-no-campo-no-brasil/

Em 19 anos, 209.195 escolas rurais foram fechadas no Brasil

https://www.dm.com.br/cotidiano/2018/06/em-19-anos-209-195-escolas-rurais-foram-fechadas-no-brasil.html

Desmonte da rede pública do Rio já conta com 231 escolas fechadas

https://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2017/12/desmonte-da-rede-publica-do-rio-ja-conta-com-231-escolas-fechadas

 

 

 

 

 

 

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