Em defesa da fogueira das caixas na Educação! PARTE I


 

 

Imagens retiradas da página do facebook do artista (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

Imagens retiradas da página do facebook do artista (https://www.facebook.com/antonioaugusto.bueno).

EM DEFESA DA FOGUEIRA DAS CAIXAS NA EDUCAÇÃO! [1]

 

Escrevo, pois não caibo mais em mim. (…) 

Acima de tudo escrevo porque decidi compartilhá-las e seguir esse caminho de busca. Minhas memórias mostrarão quem fui e junto com momentos atuais contarão quem sou…[2] 

 

As ideias vêm matutando aos poucos. Vygotsky há tempos me ensinou: a linguagem organiza o pensamento! Decidi, então tentar colocar as ideias soltas e desamarradas no papel e, assim, costurá-las, bordá-las. Colocá-las em caixas? Justo o contrário! Venho matutando uma fogueira de caixas!

A escola é feita de caixas – tempos organizados em planilhas e tabelas; espaços divididos por grupos e horários; conteúdos especificados por grades curriculares; crianças vistas em suas etapas de desenvolvimento… cada coisa no seu quadrado, cada um na sua caixa.

Claro que as caixas não são necessariamente herméticas e incomunicáveis – há muitas vezes respiros e porosidades. Mas o “sistema” se pensa como uma caixa, um tipo de “organizador”, cheio de divisórias, etiquetas e hierarquias – desde Ministério ditando parâmetros, Secretarias dizendo o que deve ser feito, passando por Projetos Político Pedagógicos esmiuçando como deve ser feito, até Sindicatos patronais e de empregados movendo peças nesse intrincado tabuleiro, ditando as normas, regras e leis que regem essas tantas e tantas e tantas divisórias devidamente etiquetadas, classificadas e ordenadas.

A Arte, em suas diversas expressões, é um dos mais potentes dutos de ventilação das escolas – e por isso sua convivência no espaço escolar é, desde sempre, tão complexa. A escola nasce normalizadora; e a Arte é essencialmente transgressora. A tensão fica assim (ex)posta desde o início. Mas os tempos atuais, entretanto, expuseram ouuuttttrrrras fraturas, outros rasgos e rusgas que há tempos ficavam meio esfumaçados e, agora, bem nítidos.

O que é a escola senão o coletivo de personagens que a habita? A energia vital da escola está fora do prédio, longe dos materiais, independente dos conteúdos e métodos – a vida da escola está fora de seus conjuntos de conhecimentos e de suas verdades. Está além muros, no mundo, nas pessoas, na natureza, na Cultura, na Arte, na impermanência da vida.

Mais do que nunca, essa perspectiva da fragilidade da vida escolar se consolidou de forma transparente. As escolas e creches estão vazias, coisa morta, habitadas por ecos e memórias, por materiais inertes e silenciosos. E é da minha escuta e do meu olhar (que se nutrem, sintonizam e sincronizam com muitos outros olhares e escutas) para esse vácuo, para esses fantasmas e sombras, que brotam essas reflexões desalinhadas, em busca de novos pontos e arremates.

ESCOLAS E CRECHES EM TEMPOS DE PANDEMIA  

 

(…) O mapa. O registro. A história. 

Que desmancha, mancha, borra. 

Sem memória, sem registro, me perco. 

Quem sou?[3] 

A incerteza paira no ar diante do desconhecido. Quanto tempo permaneceremos sem levar as crianças para as instituições educativas? Ninguém sabe ao certo. O que imediatamente pensamos em fazer? Tal qual o ditado que diz “Se Maomé não vai à montanha, montanha vai à Maomé”, muitas escolas e creches começaram o trabalho de tentar replicar a escola fora de seus perímetros e dentro das moradias das meninas e meninos que costumavam povoar seus pátios, parques, quadras, salas e laboratórios.

Como numa espécie de mimetismo, o sistema educativo busca se “teletransportar” e adentra os lares por meio de tablets, laptops e computadores de todo tipo. A crença parece ser uníssona e reverbera como palavras de ordem: a escola não pode parar! Há conteúdos a cumprir! As crianças precisam aprender e não podem perder tempo! Sem a escola, as crianças se desinteressarão por aprender! Rotina é necessária! Pelo lado dos familiares (leia-se: os clientes), há pressão pela “prestação de serviço” contratada (mesmo que seja uma escola pública)… enfim! São inúmeras questões que desaguam numa mesma direção: produtividade, eficiência, resultado, eficácia… tempo!

Volto ao padrão, piloto automático. Gosto, exagero e desgosto. Me esgoto. Crio um ciclo não sustentável. (Des)humanizo. Visto uma armadura. Deixo de sentir, me perco, viro máquina…

Tic, tac. Corre, corre. Produz, produz. Trabalha, trabalha. 

(Visto camisa) 

Meta, meta. Foco, foco. Rápido, rápido. Café, café. 

(Prendo xixi) 

Atenção, atenção. Data, data. Equipe, equipe. Mais café, café. 

(Me esgoto) 

Reunião, reunião. Solução, solução. Atenção, atenção. 

(Cadê eu?) 

POP, POP. Planilha, planilha. Formulário, formulário. 

(Me perco) 

Resultado, resultado. Limite, limite. Números, números. 

Viro máquina.[4]

 

Seria mesmo possível (e desejável?) a escola, tal como é concebida hoje, tal como funciona, se deslocar para dentro das casas e tentar ali se consubstanciar?

O termo “homeschooling” é usado para designar uma forma de estudos alternativa à escola, que se desenvolve em casa, mediada por alguém da família, ou que more com a criança. Ele é fruto de um debate sobre a instituição escola e seu papel, e é resultante de uma opção da família. Certamente, não é nisso que as escolas poderiam se espelhar nesse momento, pois a situação é bem outra.

Há escolas e creches que estão buscando a solução pela chamada “Educação à Distância (EAD)”. E assim, de repente, professoras e professores saem gravando aulas em casa, e enviando muitas tarefas, até com rigidez de prazo e cobranças, e algumas até mesmo preconizando o uso do uniforme escolar para reestabelecer a rotina – mas, afinal, de que rotina estamos falando? Não seria o uniforme um símbolo identitário de pertencimento e elemento de padronização em busca de diluir diferenças socioeconômicas no espaço escolar? O que nos faz crer que ele seja indício privilegiado de uma rotina? Seria o uso do uniforme uma espécie de interruptor que “apaga a luz” e transforma crianças em a-lunas e a-lunos?

 

(…) A mente entra com os dois pés na porta, sem bater. Impondo um pensar, um pesar. 

Quando isso acontece minha fisiologia muda. Meus movimentos já não fluem com a música. (…)[5]

 

É apenas a presença ou ausência de alunxs que consolida a diferença entre a educação formal (da escola), e a educação informal (no contexto familiar e social)? Se pensarmos nos anos iniciais do Ensino Fundamental, de quem é a tarefa do “ensino formal”? E se considerarmos as instituições de educação infantil, qual é seu papel primordial? Poderia mesmo ele ser transposto para as casas das crianças? Ou estamos diante de um ponto de bifurcação?

 

(…) A criatividade é uma propriedade inerente a todos os sistemas vivos. Todos os sistemas vivos são criativos, porque eles têm a capacidade de alcançar e criar a partir do velho, algo novo. Mas é a falta de equilíbrio, a desordem, que nos possibilitam chegar em pontos de bifurcação e mudar. (…)[6] 

A tarefa “pedagógica” ou “escolar” não é da família; e as professoras e os professores não têm conhecimento nem tecnologia para, do dia para a noite, criarem toda uma metodologia diferenciada por meio de ambientes de aprendizagem virtuais. A maioria delas e deles ainda não é da geração de nativas e nativos digitais; e também não se pode desconsiderar que o Brasil é muito vasto e desigual, e nem todxs têm bons acessos, ou repertório suficiente para propor desafios que vislumbrem algum mistério e incitem a curiosidade. Muitas vezes, a experiência de EAD atual acaba por se alicerçar em uma concepção superada (será?) de ensino-aprendizagem, com propostas: que muitas vezes mais se assemelham a um amontoado de atividades, desconectadas entre si, e que subestimam a autonomia intelectual das crianças; que possibilitam apenas respostas únicas que não acolhem o pensamento divergente, tampouco a criatividade e a autoria; com foco exclusivo nos resultados e não nos processos; e tendo a pressa e a rapidez como pontos privilegiados sobre a reflexão e a construção de hipóteses… entre outros problemas.

Tampouco as crianças dos anos iniciais têm instrumentos ou disciplina para EAD – imaginem as da Educação Infantil! E menos ainda os familiares têm condições apropriadas (ou conhecimentos específicos) para criar essa pretensa “rotina escolar” em casa, tendo que acumular todo o cuidado com as crianças, o trabalho do funcionamento da casa, e o trabalho profissional agora majoritariamente instalado em home office…

Isso não é tentar adaptar o inadaptável? Estariam as instituições educativas, nesse momento, sofrendo de paralisação diante da perda de suas identidades, e por isso, forçando uma situação que as distancia cada vez mais da realidade?

Desconstruo-me. Não pertenço. Não identifico. Não reconheço. Não vejo. Não sinto. 

(…) As peças não se encaixam mais. 

E agora? Perdi alguma coisa? 

(…) O que está sendo montado? Perdi minha ID. Como saberás quem sou? Como me reconhecerá? Como me encontrará? 

Procuro instruções do quebra-cabeça. Assisto tutoriais, mas não reconheço como própria a montagem alheia. O manual não é meu. Como (des)escrever algo que nunca montei?(…)[7]

 

Qual é a realidade de grande parte das pessoas hoje? Crianças confinadas em casas tensas, com rendas familiares diminuídas, onde o medo do desconhecido reina, e com o risco de a indefinição do amanhã levar à angústia, depressão, violência… portanto, nesse momento tão delicado, me parece só trazer maior dose de tensão nas relações vislumbrar que o que escolas e instituições de educação infantil devem fazer seja transferir para mães e pais as tarefas escolares… não estaríamos, assim, também criando mais um novo fake: um vai fingir que ensina; e o outro vai fingir que aprende… é isso que quer a Educação?

 

(…) Queria remontar alguns quebra- cabeças, usar novos encaixes. 

Mas nesse resgate, nessa coleta (ou seria, colheita?), me deparei com um problema: o que queria montar? Qual exatamente o sonho que queria sonhar? 

Indo além, percebi que não tinha respostas às muitas perguntas, tinha que me satisfazer por ser, apenas, capaz de formulá-las. 

Mas nessa pesquisa interna, em meio aos vendavais, percebi um ponto crucial: até onde me autorizaria a ir? Ou, pior: por que não me autorizaria realmente a mudar? (…) 

Era o medo da mudança, o medo de conseguir? De chamar atenção? 

De ser juLgada? De não ser aceita? Seria o medo de ser responsável, de fato, pelo resultado, seja qual for? 

Seria o medo de perder a bengala imaginária que diz simplesmente: não dá?! 

Afinal, se é externo, me isento da culpa de dar certo (e errado)?! (…)[8]

 

 

NOTAS: 

[1] Todos os textos em itálico pertencem ao livro “Mulheres que Soul” (SC: O Livreiro das Rosas, 2019). A autora, Dani Leite, é Doutora em Fisiologia, com Pós-Doutorado em Farmacologia, e há alguns anos atrás trocou esta faceta da cura, por outra, buscando integrar as energias feminina e masculina, ajudando mulheres a se reconectarem consigo mesmas e a se expressarem de forma autêntica na vida pessoal e profissional – contato: leitedani@gmail.com

[2] Quem sou – p. 22-23

[3] Inundação – p. 38

[4] (Des)humanizo – p. 128-129

[5] Transe mental – p. 57

[6] À procura do equilíbrio – p. 172

[7] Desconstrução – p. 49-50

[8] Você se autoriza a ser diva? – p.99-100

 

Por Maria Isabel Leite, doutora em Educação, pesquisadora e consultora autônoma na área de infância, educação, cultura e formação, em espaços/propostas formais e não formais de educação.

Contatos: relicariosdeideias@gmail.com – instagram: @relicariosdeideias – wpp: 21-98850-7296

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