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Angélica Dass e o projeto Humanae: qual a cor da sua pele?

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O que você responde ou pensa quando ouve essa pergunta: qual a cor da sua pele? Essa é uma pergunta importante? A cor da sua pele afeta o seu modo de viver?

Artista Angélica Dass em fala sobre seu projeto “Humanae”
(Fonte: http://iberecamargo.org.br/qual-a-cor-da-sua-pele-angelica-dass/)

“O que eu desejo é que a vida de um não valha menos do que a vida do outro.” É o que a artista contemporânea Angélica Dass espera do futuro, em relação ao impacto de seu trabalho intitulado “Humanae” (do latim “humano”). Em uma entrevista cujo mote é uma revisão sobre a Semana de Arte de 1922 – evento histórico que pretendeu mostrar ao mundo aquilo que uma elite artística pensou como “a arte genuinamente brasileira” – a artista visual carioca recolore muitas questões do que é ser uma mulher negra brasileira. Atualmente residindo na Espanha, Angélica tem sua arte mais exposta e reconhecida fora do Brasil.

Humanae começou em 2007 com um turbilhão de perguntas advindas da percepção e vivências da desumanização provocada pelo racismo. Este preconceito contra pessoas que são racializadas, ou seja, às quais se atribui uma cor dentro do espectro de “não-branco”, onde toma-se a branquitude como ponto de referência e centralidade. 

Como aponta a professora Gládis Kaercher, “[…] em nossa cultura a branquidade tende a ser tomada como um estado ‘normal e universal’ do ser, um padrão pelo qual todo o resto é medido, um cotejo que baliza a avaliação de todos os desvios[…]” (KAERCHER, 1999, p.114).

Como mulher negra, Angélica recebia a indagação frequente sobre de qual cor nasceria um filho entre a artista e seu marido espanhol, homem branco com aparência rosada. Dessa questão tão invasiva, mas tão sintomática, começa a construção de um grande mosaico fotográfico com milhares de retratos de pessoas de todo o mundo. 

No projeto Humanae, a cor da ponta do nariz de cada modelo que posa para ser fotografado pela artista é replicada ao fundo da imagem e catalogada por sua tonalidade no sistema Pantone, uma espécie de biblioteca de cores. Uma escala industrial que Angélica recriou como uma escala humana de tons de pele. 

A série, que atualmente já conta com quase 5 mil rostos realizados em 20 países, apresenta uma diversidade não só de tons de cor e nacionalidades, como também de traços étnicos, gêneros, idades, estilos, religiões e classes sociais. É composta de seres humanos de contextos diversos, pessoas que se voluntariaram a participar da obra.

Ao expor as linhas divisórias e borramentos que pintam o conceito de raça, Humanae torna visíveis as construções da racialização que categoriza em pretos, brancos e pardos aqueles cujas cores têm infinitas nuances. Muito da face sensível do trabalho de Angélica parte da referência autobiográfica na construção de Humanae: vinda de uma família de muitas cores com avós brancos e pai e mãe pretos e indígenas, as diferenças de cor ou raça nunca foram questões para os laços familiares, mas constituíram, fora deles, situações racistas entre as quais Angélica relata ter que recorrentemente responder se era empregada doméstica e, quando criança, ser excluída por ter sido comparada “à cor da merda”. Ao começar a expor e perceber que sua obra havia ido dos museus para as salas de aula, a artista passou a incluir oficinas e pensar nas ações pedagógicas junto ao seu trabalho. Após receber muitas mensagens de professores, Angélica Dass abriu recentemente em seu Instagram uma chamada para educadores contarem as experiências que realizaram com sua obra. Lhe interessa mencionar e divulgar, fomentar esses acontecimentos junto ao seu trabalho, ser também uma artista educadora que quer conhecer os impactos sociais daquilo que propôs com sua arte.

Na continuidade deste texto, apresentamos algumas propostas pedagógicas relacionadas, de algum modo, ao projeto Humanae: o relato de propostas desenvolvidas pela professora Diane Sbardelotto em escolas do interior do Rio Grande do Sul; o material didático criado por Ário Gonçalves, aluno da licenciatura em Artes Visuais da UFRGS em um dos seus estágios, intitulado por ele “A presença da ausência” e a criação do giz de cera de tons de pele, no âmbito do projeto UNIAFRO – UFRGS, coordenado pela professora Gladis Kaercher.

Humanae exposto na Fundação Iberê Camargo, de Porto Alegre/RS. (Foto: Diane Sbardelotto)

Conversar sobre Humanae na escola:  algumas experiências no interior do Rio Grande do Sul, por Diane Sbardelotto

“Parece que a artista não tenta nos convencer, mas a gente percebe na hora, tem uma coisa que ela causa… ai sora, eu não sei explicar, mas acho que vocês entenderam.” Comentou um aluno do Ensino Médio na aula em que trabalhamos com Humanae. Outro estudante, do 6º ano, mencionara “Como ela explica bem, a gente entende” depois de assistirmos à fala da artista.

Qual a cor da sua pele? era a pergunta que eu escrevia no quadro branco com caneta preta ao iniciar a aula. Não parecia uma pergunta tão difícil de responder, para mim, uma professora de arte “dita branca” que sabia da necessidade de falar de racismo com meus alunos, mas cujos efeitos não sinto na minha pele. 

Nas aulas, procuramos a nossa própria cor olhando para nossos braços, nossas mãos, na tinta, no espelho, nas selfies, mas nunca encontramos uma resposta definitiva já que, como apontaram os próprios alunos em suas descobertas, as palmas das mãos eram mais claras que o dorso e que os braços, e ainda assim mudariam de tom entre o inverno e o verão. O que nos foi possível, todas as vezes, foi nos aproximarmos do tom de cada um e isso já era enfrentar um abismo na percepção de si.

Sempre que terminava de assistir ao vídeo com a palestra da Angélica, “Somos todos Humanae”, na sala de aula, antes que eu perguntasse qualquer coisa, os alunos queriam falar. “Profe, nós vamos fazer a nossa cor também!?”, alguns estudantes designaram essa tarefa como um pedido enquanto outros traziam histórias sobre pessoas com a pele mais escura ou mais clara nas suas famílias, nos filmes, nas notícias, na própria escola, abrindo espaço para outros falarem também de suas composições de vivências pessoais entre os vários tons de gente. 

Afetados pessoalmente pela intimidade que a artista compartilha ao contar sobre as cores de seus próprios familiares, dando às peles deles nomes comparativos como cor de camarão, chocolate, canela, caramelo, os alunos espontaneamente muitas vezes fizeram Humanae se multiplicar. Incluíram os próprios rostos dentro da obra, através de pinturas, desenhos, fotografias e conversas que tornavam a si próprios peças desse mosaico. 

Houve também, é preciso dizer, aqueles que engoliram ou optaram por um silêncio e é esse ponto que ainda precisaremos enfrentar. Quando comecei a usar Humanae na escola, estávamos em aulas remotas e como meus estudantes provavelmente não teriam tintas, propus que procurassem fotografar sua cor nos objetos da casa e inventassem nomes para elas. Batatas, paredes, texturas de móveis, sofá, o cachorro e outras pessoas da casa apareceram nas fotos ao lados deles. Os nomes inventados como: desmaiado, cor do pudim e cor do caramelo do pudim, nutella um pouco mais escura, antique white, palete,  entre outros, seriam uma brincadeira sugestiva ao Pantone e ao tal “lápis cor da pele” do qual falaremos mais adiante.

Fotografias realizadas por alunos buscando suas cores de pele em objetos de suas casas. (Fonte: Acervo de portfólios de artes dos alunos do IFSUL de Sapucaia do Sul)

Já presencialmente na escola, para que pudessem comprovar se suas misturas chegaram ao tom “verdadeiro”, por vezes testavam pinceladas em cima das próprias mãos. Foi simbólico que usassem o próprio corpo como paleta, tentando trazer para suas obras um olhar inédito sobre sua pele. 

Teste de cores realizado por uma estudante em cima da própria mão. (Foto: Diane Sbardelotto)

De fato as experimentações de cores, de muitas maneiras, foram trabalhos enriquecedores da experiência de observar a si mesmos. Mas, quando repenso os direcionamentos das mediações desse trabalho, percebo o risco de por vezes ficarmos restritos à superficialidade de uma discussão meramente focada em colorismo. Essa é uma questão, mas há muitas outras a enfocar.

Ainda que não nos conheçamos, Angélica Dass soube que solicitei a meus alunos criarem perguntas que fariam à artista se pudessem conversar com ela. A ideia era aprender a perguntar e a lidar com um tempo em que ainda não teríamos todas as respostas. Um deles, despretensiosamente, marcou  o perfil da artista em seu Instagram, local onde ele estava desenvolvendo seu portfólio para as aulas. Inesperadamente, Angélica conversou com esse jovem de Sapucaia do Sul/RS, formulando respostas diretamente nos stories dela que trouxeram uma enorme alegria para a turma inteira.

Interação de Angélica Dass com um estudante de ensino médio através de respostas compartilhadas nos Stories do Instagram. Fonte: https://www.instagram.com/mural.artes/

Perguntas dentre tantas que o trabalho suscita são uma das grandes riquezas de ser uma obra desestruturante, que é compreensível, mas que gera dúvidas, polêmicas e curiosidade. Perguntas sobre o processo da artista como:Quantas cores ela encontrou? As cores se repetem? A artista conhece as pessoas? Eles estão pelados?  Mas também perguntas sobre os problemas do mundo: Profe, existe racismo reverso?

Quanto eu estava preparada para responder essa pergunta retoma a importância de como professora, eleger trabalhos artísticos que afetam minhas próprias reflexões.


A presença da ausência

Como parte das tarefas da disciplina Estágio II – Docência em Artes Visuais no Ensino Fundamental da Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, realizado de forma remota durante o ano de 2021, o estudante Ário Gonçalves criou uma proposta de material didático a partir do trabalho de Angélica Dass, Eustáquio Neves e Pamela Zorn Vianna que intitulou de “A presença da ausência”. Nas atividades sugeridas em busca da “cor certa”, por exemplo, são lançadas algumas perguntas: “Quais as diferenças de pele entre as cores de pele encontradas e as comumente utilizadas?”, “Pelas cores encontradas, é possível determinar uma raça/etnia específica para a pessoa possuidora de tal cor?

A questão em jogo aqui é representatividade, como diz o próprio Ário, na apresentação do seu material:


Um lápis cor de pele!

Fonte: UNIAFRO UFRGS

No âmbito do projeto UNIAFRO, curso de aperfeiçoamento oferecido em três edições na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e depois de muitos incômodos com diversas situações racistas envolvendo escolas, docentes e a invisibilidade gráfica representativa de crianças e jovens negros, em 2014 surgiu a ideia de criar um lápis cor de pele. Era preciso dizer um basta! 

“Após uma intensa busca por empresas sensíveis e solidárias ao nosso objetivo de produzir o primeiro material grafo-plástico nacional voltado à educação das relações etnicorraciais no ambiente escolar, encontramos na Koralle uma parceria ímpar! Passadas inúmeras reuniões, discussões e testagens eis que surgiu a primeira caixa de giz de cera em tons de pele produzida no Brasil. Atualmente estamos em pleno processo criativo e intelectual: tanto o UNIAFRO/UFRGS segue dando continuidade às ações de formação continuada, quanto a parceria com Koralle mostra-se cada vez mais frutífera” (http://www.ufrgs.br/uniafro/nossahistoria_giz ).

A caixa de giz de cera em tons de pele foi um sucesso e inspirou outras marcas a lançarem produtos similares em diferentes formatos no Brasil. Um gesto simples, uma simples caixa de giz de cera que pode mudar o modo como nos enxergamos em diferentes espaços. Veja o vídeo da professora Gladis Kaercher, uma das idealizadoras do projeto, sobre a sua própria experiência sobre representatividade na escola.

O que pode dizer o projeto Humanae para o modo como lidamos com as diferentes cores de pele presentes na escola?

Que projetos podem surgir na escola, a partir da compreensão da cor da pele como construção social e política, além de uma questão formalista?

De que modo professores, crianças e jovens da sua escola cabem em uma caixa de lápis de cor de pele? E o que isso diz sobre representatividade?


Referências:

KAERCHER, Gládis E.P.S. Reificação da branquidade; a exaltação necessária dos incolores. IN: KAERCHER, Gládis. O mundo na caixa: gênero e raça no Programa Nacional Biblioteca da Escola – 1999. Tese de Doutorado. PPGEDU/UFRGS (p. 113 a 137)

Entrevista à Vogue: https://vogue.globo.com/Vogue-Gente/noticia/2021/08/angelica-dass-humanae.html

Site da artista: https://angelicadass.com/

Instagram @angelicadass: https://www.instagram.com/angelicadass/

A beleza do arco-íris da pele humana: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/23/cultura/1461423736_867369.html 

A professora que criou estojo de giz de cera para falar de identidade e questões raciais –  https://pt.globalvoices.org/2021/07/21/a-professora-brasileira-que-criou-estojo-de-giz-de-cera-para-falar-de-identidade-e-questoes-raciais/


Texto e pesquisa: Diane Sbardelotto, Luciana Gruppelli Loponte, Hariel Souza, Estela Böckmann dos Santos

Revisão e Edição: Hariel Souza e Luciana Gruppelli Loponte

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