Caicó-RN, 26 de maio de 2020.
Estimados(as) colegas,
Estou escrevendo para vocês porque hoje, na minha casa, percebi a cesta de bananas oxidando, escurecendo, perdendo o viço do amarelo-ouro. Nesse momento, a televisão noticia que o Presidente do Brasil foi eleito o pior líder entre todos os lideres do mundo. Clarice Lispector vive, pensei. Fui à estante de livros e peguei “A hora da estrela”. Uma obra para a qual a escritora sugeriu treze (13) títulos. Entre eles, encontramos um curioso: “A culpa é minha”. Qual a minha parcela de culpa pela morte de tantas Macabéas? Por que na imagem o capim ralo nasce entre as pedras do esgoto? Estas são questões que se justificam quando observamos a escolha do povo brasileiro nos últimos anos. Povo este que ao invés de optar pela política de promoção da vida, preferiu a necropolítica, por isso o desbotamento da bandeira nacional.
Na escola, a vida das severinas e a morte de Lampião atemorizam igualmente. Até o fantasma da cachorra Baleia cutuca o Brasil de Moreira, alertando que o país está despencando ladeira a baixo. Os educadores não aguentam mais: estão adoecidos. Os profissionais da saúde também. O descaso avança. O país está sem bola, sem samba, sem festa no asfalto. Precisamos de “brilho de aluguel” porque a estrela de Blanc foi ferida, a luta foi interrompida, sobrando apenas “manchas torturadas”. Estamos “na corda bamba sem sombrinha” e sentimos fome de arte. Migliaccio conjugou o verbo abreviar, ceifando-se. Não estamos mais conseguindo escrever. O coração de Fonseca ficou sem o sopro da vida!
Nós, daqui, estamos olhando o céu dos sertões e perdemos de vista o seu infinito azul. A hipocrisia paira sobre os ministérios. A floresta amazônica arde. Grileiros fazem a festa. Os nativos da terra são saqueados. Conteúdos de prova censurados. A bola, que estava com a namoradinha do Brasil, explodiu no ar sem ao menos bater na trave. Justo a bola daquela que vivia cheirando o “pum de palhaço”. Seu antecessor copiou uma frase nazista e o povo não perdoou. Tensão, só de pensar no seu sucessor. A COVID-19 parece menos letal que a cadeira violeta dessa secretaria. Fria é a cultura de um povo que jaz em vala comum. A borracha do Ministério da Saúde segue apagando a memória coletiva. Perecimentos coletivos. Rios de contradições.
Aqui no Rio Grande do Norte faz setenta e um (71) dias que os educadores estão confinados em casa, cumprindo medida preventiva decretada pela Governadora do Estado. O objetivo é minimizar os efeitos da pandemia decorrente do Novo Corona Vírus. O enfrentamento deste problema de saúde pública, de abrangência internacional, passa pelo desafio de nos mantermos ativos, mesmo diante da suspensão das nossas atividades laborais nas unidades de ensino. No sertão potiguar, trocamos as abrasadoras salas de aula pelas mesas das nossas casas. As camisetas e as calças jeans do uniforme escolar foram substituídas pelos pijamas curtos e largos. Nos pés, calçamos leves de dedo para o conforto, porque é excessivo falar em liberdade no Brasil contemporâneo.
Não estamos de férias, estamos em alerta porque sentimos medo de um inimigo invisível. Foi justamente o temor a este desconhecido que nos ensinou a parar diante de uma realidade cotidiana acelerada e veloz. Ficar em casa e lavar as mãos frequentemente são hábitos que tivemos que reaprender para evitar a nossa contaminação pelo vírus ou para não transmitir a outrem, caso já estejamos contaminados. Com nossas rotinas em suspensão, aprendemos a usar lenços descartáveis, a espirrar ou tossir utilizando o antebraço como resguardo e a não sair de casa sem máscara, inclusive para ir à padaria ou ao supermercado. O consumo de álcool em gel passou a ser constante e também incorporamos ao nosso vocabulário o significado de dois novos termos: isolamento social e quarentena. Nossas aprendizagens têm passado pelo respeito ao distanciamento entre pessoas (dois metros, aproximadamente) e avançaram pelo cuidado de separar e higienizar as roupas e os utensílios domésticos utilizados pelos sintomáticos e pelos diagnosticados. Nesses processos de descobertas, redescobrimos as ondas do rádio e as redes sociais e fomos obrigados a nos adaptar ao trabalho remoto. A noção de compartilhamento, cooperação, colaboração, solidariedade e participação vêm ampliando seus sentidos.
O desafio do Estado está em encontrar uma saída para aqueles educandos, e não são poucos, que não têm sequer, água em casa. Alguns deles dependem da merenda escolar para fazer uma refeição. Ainda encontramos muitas famílias que não conseguem orientar seus filhos nas atividades escolares porque são semianalfabetas. O Brasil venceu, no Governo Lula, a questão da falta de energia elétrica nas residências com o programa “Luz para todos”, entretanto, ainda não teve a coragem de encarar o problema da inclusão digital. Não se faz educação em larga escala nesse período sem inclusão digital, sem disponibilizar saberes e equipamentos para todos. Se assim não acontecer, não estamos garantindo o acesso de todos à Educação Pública em condições de igualdade. Este é só mais um ponto que contribui com a exposição, de maneira dramática, da situação educacional brasileira, pois mostra que o direito a esse bem não é para todos, mas se restringe a alguns.
Os desafios não param por aí. Quantos de nós não temos dificuldades em trabalhar com as novas tecnologias? Quantos de nós não necessitamos de ferramentas para trabalhar e o Estado não disponibiliza? Quantos de nós não nos sentimos constrangidos devido as nossas péssimas condições de trabalho dado pelo sucateamento da Educação Pública? Quantos de nós não somos assediados e cobrados exaustivamente para oferecer o atendimento remoto a todos os estudantes, sem que tenhamos formação para tanto, sem mesmo possuirmos as condições materiais necessárias para realizar o trabalho? Mais uma vez, estamos expostos e vulneráveis as críticas e não vamos deixar que isso seja usado para legitimar o discurso de alguns, que tenta nos responsabilizar pelo fracasso da Educação Pública brasileira.
A nova rotina exige de nós mudança de postura, novos planos de rotas, outros caminhos. Para fazer educação nesse momento é importante perceber que ela é uma estrutura que depende da cultura, dos saberes e dos fazeres da arte. Nessas novas aventuras veio a necessidade da reinvenção porque estamos abrigados no desaprender, no dessabido, na incerteza.
Foi justamente neste ‘não lugar’ que criamos em Caicó/RN um programa de rádio, “EJA em ação”, juntamente com a 10ª Regional de Ensino e com o apoio da Secretaria de Estado de Educação e da Fundação Educacional Santana. Desejávamos afetar os estudantes da modalidade EJA – Educação de Jovens e Adultos. O Programa está sendo transmitido diariamente pelas ondas da Rádio Rural de Caicó, emissora que opera na frequência FM 102,7 MHz. Com inspiração nos círculos de cultura criados por Paulo Freire, o programa é transmitido ao vivo pelas redes sociais e cada dia da semana um grupo de educadores é responsável pelo planejamento da programação. Os programas são criados a partir de um tema gerador e todas as áreas do conhecimento são contempladas. Nas quintas-feiras levamos ao ar o programa da área de linguagens e fazemos a mediação, do estúdio. Dois ou três convidados entram ao vivo por meio de um aplicativo e explanam sobre o tema do dia e, ao final, deixam sempre uma sugestão de atividade como desdobramento da intervenção, para o educando desenvolver em casa. Os diálogos no rádio acerca da poética dos processos de ensino e dos valores da arte e da cultura sertaneja são de grande relevância à região. O número de arte/educadores com formação específica em arte é muito pequeno nas escolas daqui. Nos programas, a arte e a cultura sempre são contempladas por meio da música, da poesia ou das discussões que abrangem questões históricas ou de cunho teórico. Os educandos participam pelo telefone ou pelas redes sociais porque compreendemos que a EJA é um canal de trocas e de descobertas sensíveis. Apostamos nessa iniciativa porque temos tradição em ouvir rádio no Seridó e uma primeira avaliação mostra que está funcionando.
Em meio a tudo isso, nós, educadores, fomos provocados a falar sobre o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM. Mas, como discorrer sobre esse exame quando lidamos com educandos de escolas públicas, sabendo que eles estão sem aulas presenciais? A pressão popular sobre o Ministério da Educação valeu a pena, pois o Governo foi obrigado a adiar o calendário do ENEM. A resistência envolveu a sociedade civil, mas também várias entidades educacionais. A União Nacional dos Estudantes – (UNE) e o Conselho Nacional de Educação – (CNE) foram entidades que se posicionaram, pois compreenderam que a manutenção do calendário do exame acarreta prejuízo para os estudantes de escolas públicas, especialmente os que são vulneráveis, socialmente. Enquanto as instituições privadas mantêm seus programas pedagógicos por meio da Educação à Distância – (EAD), com aulas virtuais e situações de aprendizagens envolvendo as novas tecnologias, nós, que fazemos a educação pública no Brasil, que conhecemos a realidade dos nossos educandos de perto, sabemos (porque os números nos mostram) que 58% dos estudantes estão sem acesso a computadores e 33% dos domicílios brasileiros sem conexão com a internet. Quando pensamos nas classes D e E os números são ainda mais cruéis, pois chegam a 70% das residências sem nenhum acesso ao mundo virtual. Portanto, ter acesso a computador e internet é uma questão delicada, seguida do espaço adequado na sua própria residência para estudar. No site “Sem aula sem ENEM” encontramos uma série de matérias que foram publicadas em grandes canais de comunicação, revelando que apenas 20% dos estudantes do nosso país estão vinculados ao ensino privado e são principalmente estes que têm o privilégio de contar com as condições ideais para se prepararem em casa para uma prova desta grandeza, como é a prova do ENEM. Outro estudo disponível no site revela que 85% das próprias secretarias estaduais e municipais de Educação não sabem como avaliar a aprendizagem durante este momento de isolamento social.
A minha rotina nessa quarentena passa pela leitura dos portais de notícias. Li que o ministro Abraham Weintraub anda fazendo “balburdia” no Ministério da Educação. Ele declarou publicamente em entrevista a um canal de televisão que não via risco de contaminação pelo coronavírus durante a realização das provas do Enem porque este exame estava previsto para acontecer em outubro e novembro de 2020. Ao falar sobre o prejuízo aos menos favorecidos, o ministro argumentou que “o ENEM não é feito para corrigir injustiças sociais, é para selecionar as melhores pessoas para serem os melhores médicos,” entre outras profissões. A resistência e a não aceitação da permanência do calendário do ENEM acontece por motivos óbvios: esse calendário favorece um grupo, o da elite econômica, em detrimento de outro, o das classes populares.
Sabemos que os artistas têm grande relevância social porque são portadores de uma ética e de uma estética fundamentais em todos os tempos e espaços. O foco de interesse deles coloca na centralidade de seus trabalhos a experiência humana, iluminando, principalmente, os nossos momentos de sombra e violência. Por isso que minhas memórias docentes nesses tempos de pandemia passam, necessariamente, pela valorização da arte e da cultura do Seridó potiguar. Reforçamos as nossas aprendizagens fruindo a produção dos artistas locais por meio das mídias sociais. O sentido de liberdade e de transgressão areja nossos sonhos, nos fazendo rever as questões mais íntimas do humano, enquanto problematizamos os nossos posicionamentos políticos. É a arte, produto laboral dos artistas, que nos tira da realidade, suspendendo a nossa existência, mesmo que momentaneamente.
Os artistas dessa região sertaneja são parceiros importantes dos arte/educadores e sempre contribuem com as unidades de ensino. Isso é mais um motivo para falarmos sobre trabalho e renda durante a pandemia. São muitos os profissionais da arte e da cultura que se encontra com suas atividades interrompidas nesse momento, por isso é tão importante as iniciativas e planos emergenciais de apoio a essa categoria. No âmbito Estadual a Fundação José Augusto lançou o edital “Tô em casa e tô na rede”, direcionado exclusivamente a artistas e agentes culturais residentes no Rio Grande do Norte que não têm renda fixa. Foram selecionados 105 projetos culturais que se destinam às plataformas digitais, atendendo uma demanda emergencial de profissionais da cultura do nosso Estado que tiveram suas atividades suspensas devido a essa pandemia. No município de Caicó, a Lei Arthur Ribas, nº 4.908/2016, que deveria ser um raio de luz e favorecer os artistas e a produção cultural, por meio de recursos advindos de incentivo fiscal, foi sufocada pelo silêncio das autoridades locais.
Vivemos uma grande contradição no Brasil e esta, certamente, servirá como marco histórico. Se por um lado o tempo da morte, da máquina, do relógio deu uma trégua no cotidiano de muita gente, abrindo espaço à subjetividade, ao demorar-se, ao deleitar-se, ficar em casa também nos fez enxergar o tamanho da crise ética em que passa a política. Diante disso, remeto-me ao pensamento de Galeano, quando ele assegura: “na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre”. E o povo está morrendo, literalmente, todos os dias no Brasil, aos milhares.
O silêncio da morte vem provocando um esgarçamento nas minhas construções formativas e profissionais. É muito difícil vislumbrar possibilidades de coser os buracos provocados pelo capital com a linha azul e rosa do horizonte. O cenário é nefasto. Mas é preciso seguir firme, mesmo sabendo que “viver não é preciso”. Sei da importância de educar o outro, de ensinar o outro a olhar, de despertar no outro o sensível dentro de si mesmo. Ao mesmo tempo, preciso (re)educar-me, depurar minha sensibilidade para seguir caminhando, aprendendo o caminho em curso, com os demais. É fundamental para o coletivo adquirir a tão sonhada consciência cósmica, planetária, universal, se desejamos sobreviver.
É possível continuar nutrindo os sonhos artistas/docentes mesmo em tempos de opressão e perigo, pois isso renova, intimamente, os “sonhos possíveis”, como diria Paulo Freire. Poetizando, sigo em busca das utopias que sejam capazes de me fazer “pro-jetar”, lançando-me adiante, na busca, no inacabamento, no desconhecido. As certezas deixam de ser confortáveis e já não servem mais. Assim, continuarei aprendendo/ensinando/aprendendo e, também, propagando, difundido, socializando novos saberes para que sejam construídos conhecimentos que nos tragam esperança, do verbo “esperançar”, esperar na ação. Creio que o mestre pernambucano, que viveu o horror da ditadura militar no Brasil, perceberia facilmente nesses tempos de censura, ataque, morte, o desbotamento do verde da nossa bandeira.
Prezados(as) colegas, sabemos que a arte reaviva o colorido da vida porque ela carrega em si a liberdade e a transgressão, mas também uma ética e uma estética que são fundamentais à sobrevivência humana. Nesse contexto social/sanitário atual, o artista/educador se vale dessa ética e dessa estética para tentar ilumina a vida de todos e todas com a sua palavra, o seu posicionamento político e o seu fazer poético. Avante!
Por Valentim, Mestre em Artes Visuais (UFPB/UFPE), professor em Caicó/RN, ganhador do XX Prêmio Arte na Escola 2019, modalidade EJA. E-mail: valentim8@yahoo.com.br
Fonte: http://10direccaico.blogspot.com/

