Doutor Empreendedor contempla projeto para otimizar gestão de dados na indústria

Objetivo da Latos, empresa incubada na Hestia, é desenvolver uma plataforma que funcione como um modelo que possa ser empregado para diferentes cenários.

Andressa é doutora em Engenharia Química pela UFRGS - Foto: Arquivo pessoal

Andressa Apio, doutora em Engenharia Química pela UFRGS, foi uma das 20 contempladas pelo edital Doutor Empreendedor da FAPERGS, com a proposta “Sistema de desenvolvimento de sensores virtuais e reconciliadores de dados industriais baseado em módulos”. Uma das fundadoras da Latos, empresa de Tecnologia da Informação, Andressa explica que a iniciativa visa “aumentar a eficiência da indústria usando inteligência artificial e o manuseio de grandes volumes de dados”. Hoje a Latos usa solução customizada, avaliando cada caso específico, que é o que existe no mercado brasileiro. Com o financiamento do Doutor Empreendedor, a empresa busca desenvolver uma plataforma que funcione como um padrão, um modelo, que possa ser empregado para diferentes cenários. “O foco é o sensor virtual. Se um sensor de temperatura, por exemplo, falha, será possível utilizar outros dados para avaliar a questão”, explica.

O tema da proposta está ligado ao doutorado de Andressa, recém concluído. Intitulado ‘Estimação de parâmetros em tempo real através de filtro de Kalman com janela robusta suavizante e estimadores de estados não lineares’, também trata de uso de dados na indústria, mas, como todo salto da pesquisa para o mercado, precisou de adaptações para uma nova lógica, explica. “No doutorado fui bolsista na Petrobras e usava solução customizada, mas já encontrei empresas, a própria Petrobras inclusa, que tinha interesse em novas formas de lidar com essas informações. Como o doutorado é um trabalho acadêmico, foi preciso usar uma metodologia matemática, que não faz tanto sentido no mercado. Agora com a bolsa queremos criar uma plataforma que torne mais rápida e barata a solução de problemas”.

Salto para o mercado

A transição da pesquisa para empreendimento começa muito antes da fundação de uma empresa. Começa na mudança de perspectiva. Para Andressa, a virada teve início quando ingressou no grupo de pesquisa GIMSCOP/UFRGS (Group of Intensification, Modeling, Simulation, Control and optimization of Processes), onde fez o mestrado e o doutorado. “É difícil saber o que fazer quando se termina a graduação. Eu queria ser professora, mas quando ingressei no GP tive muito incentivo dos professores e do meu orientador para me voltar ao empreendedorismo”.

O surgimento da Latos acabou solucionando um problema que Andressa identificou ao aproximar-se do fim da formação. “Hoje tem muito doutor se formando, não tem como a academia absorver todo esse pessoal. Como tivemos contato com a indústria, pensamos agora em arriscar, sair da zona de conforto e tentar colocar no mercado o que aprendemos no doutorado. Mas foi difícil o salto para o empreendedorismo”.

Quando Jônathan Dambros, colega de Andressa no doutorado, venceu uma competição promovida por uma grande empresa do ramo industrial gaúcho usando inteligência artificial, Andressa propôs a participação na Semana do Empreendedorismo. E o processo culminou com a criação, oficializada em outubro do ano passado, da Latos. Em fevereiro de 2020, mais um passo foi dado: a Latos passou a fazer parte da Hestia, uma das incubadoras da UFRGS. Só um mês depois, as restrições sociais impostas pela pandemia de covid-19 frearam as atividades, mas o curto período já foi suficiente para ver a importância da experiência. O espaço de trabalho compartilhado fica no centro de Porto Alegre e une empresas incubadas e pré-incubadas, facilitando a criação de rede de contatos, além de fornecer a estrutura de trabalho. “Quando produzimos a primeira proposta para um grande cliente, nem sabíamos fazer. Mas tivemos ajuda na construção do projeto, e fomos aprovados”, conta Andressa. “Mesmo nesta época de restrição, faz toda a diferença estar incubado na Héstia. Temos monitoria, reuniões e cursos à distância”.

Exemplo

A relação dos projetos selecionados na primeira turma do Doutor Empreendedor conta com 15 nomes femininos entre os 20 contemplados. Um panorama que anima Andressa ao notar como a presença feminina foi exceção na trajetória dentro da universidade. “Acho muito bom que tenhamos várias mulheres escolhidas pelo Doutor Empreendedor. Tenho a impressão de que as pessoas têm uma certa desconfiança quando a empresária ou diretora de uma companhia é mulher. Geralmente já pensam que é homem nessas posições. Eu tive poucas colegas mulheres desde a graduação, ainda mais que a área de tecnologia da informação é tradicionalmente masculina”, conta.

A possibilidade de ser um exemplo para futuras estudantes e empreendedoras está no horizonte de Andressa. “Espero um dia ser chamada a conversar com outras meninas que queiram ingressar na área, acho que é um incentivo importante. Eu não tive muitas figuras femininas a me espelhar, mas vejo, por exemplo, a professora Daniela Brauner como uma mulher bem-sucedida na área. Além de doutora em Informática, é coordenadora da rede de incubadora da UFRGS. A gente precisa mostrar que é séria e entende da área”, completa.