Mulheres instrumentistas contam suas histórias com música, festa e barulho

Cultura | Discussões sobre as questões de gênero abrem espaço para que elas ocupem novos espaços na cena musical

*Por: Anna Ortega
*Foto de capa:

“Eu vou contar, eu vou contar. Eu vou dizer. Eu vou escrever uma outra história. O que acontece quando eu vou ou me falam de um show, um lugar ou um evento? Eu conto.” O trecho é da canção Eu Vou Contar, da artista e professora do Instituto de Artes da UFRGS Isabel Nogueira, e fala sobre esse corriqueiro ato – para mulheres – de contar entre quantas estiverem nos espaços. No caso dos palcos, já foi uma tarefa que se resolvia com os dedos de uma das mãos, mas esse cenário vem se transformando.

Nos ambientes da música, assim como nos de outras artes, alguns lugares foram considerados mais adequados para a presença das mulheres ao longo da história. E o do instrumento, fora do ambiente doméstico, nunca foi um desses lugares. A ausência na cena, porém, não era nem nunca foi a inexistência de mulheres nessas funções. “Não quer dizer que não existiam, pois sempre existiram instrumentistas. Mas elas não estão entre os cânones aceitos para uma pessoa desenvolver o seu trabalho”, explica Isabel, pesquisadora das questões de gênero na música. 

Além de verificar em quais espaços estão, pensar sobre as mulheres instrumentistas é observar também que sempre houve limitações (não ditas, mas existentes) no sentido de onde deveriam se posicionar caso estivessem presentes no palco, na cena musical. Dentre as atuações possíveis, estavam as de intérpretes e educadoras. “A Lucy Green, uma pesquisadora com quem trabalho muito, coloca a música como um campo generificado, em que algumas funções era mais próprias para mulheres que outras. Instrumentistas, improvisadoras, compositoras e pessoas que lidam com tecnologia sempre foram menos bem-vistas”, explica a pesquisadora.

A possibilidade de ser muitas 
Graduada do curso de Música Popular do Instituto de Artes da UFRGS, Be Smidt é instrumentista, cantora e produtora musical. Lançou em 2019 seu primeiro projeto autoral, o Viridiana, em que trabalha com a tecnologia como experimentação e lugar de contação das próprias histórias através da música (Foto: Flávio Dutra/JU) 

“Quando eu penso em mulheres instrumentistas, eu penso: que amplo! E que legal que é assim”, diz Bê Smidt, produtora musical, cantora e compositora. A possibilidade de serem muitas, no que se refere tanto ao coletivo de musicistas quanto às possibilidades individuais de cada uma, é um dos aspectos fundamentais de se pensar nessa temática. “Para mim, pensar as mulheres instrumentistas, musicistas tem muito a dimensão da narrativa pessoal. No meu caso, é a de gênero, de pessoa trans, mas cada pessoa vai encontrar o seu rosto, a sua forma, o seu corpo”, explica a artista graduada em Música Popular pela UFRGS. 

O lugar do corpo é, para Bê, indissociável do lugar da performance, do instrumento. A narrativa pessoal que se conta a partir da música passa pela voz, pelo corpo presente, e essa relação foi fundamental para a história dela enquanto artista e pessoa no mundo.

“Pela música eu consigo reinterpretar o meu corpo. Para mim, produzir musicalmente se tornou um lugar muito plástico, moldável, dobrável e, assim, eu pude conhecer todas as formas em que eu podia existir”

Bê Smidt

“Em um primeiro momento da minha trajetória, eu escutava o descontentamento com o meu corpo quando eu cantava, no sentido de não querer que a minha voz fosse assim. É o que chamamos de disforia – um termo para significar a sensação ruim de se sentir no corpo errado. E quando eu comecei a gravar a minha voz eu sentia isso”, explica. Foi na intersecção entre música e tecnologias que Bê encontrou outra potência e uma possibilidade de reinvenção dessa historia e da sensação que tinha em relação à voz. 

A utilização de softwares e manipulações sonoras digitais é um campo que cada vez mais encontra espaço na música. No trabalho de Bê, que recentemente lançou seu primeiro projeto autoral, a escolha da tecnologia como suporte é uma forma de experimentação, pois, diferente de um estúdio formal em que é preciso saber exatamente o que será gravado, a produção acontece dentro de casa. Além disso, a tecnologia é uma forma de emancipação, pois permite às artistas gravarem, mixarem, editarem e lançarem as próprias produções.

“O processo com a tecnologia permite não saber onde se vai chegar, permite experimentar timbres, vozes. É o processo como algo mais fluido. Também tem algo muito significativo que é a de que tu pode ser dona do teu próprio processo de um jeito muito especial, abrindo um novo jeito de pensar como a gente produz”

Bê Smidt
Um lugar seguro para experimentação 
Cantora, compositora e percussionista, Dessa Ferreira é liderança do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras – Marielle Franco é uma das fundadoras do grupo Três Marias. Também foi idealizadora do Ngoma – núcleo de vivência em percussão e do Coletivo Pretambor, projeto realizado no Centro Cultural da UFRGS em 2019 (Foto: Capa Single – Arquivo Pessoal/Andre Luis Ferreirah)

Por mais diferentes que sejam as reuniões de mulheres instrumentistas, há algo em comum quando elas se encontram: a liberdade para experimentar. É o que Luciana Prass, professora do Instituto de Artes da UFRGS e também instrumentista, percebeu no Coletivo Gurias do IA. Coordenado por Luciana ao lado da professora Caroline Abreu, o coletivo reuniu estudantes dos cursos de música para tocarem juntas. “Grupos como o nosso proporcionam uma afetividade e um suporte muito fundamentais. Porque, quando tu tocava em uma banda só de homens, acontecia um receio de mostrar composições próprias, por exemplo.” A professora conta que o que acontece nesses encontros é diferente, pois surge uma rede de apoio. Mesmo quando não estão seguras, o movimento é de suporte e de incentivo, o que permite um despertar maior da criatividade e das potências de cada uma e do grupo. 

O lugar historicamente recusado às instrumentistas deixa marcas que geralmente incidem na criatividade e na própria liberdade do criar. “Às vezes, a gente como mulher precisa se apresentar duas vezes melhor naquilo que faz para poder estar nos espaços, nesses lugares que são violentos, de disputas de egos. E nisso a gente perde algumas coisas que são especiais, que a gente tem, que são únicas. Às vezes a gente se endurece para fazer esse enfrentamento”, assinala Luciana.

Nesse sentido, surge a oportunidade de se distanciar dos modelos de opressão em que as mulheres da música foram colocadas. Para Dessa Ferreira – cantora, percussionista e bacharel em música popular pelo Instituto de Artes da UFRGS -, a reivindicação não é pelos mesmos lugares, mas por lugares próprios. “Quantas vezes já não ouvimos que tocamos melhor que muito homem ou, então, que tocamos que nem homens. É o pior elogio que se pode fazer – e quem faz acha que está elogiando mesmo. E isso não ouvi ano passado ou anos atrás, ouvi esta semana. É muito comum”, conta. E complementa: “Por muito tempo tentamos nos equiparar. Até mesmo no repertorio. Hoje eu busco ativamente ouvir mais mulheres, mulheres negras, mulheres indígenas, no sentido inclusive de afirmar para mim mesma. Quando me disserem que não existimos, posso mostrar essa lista imensa”.

De acordo com a instrumentista, a sociedade tenta engessar os padrões sociais que passam pelo gênero e pela raça e que bloqueiam a própria criação das mulheres. A invisibilidade (ou a não escuta) das mulheres nos instrumentos nunca disse respeito à capacidade que tinham, mas a um medo da potência que podiam expressar.  

“Eu diria às mulheres para tentarem acessar essa criança que existe dentro delas quando estão tocando. Acessar essa liberdade. Claro que não tem como a gente se livrar de todas as construções, mas essa liberdade já traz uma verdade. Eu diria para tentar encontrar o que pulsa mais visceralmente na gente, ir além das estruturas, tentar encontrar sua voz, seu timbre. Isso é uma pesquisa e é uma pesquisa da vida inteira” 

Dessa Ferreira
Uma mistura de casa, palco e festa
Isabel Nogueira é musicóloga, performer, produtora e compositora. Docente no Instituto de Artes da UFRGS, foi responsável pela criação da disciplina de Gênero e Música e é coordenadora do Sônicas: Grupo de Pesquisa em Estudos de Gênero, Corpo e Música (Foto: Flávio Dutra/JU)

Foi pensando numa mistura de casa, palco e festa que a curadoria do Unimúsica, projeto musical promovido pelo Departamento de Difusão Cultural da UFRGS (DDC), decidiu realizar a edição deste ano inteiramente dedicada às mulheres que tocam. Intitulado Forrobodó, palavra que em sua origem evoca a ideia de festa popular, o festival convidou um grupo de 25 mulheres para tocarem ao longo de cinco noites.

Os encontros acontecem de forma virtual de 14 a 18 de setembro pelas plataformas do DDC, dialogam com o que Isabel Nogueira trouxe em “Eu Vou Contar” e mostram que são incontáveis as mulheres instrumentistas. Incontáveis em números mas também em histórias e diversidades. “Quando iniciamos o levantamento de nomes possíveis para o Festival, percebemos que é uma lista que não tem fim. A gente poderia ter feito mil combinações e continuar fazendo outras mil combinações com esse Forrobodó”, conta Ligia Petrucci, coordenadora do Unimúsica e uma das curadoras da edição. 

As instrumentistas, cada uma em sua casa, tocarão de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de Buenos Aires, de Chicago e de outros lugares ao redor do globo. A impossibilidade dos tradicionais concertos no Salão de Atos levaram o projeto a pensar em uma edição em que muitas localidades poderão se encontrar simultaneamente. “Ao buscar essas 25 instrumentistas, procuramos conscientemente uma diversidade de instrumentação e de trajetórias. A maioria é multi-instrumentista, compositora, improvisadora, cantora. Atuam em muitas vertentes”, justifica a curadora. 

Essa mesma ideia de honrar tantas diversidades e de mostrar que as mulheres instrumentistas são múltiplas foi o que despertou em Ana Fridman, docente do Instituto de Artes da UFRGS e também curadora do Forrobodó, a vontade de provocar as convidadas a trabalharem em um mesmo arranjo – além das performances individuais que realizarão. Ana propôs às 25 mulheres, agrupadas em cinco por noite, que improvisassem a partir da obra Porto das Flores, da violonista Rosinha de Valença. Fridman apresentou a base musical para todas, que ficaram livres para criar autonomamente a partir dali. Se quisessem, podiam, inclusive, conversar com as mulheres com as quais dividem a noite do concerto para compartilhar a experimentação.

“O resultado musical é muito diferente de uma noite para outra. O público vai ouvir durante as cinco noites a mesma música, mas em versões completamente diferentes, cheias de surpresas, tanto para quem vai assistir quanto para as instrumentistas”

Ana Fridman

A proposição é, ao mesmo tempo, uma celebração da individualidade de cada uma e uma homenagem à Rosinha, musicista nascida nos anos 40. Os concertos em formato de lives se tornam, então, uma grande homenagem às mulheres que tocam e que já tocaram, transformando a casa de cada uma das 25 convidadas em um palco e, simultaneamente, em uma festa.