Artigo | Bacharel em Design de Produtos, João Victor Kozerski apresenta as etapas de criação e as motivações que embasam o desenvolvimento de linha de móveis
*Ilustração: Bruna Corrêa/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
No contexto atual de rápidas transições entre imaterial e material, o design se torna uma ferramenta para identificar o que é digno de ser materializado ou materializar aquilo que importa para um determinado público. Ele age refinando as ideias e agregando valor aos produtos, evitando que sejam descartáveis ou apenas mais uns entre tantos. Nesse sentido, o Trabalho de Conclusão de Curso em Design de Produto que deu origem a este artigo propôs uma aplicação dos conhecimentos em design para impactar positivamente o desenvolvimento de produtos de uma empresa familiar, materializando e registrando sua história.
A empresa escolhida foi a Marcenaria Kozerski. Estabelecida na cidade de Santa Helena, no oeste do Paraná, produz móveis, esquadrias e artesanatos em madeira e derivados há 67 anos. Sua história começou quando Argemiro e Hedviges Kozerski, junto de três filhos pequenos, foram a terceira família a chegar na então inexistente cidade, aproximadamente a 100 km de Foz do Iguaçu. Com os seus serviços, tiveram expressiva contribuição para o desenvolvimento econômico e social da região. Sua história marcada pelo pioneirismo e grande contribuição para a sociedade merecia, portanto, ser materializada e transmitida de forma digna pela sua produção.
Com exceção de máquinas automatizadas por computador, a empresa possui todo o maquinário necessário para trabalhar com madeira, com uma confecção mais tradicional. Na região, são reconhecidos pelo trabalho com madeira de demolição, que é aquela reaproveitada de construções civis, como casas, barracões e ferrovias, ou objetos antigos, como baús e armários. Por serem mais antigas, essas madeiras podem ser de espécies atualmente protegidas, o que as torna mais raras e valorizadas, além de possuírem ótima propriedade mecânica e carregarem consigo história e significado. Desse modo, identificou-se uma oportunidade de criação de produtos autorais, com design próprio e autêntico, explorando esse material.
A cadeira foi escolhida por ser um tipo de produto já trabalhado pela marcenaria, ainda que de maneira tímida, e principalmente por sua importância, que se mostra na sua constante presença em nossas vidas. Afinal, passamos grande parte do nosso dia a dia sentados. Tamanha é sua relevância que o termo é até utilizado como metáfora para posição, espaço ocupado e papel social.
Assim, para fundamentar o trabalho, foram estudados os principais momentos da história evolutiva das cadeiras, as propriedades da madeira e os processos de produção utilizados na fabricação de móveis, os aspectos ergonômicos pertinentes ao ato de sentar e a relação entre design e semiótica, para ajudar na compreensão de como funciona a atribuição de significados.

Já o processo de criação seguiu uma metodologia controlada, utilizando o passo a passo criado por Stella Lisboa Sapper em sua dissertação de Mestrado em Design, concluído em 2015 na UFRGS, que aborda a transposição dos requisitos estéticos e simbólicos em aspectos formais do produto. O processo foi dividido em cinco etapas: Identificação, Representação, Relação, Geração e Seleção. Passando por cada uma delas, o conceito do produto foi sendo desenvolvido, utilizando-se de diferentes ferramentas criativas, desde entrevistas com os familiares, brainstorming, analogias e painéis de imagens de referência a esboços livres e conversas com especialistas; um extenso trabalho criativo, próprio da criação de um produto autoral, pensado em detalhes.
Dessa forma, foram criadas 4 variações para o item principal (a cadeira com e sem braço, ambas de assento estofado ou não), uma mesa e dois bancos. Prestando homenagem a Hedviges e Argemiro Kozerski, o conjunto foi batizado Princípio, em referência ao pioneirismo do casal ao chegar à região onde estabeleceram sua família e empresa no princípio de tudo.
Como protagonista, a cadeira busca mesclar as características de ambos os homenageados: linhas retas, formas triangulares e anguladas para Argemiro, e superfícies curvas e em cruz para Hedviges. Sua estrutura é inteiramente de madeira de demolição, e o espaldar é formado a partir de cordas de algodão trançado de 6mm de espessura. A união das peças foi pensada para não deixar parafusos aparentes, sendo feita com espigas e encaixes. O espaldar em corda, enrolado manualmente ao redor das laterais e hastes centrais da cadeira, e preso à própria estrutura pela tensão gerada, remete às tradicionais cadeiras de palhas ou fibras trançadas e à costura que Hedviges costumava exercer como profissão. Assim, da junção das duas funções, marcenaria e costura, nascem os frutos da família.
Para validar a criação, foram confeccionados dois protótipos em canafístula, madeira de demolição dura de cor avermelhada. A fábrica se encarregou da estrutura de madeira, executada sem dificuldade. Após receberem acabamento, elas foram enviadas para o autor, que as finalizou com o trançado da corda.
O apelo comercial dos produtos, no entanto, não se dá apenas aos familiares. Tais figuras, histórias e princípios de vida serviram de inspiração para o desenvolvimento, mas a coleção se propõe, de modo geral, a valorizar as tradições, a união familiar, a sustentabilidade e a história. O tampo da mesa, por exemplo, simboliza o encontro dos familiares, que se reúnem para realizar refeições e celebrar, vindos de longas distâncias. Ao utilizarem madeira de demolição, os produtos contribuem para um uso mais consciente da matéria-prima, dando uma nova utilidade a um material anteriormente extraído e descartado.
Com esses princípios, esta configura-se, oficialmente, como a primeira linha de design autoral da Marcenaria Kozerski. Mantendo sua identidade e valorizando seu diferencial, que é o material, produtos assim podem atrair novos clientes e/ou novos olhares de já conhecidos, expandindo as possibilidades de negócio para a empresa. Por fim, a Coleção Princípio também é a primeira do autor, e marca, portanto, o princípio de sua nova história como designer de produtos.

João Victor Kozerski é bacharel em Design de Produto pela UFRGS.
O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado por Fabiano de Vargas Scherer.
As opiniões expressas nos textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.





