Espaço da Reitoria | Marcia Barbosa e Pedro Costa, reitora e vice-reitor, defendem que a criação de um câmpus na Serra possibilitará à Universidade ampliar a captação de recursos por meio da interação com empresas e setor público da região
*Foto: Excerto do mural “As Profissões”, de Aldo Locatelli (1958), exposto na Sala do Conselho Universitário , na Reitoria da UFRGS
No primeiro semestre de 2024, o Governo Federal anunciou, pela primeira vez, um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) voltado exclusivamente à educação, com previsão de ações para a consolidação e a expansão da educação superior e dos hospitais universitários. Entre os novos câmpus previstos para atender a regiões com baixa densidade de vagas públicas, foi incluída a criação de um câmpus na Serra Gaúcha, região que há décadas reivindica a presença de uma universidade pública federal.
Para esse câmpus, o programa destina recursos financeiros, vagas para docentes e técnicos administrativos em educação, além de cargos de gestão. Esses recursos estão disponíveis exclusivamente para os novos câmpus via PAC Expansão, e a adesão ao projeto abre também a possibilidade concreta de acesso aos recursos do PAC Consolidação, eixo do programa voltado à melhoria e à qualificação das atividades da sede da UFRGS, em Porto Alegre. A universidade foi provocada pelo MEC a implementar esse novo câmpus, dada sua reconhecida capacidade técnica e institucional.
Em consonância com sua tradição de excelência acadêmica, a UFRGS conduziu o processo interno de análise de viabilidade do projeto por meio de uma comissão especialmente designada, que avaliou, de forma criteriosa, os desafios e as oportunidades. Apesar da cobrança do MEC por celeridade e da grande expectativa da região, a Reitoria assegurou o tempo necessário para que a comissão realizasse uma análise fundamentada em evidências sobre o perfil dos jovens, o mercado de trabalho, as possibilidades de espaços físicos e as demandas locais. O trabalho envolveu visitas técnicas, audiências públicas e reuniões com representantes dos setores público e privado.
A construção de um câmpus não pode ser uma abstração teórica: deve nascer da interação com a comunidade e se orientar pela responsabilidade e pela competência técnica.
O estudo demonstrou que a Serra Gaúcha é uma região caracterizada por forte presença de jovens trabalhadores e por setores industrial, agrícola, de serviços e público com elevada empregabilidade. Além da demanda por vagas públicas de graduação, ficou evidente a necessidade de oferta de programas de pós-graduação, pesquisa e extensão, áreas nas quais as interações acadêmicas têm potencial para gerar resultados expressivos.
A comunidade universitária apresentou, de forma legítima, preocupações quanto aos desafios e às implicações do projeto nas atividades atuais da instituição. Essas manifestações foram fundamentais para qualificar a proposta e subsidiar as negociações com o MEC, resultando em garantias adicionais para a execução do projeto.
Um dos receios manifestados pela comunidade refere-se à possibilidade de o orçamento da Universidade, nos próximos anos, não comportar o custeio dos dois câmpus já existentes e do novo câmpus. Em 2025, contudo, a atual gestão demonstrou sua capacidade de enfrentamento orçamentário ao recuperar, junto ao MEC, os 8,5 milhões de reais que haviam sido suprimidos pelo Congresso Nacional. Além disso, há mais de um ano, a UFRGS vem apresentando ao Governo Federal estudos detalhados de projeção de necessidades de pessoal, custeio e investimento, obtendo garantias do MEC para assegurar que a expansão não comprometa as atividades atuais da instituição.
A construção de um câmpus na Serra não representa apenas gastos, mas uma oportunidade de ampliar a captação de recursos próprios por meio da interação com empresas e com o setor público da região. Fortalece o posicionamento institucional da Universidade junto ao Governo Federal, criando condições para pleitear, mediante a apresentação de bons projetos, novos investimentos no âmbito do PAC Consolidação. Tais recursos são fundamentais para a manutenção e a qualificação dos câmpus de Porto Alegre, para a ampliação da assistência estudantil e para o desenvolvimento de novas ações acadêmicas e administrativas indispensáveis ao pleno funcionamento da UFRGS.
O projeto não é uma iniciativa teórica. Conta com expressivo apoio dos setores público e privado da Serra Gaúcha, evidenciado por mais de vinte cartas de apoio provenientes de diferentes segmentos regionais. Nesta sexta-feira, o Conselho Universitário (Consun) apreciará a proposta de criação do Câmpus da UFRGS na Serra Gaúcha, após amplo processo de discussão em todas as unidades e os câmpus da Universidade.
Após eventual aprovação pelo Consun, as propostas de cursos, calendário e processos seletivos serão encaminhadas e analisadas pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE), conforme disposto no Estatuto e no Regimento da UFRGS. A partir daí, a Administração Central, em seu papel executivo, conduzirá as definições relativas ao espaço físico, à ocupação das vagas de docentes e técnicos e ao início das atividades acadêmicas na Serra Gaúcha, exercendo plenamente a autonomia que lhe foi conferida pela comunidade universitária.
Este é um momento singular para a UFRGS, tanto pelo desafio quanto pela oportunidade de, mais uma vez, contribuir para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul e reafirmar seu papel histórico, grandioso, altivo e socialmente comprometido.
Marcia Barbosa é reitora da UFRGS.
Pedro Costa é vice-reitor da UFRGS.



