Martha Medeiros: “Escrever, para mim, foi uma maneira de organizar o meu eu interno e silencioso”

Entrevista | Patrona da Feira do Livro de Porto Alegre analisa sua trajetória e conta sobre sua relação com a escrita

*Foto: Flávio Dutra/JU

Entre coletâneas de poemas e crônicas, guias e relatos de viagem, romances, novelas e contos, a escritora Martha Medeiros já contabiliza mais de 30 livros publicados. Em 2025, mesmo ano em que completa 40 anos do lançamento de seu primeiro livro, ela é a patrona da 71.ª Feira do Livro de Porto Alegre. 

Natural da capital gaúcha, Martha é formada em Comunicação Social e iniciou sua carreira na área de publicidade e propaganda. Ela passou a atuar integralmente como escritora após consolidar seu espaço no meio literário. 

Em entrevista ao JU, a escritora conta como está sendo ocupar o espaço de patrona e sobre a relação dela com a escrita, os leitores e a feira ao longo dos anos.

Em 71 edições da Feira do Livro de Porto Alegre, essa é a nona vez que uma mulher é patrona do evento. Antes de 2010, apenas três mulheres haviam exercido essa função. Como você percebe a importância, tanto para a literatura quanto para os leitores, de ter mulheres ocupando esse espaço?
Eu acho muito bacana que as mulheres estejam ocupando esse espaço do patronato da feira. E não só esse, eu acho importante que a gente tenha representatividade em todos os setores da sociedade. Em se tratando especificamente da feira, é natural: 71 edições, nove patronas, é certo que a gente precisa equalizar isso e acho que a caminhada começou. Há muitas mulheres talentosas que merecem esse mesmo prestígio, essa mesma visibilidade, e isso é muito bom para os leitores também, que acabam conhecendo mais a obra de mulheres. Tem muitas mulheres escritoras fazendo um trabalho espetacular. O mercado editorial está muito aquecido também em função da presença da literatura feminina. Acho, então, que o movimento como um todo é muito positivo.

Como foi para você receber o convite para ser patrona?
Eu me senti muito orgulhosa. Não podia ter vindo no momento mais apropriado, porque 2025 é o ano em que eu celebro 40 anos de literatura. Eu publiquei meu primeiro livro, Strip-Tease, em 1985. Era um livro de poemas, e desde lá eu estive muito presente na vida dos meus leitores. Já publiquei mais de 30 livros e várias coletâneas e, dentro desses 40 anos, mais de 30 também são dedicados à coluna de jornal tanto na Zero Hora quanto em O Globo. Eu nunca pausei, não sou, portanto, uma ‘autora bissexta’ – ao contrário, tô sempre publicando, lançando livros e com presença semanal nos jornais há tantos e tantos anos.

Ter recebido esse convite, então, de certa forma, me fez sentir gratificada pelo trabalho feito até aqui. Me senti reconhecida. Também acho que é uma grande oportunidade de retribuir aos meus leitores, incentivando a literatura, falando sobre a importância do livro. Foi muito bacana, e eu espero estar à altura desse papel.

Você nasceu e cresceu em Porto Alegre. Como era a sua relação com a feira do livro antes de se tornar escritora?
Eu sempre gostei muito de livros, desde criança. A minha relação com a feira, assim, sempre foi de muita expectativa. Eu nunca fui muito de parque de diversões, de circo. Claro, eu frequentava, eu ia com a minha família, mas a feira dialogava comigo de outra maneira. Era realmente o lugar em que eu me sentia excitada por estar cercada de tantas oportunidades de leitura. Estar num lugar repleto de livros, numa praça ao ar livre: para mim aquilo já era realmente um evento. E era só uma vez por ano, então eu aguardava com muita ansiedade o momento de visitar a feira.

Quando estudante, já um pouco maior, eu ia a pé até a Praça da Alfândega com amigas, com colegas do colégio e já levava ali um dinheirinho que eu separava da mesada – na época eu nem trabalhava – para comprar o que eu queria. Sempre foi um momento de muita felicidade e admiração.

E o que é louco: nunca na minha vida imaginei que eu teria outro tipo de relação que não a de cliente, de frequentadora, mas como consumidora de livros. Depois houve essa virada de chave, em que eu começo a escrever meus próprios livros e a lançá-los na própria feira, tudo ficou ainda mais mágico.

E como passou a ser a sua relação com a feira após a publicação dos livros?
Pois é, aí entra essa virada de chave. Quando eu lancei meu primeiro livro de poemas, eu achei que ia ser filho único, que eu não ia ter uma carreira literária. Achei que eu ia publicar uma coisa ou outra em paralelo à minha profissão, que na época era a de publicitária. Imaginei que aquilo ali ia ser uma oportunidade de eu estar do outro lado do balcão, sentada e recebendo os leitores.

Claro que tudo isso começou de forma muito tímida, eu não tinha um público leitor. Tinha os amigos que me liam e uma que outra pessoa que começou a conhecer o meu trabalho, mas foi tudo realmente muito devagar. Aí eu publiquei uns quatro ou cinco livros de poesia e, dentro da cidade [Porto Alegre], comecei a ficar conhecida em razão desses poemas.

O que realmente começou a ficar maior e a me dar mais projeção foi quando, em 1994, eu comecei a escrever para a Zero Hora. A crônica, pela característica de ser uma publicação mais constante e, portanto, de criar um vínculo com o leitor, faz com que as pessoas conheçam mais o teu nome, e daqui a pouco já estão até esperando a próxima. A relação com o leitor passa a ser mais íntima, se é que a gente pode dizer isso de escritor e leitor. Eu acredito – sendo uma relação a dois, por mais que sejamos lidos por muita gente – que cada leitor acaba criando um vínculo contigo.

E [depois disso] eu vou para feira e, daí, sim, começam a ter filas maiores, pessoas do interior que vêm também. Tem mais um outro momento, que é quando eu começo a escrever para fora do Rio Grande do Sul e a ter textos meus adaptados para teatro e com atores e atrizes de projeção nacional. Aí o meu nome começa, realmente, a aparecer mais. E, com o trabalho crescendo, as filas também crescem. Os últimos anos foram impressionantes, a receptividade do público na feira é comovente. Mas é importante dizer que essas coisas não são de uma hora para outra.

Tudo isso é a construção de uma carreira e que sempre teve na Feira do Livro o seu grande momento.

O que te motivou a começar a escrever?
Eu sempre gostei de ler e de escrever. Escrever para mim não era um processo sofrido como para muita gente é, os meus textos saíam com muita naturalidade. Então, eu, desde garota, escrevia diários, que eram uma forma de eu colocar para fora as minhas ideias, os meus sentimentos. Naquela época, era um diálogo comigo mesma por escrito, quase terapêutico, pra me conhecer melhor.

Depois cresci, me tornei publicitária, que também trabalhava com a escrita. Como redatora a serviço de um cliente, eu ainda não estava falando por mim, mas era o texto que vendia liquidificador, vendia a matrícula em cursinho, enfim, mas ali já começo a ganhar dinheiro e a buscar minha independência pela escrita.

Mais adiante, aqueles textos lá de trás, dos diários, começam a se tornar poemas, e eu adentro a literatura. Mas, volto a dizer, não foi de caso pensado. Eu até tinha certa fascinação pelo mundo literário; eu imaginava que devia ser realmente muito legal ser escritora, mas não conseguia colocar isso muito dentro da minha realidade. Eu tinha isso mais como uma fantasia. De repente, começo a escrever poemas e ser editada.

Ainda nesse momento, eu penso assim: tá, tudo bem, eu sou uma publicitária que tem como hobby a poesia e estava me dando por muito feliz em ter essa atividade paralela. Mas depois começo a escrever crônicas e a vir as coletâneas, e aí eu vejo que realmente uma carreira estava sendo construída dentro da literatura. Mas o que me fez ir para a escrita é uma necessidade de me organizar em palavras.

Eu acho que os sentimentos e os pensamentos da gente são muito fluidos, muito enroscados, muito misturados dentro da gente. Às vezes a gente não consegue se compreender ou se escutar com clareza. Então, eu acho que escrever, para mim, foi uma maneira de organizar o meu eu interno e silencioso, dar a ele uma visibilidade. 

Atualmente, o que te motiva a continuar escrevendo e produzindo literatura?
Bom, agora eu vou em frente porque essa é a profissão que eu tenho, estruturei minha vida em torno da literatura, a vida profissional agora está completamente vinculada à literatura e me dá muito prazer. Não que tenha se tornado mais fácil, isso é uma coisa que eu sempre digo: escrever não está mais fácil, ao contrário, tá mais difícil. Quanto mais responsabilidade, quanto mais público, quanto mais visibilidade, mais compromisso tenho no que eu faço.

Quando eu comecei, era tudo meio novo, eu não sabia onde aquilo ia dar, e era absolutamente espontâneo. Enfim, eu estava aprendendo tudo. Agora continuo aprendendo, porque esse processo de aprendizagem não termina nunca, mas tem junto também uma grande responsabilidade por saber que há um público bastante grande que te leva a sério, que compra teus livros. Isso se tornou e continua sendo cada vez mais um compromisso que eu tenho com o meu leitor e que exige o melhor de mim, que exige muita dedicação e muito tempo. Cada vez eu escrevo e reescrevo até ter um resultado que eu julgue satisfatório.

Mas, enfim, é essa a minha vida agora, e eu gosto muito porque ela também me dá certa liberdade: eu não tenho de obedecer a horários rígidos. Eu obedeço realmente a minha necessidade de escrever, que pode surgir a qualquer momento, em qualquer dia, em qualquer horário. Isso tudo é um estilo de vida que é muito adequado ao jeito que eu sou.

Como você comentou, este ano se completam 40 anos do lançamento do seu primeiro livro, e neste período você já lançou diversos outros, se tornou colunista em O Globo e na Zero Hora, publicou mais de dois mil textos e teve obras adaptadas para teatro, cinema e TV. Como você observa e analisa a sua própria trajetória?
Eu nunca fui de analisar muito o que eu estava fazendo. Eu simplesmente seguia o fluxo, trabalhava, sem ficar olhando muito para trás, simplesmente tocava a vida. Mas agora que cheguei aos 40 anos de profissão, e ainda vem junto esse convite de ser patrona da feira, esses fatores acabam me convidando a fazer um balanço. Olhando para trás, eu só posso me julgar muito privilegiada porque não é fácil ser escritor ou escritora no Brasil. A gente sabe que tem um monte de gente muito, muito talentosa, e ainda assim não consegue se estruturar ou chegar ao público por ‘n’ razões.

E eu não passei por nenhuma dificuldade, eu sempre produzi e tive onde publicar, o que é muito importante, porque não adianta só escrever. Eu sempre tive essas oportunidades em editoras, nos jornais. Sempre consegui dar o meu recado para o leitor em gêneros diversos – crônica, poesia, ficção, relato de viagem. Consegui encontrar o meu modo de me comunicar e fui muito bem recebida. Acho, então, que tive sorte também.

Eu tenho um estilo muito natural, muito simples de escrever e encontrei ressonância do outro lado. O leitor acabou me recepcionando com muita boa vontade. Eu acho que eu sou realmente uma pessoa que foi abençoada. Claro que tive muito trabalho, que eu investi meu tempo. Eu faço meu trabalho com muita seriedade, então isso não é uma sorte que vem do nada; tem muito empenho envolvido, mas tem sorte também. Talvez o tipo de texto que eu faço tenha chegado num momento oportuno…

Enfim, não há fórmula, não tem muita explicação, a não ser que eu consegui o retorno que a maioria dos escritores desejam: ser lida. Esse é o grande retorno de uma escritora. A gente faz esse trabalho não para deixar escondido, é para que ele ganhe o mundo. Eu acho, assim, que, dentro da minha realidade, o mundo que eu ganhei é mais que suficiente, e eu sou muito grata por tudo isso.

Enquanto escritora, quais os planos para o futuro?
Sempre, em primeiro lugar, cuidar da saúde. Eu quero cada vez mais continuar fazendo exercício físico, cuidando da alimentação, porque, sem estar com a saúde legal, a gente não trabalha, não se diverte, não viaja, não faz nada, não existe. A saúde, portanto, é realmente sempre um primeiro plano. E, claro, quero continuar escrevendo, quero continuar aberta a experimentações, a outros gêneros em que eu ainda não tenha feito nada.

E, principalmente, manter o foco no que se refere a compromisso, responsabilidade: não porque a gente tenha chegado a um patamar em que se possa relaxar, ao contrário, acho que a gente tem de continuar se esforçando muito. Esse é o verbo: se esforçar. Para fazer sempre o melhor, para sempre, de certa forma, conseguir se superar, para poder evoluir e para poder entregar o melhor trabalho possível. Mas também sem estresse. Continuar se divertindo com o que faz. Isso é muito importante. Eu sempre me diverti com o meu trabalho e acho que, se eu conquistei alguma coisa, é porque lá no fundo do meu texto acho que aparece o prazer de estar escrevendo. O prazer de existir, inclusive. Então, é isso que eu quero: continuar tendo prazer de fazer o que eu faço, de me divertir com o que eu faço e de juntar seriedade e prazer no mesmo ofício.