Bem-estar | Para a nutricionista Fabiana Tanabe, as novas diretrizes alimentares dos EUA ainda são pouco enfáticas na necessidade de restringir o consumo de alimentos altamente processados
Foto: Andrew Raftery, Autobiography of a Garden in Twelve Plates (February: planting seeds). Gravura transferida para cerâmica, tiragem 2/80. Museu de Arte da Filadelfia (Crédito: Flávio Dutra/JU)
O ano de 2026 mal começou e já temos uma nova polêmica lançada no mundo da alimentação e nutrição. Tudo isso porque o governo dos Estados Unidos da América (EUA) lançou, nos últimos dias, as novas diretrizes alimentares para os cidadãos estadunidenses, ressuscitando, inclusive, a representação gráfica da pirâmide alimentar, que estava em desuso desde o ano de 2011, por ser considerada, à época, fora de moda e muito complicada. Naquela ocasião, a pirâmide havia sido substituída pelo “My Plate”, com a representação de como deveria ser o prato ideal dos norte-americanos.
Entretanto, com o slogan de “Make America Health Again”, o governo dos EUA quer orientar a sua população quanto às escolhas alimentares mais saudáveis, a fim de melhorar o perfil de saúde dos seus cidadãos. O próprio documento cita que mais de 70% dos adultos estadunidenses estão com sobrepeso e obesidade, e que aproximadamente 1 a cada 3 adolescentes está em pré-diabetes. Esses indicadores são um reflexo da má alimentação, estilo de vida sedentário, tabagismo e fatores socioculturais, entre outros.
Possivelmente por conta dessa necessidade urgente em melhorar a saúde dos estadunidenses, o governo tenha optado por orientações mais diretas e prescritivas, citando a quantidade que cada grupo alimentar deve ser consumido por dia, como três porções de vegetais e duas porções de frutas. Para além disso, traz também outras recomendações mais controversas, como o aumento de consumo de proteína de 0,8g/kg de peso corporal para 1,2 a 1,6g/kg de peso corporal, com indicação de priorizar carnes e laticínios integrais e sem a menção à necessidade de exercício físico.
Pode ser que, em um primeiro momento, na visão do governo, a recomendação de aumentar a ingestão de proteína tenha o objetivo de diminuir a ingestão de gorduras e carboidratos, mas isso não necessariamente significa que será um padrão alimentar mais saudável. Pelo contrário, já discutimos em nossa coluna anteriormente os riscos de generalizar dietas hiperproteicas para todas as pessoas, sem considerar as especificidades de cada indivíduo. Ademais, o consumo de carnes, principalmente de carnes vermelhas, e de laticínios integrais, como é reforçado ao longo do documento, vem acompanhado não só de proteínas, mas também de gordura saturada, que continua sendo um tipo de macronutriente a ser restrito na nossa alimentação.
Todo esse esforço prescritivo também acompanha um outro discurso presente no texto das diretrizes, o “Bringing back real food”, que em uma tradução livre poderia ser “Trazer de volta a comida real ou de verdade”. Refletindo acerca do que se tem de mais difundido sobre as práticas alimentares nos EUA, talvez esse seja o maior desafio da equipe de saúde do governo daquele país: fazer as pessoas voltarem a comer alimentos de verdade, com a utilização de técnicas culinárias para o preparo das refeições (para além de esquentar o prato), e deixarem de lado a opção de apenas abrir pacotes. Não é de hoje que os EUA são conhecidos como o paraíso dos pacotes gigantescos com produtos ultraprocessados dos mais variados.
Em relação a isso, a nova diretriz alimentar estadunidense, que estará válida pelos próximos cinco anos, traz uma menção muito tímida à necessidade de restringir produtos alimentícios altamente processados (e, não, eles não usaram o termo “ultraprocessado” cunhado por cientistas do Brasil e já reconhecido pela literatura internacional), mas que já pode ser considerada um avanço por figurar entre as recomendações.
Sabemos que a indústria alimentícia exerce grande poder sobre as escolhas alimentares da população; resta saber se o setor irá se adaptar às novas recomendações e ofertar produtos menos artificiais para as pessoas.
E aqui no Brasil? Quais seriam os reflexos dessa nova diretriz americana? Em tese, nenhuma! Nosso Guia Alimentar para a População Brasileira já é um documento consolidado e internacionalmente celebrado ao longo desses últimos 12 anos, servindo de inspiração ao trazer a valorização da comida de verdade, isto é, à base de alimentos in natura e minimamente processados, em uma época em que pouco se falava sobre o assunto. Além disso, o documento brasileiro também já vinha valorizando os aspectos socioculturais e ambientais que se relacionam com a comida, em um esforço de enaltecer o conhecimento popular e as variações regionais da comida brasileira. Sim, temos um Guia Alimentar de vanguarda e precisamos aprender a exaltar cada vez mais o que é feito dentro do nosso país. E, como diz uma frase que também rodou pela internet nos últimos dias: somos latinos demais para dar bola para o guia alimentar estadunidense.
Fabiana Tanabe é nutricionista (CRN2 9727) e mestra em Ensino na Saúde. Trabalha na Divisão de Promoção da Saúde Discente (Prae/UFRGS).
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