Eva Schul: “Arte é política, e não tem como escapar disso”

Entrevista | Inovadora e pioneira bailarina, coreógrafa e professora fala sobre suas primeiras lembranças da dança, as violências de gênero que enfrentou, as atuais crises brasileiras e como transformou sua arte em veículo de denúncia e transformação da realidade

Foto: Eduardo Carneiro

Eva Schul nasceu em 1948, em Cremona, no Norte da Itália, em um abrigo americano para refugiados da Segunda Guerra Mundial. Primogênita do casal Melinda Hirsch de Schul e Nicolas Schul Filip, judeus húngaros sobreviventes do nazismo sem qualquer intenção de criar a pequena filha na fragilizada Europa de então, Eva desembarcou com a família na América do Sul ainda criança. Em solo sul-americano, a família fixou moradia em Montevidéu, onde permaneceu até a mudança para Porto Alegre em 1956. Naquele ano, Eva também iniciou sua trajetória na dança, a partir do balé clássico. Quatro anos depois, em 1960, ao participar do 1.º Congresso Nacional de Dança, em Curitiba, conheceu a dança moderna.

Em seis décadas, a jovem bailarina transformou-se em uma das mais importantes figuras da dança brasileira. De sua carreira como dançarina, coreógrafa e formadora, destacam-se o aprendizado com mestres e mestras como Alwin Nikolais e Hanya Holm, o pioneirismo na prática e no ensino de dança contemporânea no Brasil, a criação de mais de 100 coreografias, a formação de artistas de renome nacional e internacional e a criação e gestão de espaços de aprendizado e exercício de dança, como a Ânima Companhia de Dança, criada pela artista em 1991, em Porto Alegre, e em funcionamento trinta anos depois.

Detentora de muitos feitos e diversas experiências, Eva, nessa entrevista, fala sobre os primeiros momentos de encantamento com a dança, as intensas transformações em sua arte em mais de 60 anos de carreira, o caráter politizado de suas obras, a perversidade das opressões de gênero que experienciou e denuncia. Também sobre o temor e a inquietação em razão da pandemia, os sentimentos e o desejo por mudança em relação às diversas crises que assolam Brasil e mundo, e a celebração de suas muitas realizações e contribuições por meio da memória – a qual afirma ser a sua grande utopia.

Foto: Eduardo Carneiro

Você ingressou no universo da dança muito jovem. Quais são as suas primeiras memórias sobre dança?
Na Itália, a minha mãe e a minha tia tinham o hábito de ir a teatros e cinemas. Elas foram criadas em um ambiente muito culto, diferentemente do meu pai, que vinha da classe operária. Eles nem teriam se encontrado se não fosse a guerra. Dentro dessa perspectiva, a gente ia bastante a esses lugares no Uruguai. Um dos filmes que a gente viu uma vez foi “Os Sapatinhos Vermelhos”, com Moira Shearer. Um filme famosérrimo, um musical em que ela calçava sapatinhos mágicos e dançava loucamente. Ao mesmo tempo, no carnaval uruguaio, as pessoas montavam tablados pelas ruas, onde tocavam música e dançavam, e eu sempre subia nesses palcos e dançava. Isso desde os três anos de idade. Quando nos mudamos para o Brasil, a minha mãe teve a oportunidade de me colocar em uma escola de balé que era pertinho da nossa casa, e eu logo despontei como a estrelinha dessa escola.

E após seis décadas de carreira, como a dança se transformou para você?
Se transformou totalmente, em vários sentidos. Primeiro que eu fui deixando de ser intérprete. Enquanto bailarina, eu dancei principalmente nas mãos do Nikolais e da Hanya, em Nova Iorque, nos anos 70. Na dança contemporânea, sem ser as experiências no exterior, eu fui bailarina apenas nas minhas próprias criações. Porque quando eu voltei ao Brasil, após 10 anos em Nova Iorque, eu percebi que eu não tinha lugar para dançar. Tudo era muito incipiente, baseado na dança clássica, principalmente em Curitiba, onde eu fui parar. A dança expressionista, à base de improvisação, não existia. Então eu não tinha quem me dirigisse, não tinha onde fazer aula. A partir de um certo momento, eu comecei a usar as referências dos meus mestres e comecei a criar uma dança de maior assinatura, mais pessoal, e que foi ficando cada vez mais feminina. Porque eu queria falar sobre a minha relação com o mundo, com as pessoas que me rodeavam, as questões humanas que me interessavam. E, depois, essa coisa mais panfletária. Eu fui me dando conta de que precisava sacudir o espectador, que ele não poderia sair de dentro do teatro isento, sair para ir ao barzinho beber. Se ele fosse ao barzinho beber, que saísse com questões que ele discutiria até a madrugada.

“A minha vida toda foi em torno da minha carreira. Eu tive que abandonar o meu filho, que eu tive muito cedo, para viver esses 10 anos em Nova Iorque. A gente tem que fazer certas escolhas. A vida é feita de escolhas. E a dança foi a grande escolha da minha vida”

Eva Schul

A sua obra habitualmente trata sobre questões urgentes na sociedade, como a violência contra a mulher, tema do espetáculo “Acuados”, de 2016. Como a arte pode transformar o mundo?
Eu levanto muita bandeira, eu sou muito panfletária. Arte é política, e não tem como escapar disso. Se a minha arte não servir para mudar alguma coisa no mundo, nem que seja em uma pessoa que esteja na plateia, olho no olho comigo, então, para mim, a minha arte não vale coisa alguma. Porque eu não quero alimentar fantasias. Eu não tenho qualquer desejo de trabalhar com lazer. A arte tem uma responsabilidade muito grande, que é retratar o seu tempo, o seu environment, o seu meio, e trazer à tona questões fundamentais na sociedade. Para mim, isso é arte. Ela tem que sacudir, tem que tocar, tem que sensibilizar.

Eu sempre faço um bate-papo depois de apresentar os meus espetáculos para tentar avaliar se o público se sentiu tocado de alguma maneira. E o resultado é impressionante, principalmente no interior. Uma vez, uma senhorinha, com 60 e poucos anos, disse para nós que só depois de assistir “Acuados” que se deu conta que foi oprimida a vida toda pela violência oral do marido. Um grupo de senhores, em Santa Maria, todos também com 60 anos, falaram que sempre foram machistas e nunca se deram conta de que estavam cometendo violência. São todas coisas muito duras, muito difíceis. Eu vivi isso na minha família, com tios que achavam supernormal fazer a mulher de empregada e coisas desse gênero.

Foto: Eduardo Carneiro

Por que para você é importante falar sobre as experiências das mulheres?
Eu fui uma rebelde em uma época em que isso era loucura. Eu fiz muitas coisas na minha vida que foram uma absoluta rebeldia, porque mulher não fazia essas coisas. Meu primeiro ex-marido era 14 anos mais velho que eu. Ele queria uma mulher-troféu, por isso casou com uma mulherzinha bonitinha, bailarina. Se ele não aprovasse a minha roupa, ele se recusava a sair comigo. E eu me recusava a trocar. É botar a mulher em uma camisa de força: tem que cozinhar, tem que fazer a limpeza da casa, tem que cuidar dos filhos. Em meus 73 anos, eu tive quatro maridos, e todos eles pensavam assim. Eu me separei de todos eles justamente porque eu nunca aceitei isso. Eu passei a vida toda em um cabo de guerra com os homens da minha vida. Tem que partir de nós, mulheres, perceber que a gente não é obrigada a seguir esses parâmetros. Querem nos forçar, querem nos impor, mas nós temos que ter algum veículo para denunciar o que estão tentando fazer conosco. Para mim, essa denúncia é feita na minha obra.

“Temos que tomar muito cuidado para que essas opressões não se tornem parte de nós, porque culturalmente elas já estão registradas na gente”

Eva Schul

Obra essa atualmente documentada no site Carne Digital, acervo virtual que documenta e difunde a sua trajetória. Quais são os significados desse projeto para você?
Isso faz parte de ter idade, de ter muito tempo de carreira. Nada é por acaso. Chegar ao ponto em que eu estou hoje na minha vida, aos 73 anos de idade, é porque eu trabalhei muito e continuo trabalhando. Eu tenho a sorte de sempre trabalhar com gente jovem e criativa em torno de mim. Isso é algo que alimenta. A vida é feita de trocas, não existe nada que se faça sozinho. São essas trocas que fazem com que a gente continue podendo evoluir, não estabilize, não estacione, não vire múmia.

Já que estamos falando sobre a importância das trocas, como tem sido viver em meio ao coronavírus? Não poder estar plenamente nos palcos e nas salas de aulas, plenamente perto do público e dos seus alunos…
Muito difícil em muitos sentidos. Quando a gente fala de humanidade, a gente fala de pele, de olho, de escuta, de afeto, de toque. Com a minha idade, eu passei muito tempo realmente isolada. Nem a minha família eu não via a não ser pela tela. Atualmente, não, porque estamos todos vacinados, nenhum de nós tem vida social fora da família. Mas, assim, a gente não pode se entregar e se deixar dominar por essas questões pandêmicas. Ao mesmo tempo, é impossível não se sentir esmagada dentro dessas condições.

“Para mim, o virtual não é o natural. Eu sou da era do rádio, eu vi a TV nascer. Mas no dia seguinte ao dia em que entramos em quarentena eu já estava dando aulas pela internet”

Eva Schul

Você está desenvolvendo algum novo projeto?
Estou criando dois espetáculos curtos, de 30 minutos, que fazem parte de um projeto que iremos apresentar primeiro virtualmente. A gente só vai poder mostrar ele em cena, como gostaríamos, depois de ter apresentado ele virtualmente. O projeto se chama “Persona”. A primeira metade é um solo do Eduardo Severino, chamado “Macho Homem Frágil”. A segunda parte se chama “Autoimagem”, que trata sobre as máscaras do dia a dia, as máscaras que a gente veste, criando personas em nossas vidas.

Foto: Eduardo Carneiro

Eu gostaria de retomar a conversa sobre a sensação de esmagamento que você citou. Esse sentimento também tem relação com a atual situação de crise do Brasil?
Sem dúvida. Eu estou muito triste, muito decepcionada. Eu sobrevivi ao holocausto e sobrevivi a uma ditadura. Hoje eu me sinto totalmente esmagada pela ignorância imperante. Esmagada por um desgoverno que ignora totalmente a raça humana, que descuida de absolutamente tudo que possa nos salvar. Se não houver uma contracultura muito violenta em breve, eu acho que nós vamos sucumbir totalmente. Enquanto não houver uma reação humanista fundamental, acho que o mundo realmente se encaminha para um fim não muito longe. Estou muito triste, principalmente porque tenho netos pequenos, que eu quero que tenham vidas maravilhosas. Espero poder fazer alguma diferença e chamar atenção cada vez mais para essas questões.

“Eu não sou brasileira, mas eu sou absurdamente brasileira. Não consigo nem cogitar viver fora sem ser para viver outras experiências. Aqui foi o lugar que me acolheu e onde eu fui construindo as possibilidades na minha vida”

Eva Schul

A transformação desse mundo atual é um grande desejo seu?
Eu adoraria que o mundo se transformasse e que as coisas pudessem ter um rumo muito diferente. Que a humanidade acordasse e lembrasse que o mundo não gira em torno do próprio umbigo. Dentro do que eu pude fazer até agora, eu acho que ao menos estou deixando sementes em muitas pessoas para que elas não permitam o esquecimento. A minha grande utopia é a memória. Enquanto as pessoas lembrarem o passado, elas têm a possibilidade de tentar mudar o futuro. O Brasil ainda é um país com um pensamento muito colonizado, ainda vive os preceitos trazidos pelos colonizadores. A questão indígena e a questão negra recentemente começaram a ser vistas, a serem trazidas à tona. Meu deus, 500 anos não foram suficientes para as pessoas enxergarem isso?! Em um mundo capitalista, em um mundo em que dinheiro é deus, jamais os seres humanos serão considerados os mesmos.

Você afirmou que a sua grande utopia é a memória. Como você gosta de ser lembrada?
Fundamentalmente, como uma educadora. Isso, para mim, é o mais importante. Mas uma educadora de uma questão muito específica, que é a questão humana. Eu ficaria muito triste se eu fosse reconhecida por questões técnicas ou coisa parecida. Se eu puder deixar um legado, que seja o respeito a nossa humanidade. Porque técnica é algo que máquinas podem nos substituir facilmente, e de maneira muito melhor. Mas temos que lembrar que nós somos seres humanos sensíveis e merecemos respeito. Lembrar que temos que nos preservar e tentar escapar desse deus-máquina-dinheiro que tomou o mundo. Em prol do dinheiro, a gente vai, cada vez mais, abrindo mão de questões fundamentais. Olha o que a gente vem fazendo com o planeta, com os direitos humanos, com a igualdade de gênero. Para mim, é muito importante que as pessoas reconheçam que é essa a minha grande bandeira. O resto qualquer um faz. Eu consigo não ser medíocre nas coisas que eu faço, mas eu nunca fui acima da média. Eu faço coisas bem feitas, coisas boas. Não sou nenhum gênio, mas sempre busquei qualidade. Sempre respeitei o meu público, as minhas ideias, os corpos das pessoas que os entregaram a mim. Para mim, são essas as coisas fundamentais.