* Publicado na Edição 230 do JU

A frase é de Heródoto e foi escrita há 2.560 anos para elogiar o que chamamos de democracia. O nome original era isonomia e significa o regime em que há regras que equalizam a sociedade. A palavra democracia foi usada só 84 anos após o surgimento da isonomia, em Atenas, em 508 a.C.; ela significa soberania popular, e esta é a melhor fonte política da isonomia.
Com o primado da soberania popular, o exercício do poder ganha a força da legitimidade, a experiência e o conhecimento depuram as opções, o diálogo torna-se imperativo, educam-se os cidadãos para as escolhas e assegura-se o predomínio do bem comum. Este é produzido a partir das condições de igualdade jurídica em uma comunidade, com consequências culturais, sociais, econômicas e políticas, e leva a melhoras nas condições de vida da maioria ou mesmo de todos. Entre os gregos, na pólis; em nosso caso, na Universidade.
O convívio na Universidade é perturbado há anos por um desconforto que deve ser solucionado. O cerne do problema é a perpetuação de assimetrias ilegítimas dividindo a comunidade acadêmica.
“A diferença política vigente entre docentes, técnicos e estudantes parte de péssimos fundamentos e reproduz violações que geram mal-estar e minam a fortaleza da instituição. “
Injuriados com esta violência, vários setores e vozes da Universidade clamam por paridade, por meio de uma fórmula de partilha eleitoral que amplie a participação dos hoje minoritários técnicos e discentes. A finalidade desta plataforma é correta e benéfica; a palavra paridade, todavia, perpetua o problema mais grave, a distinção qualitativa no cerne da comunidade, atribuindo valores maiores e menores aos sujeitos políticos, sem justificativa aceitável.
É preciso, antes de mais nada, enfrentar e eliminar a base cultural e política que estabeleceu essas diferenças na comunidade, e então avançar para as soluções jurídicas compatíveis, que devem repercutir primeiramente na questão eleitoral.
O quadro reverbera Blade Runner, de Ridley Scott (1982), filme em que se confrontam humanos e androides, os replicantes. A obra demonstra a violência e a hipocrisia dessa distinção, quando um replicante salva por compaixão a vida do protagonista humano, que o perseguia, e o amor floresce entre o caçador humano e uma androide.
É assim na UFRGS, quando professores consideram-se cultural e politicamente superiores. Esse narcisismo não tem o menor fundamento, e sua prática é um insulto aos colegas técnico-administrativos. O argumento pró-docente é um platonismo típico: os professores cultuam imagem em que se equiparam ao rei filósofo, superior em virtudes devido à excelência de seu saber. São, pela ciência e por suas qualidades culturais, permanentes, em contraste com os que, consideram os docentes, possuem menos saber e são transitórios. Logo, uns valem mais; outros, menos.
A pertença a um dos grupos funcionais automaticamente implica juízos morais e políticos em que o estamento prevalente sai fortalecido, à custa de um insulto inaceitável. A diferença ontológica entre docente e técnico é uma falácia que deve ser denunciada e superada; vale o mesmo para o caso dos estudantes. É uma prepotência narcísica a reserva de poder exercida por docentes, fundada em bases éticas indefensáveis.
Além do fundamento humano e político, essa cisão não resiste à análise histórica. Os fatos mostram que nas eleições muitos docentes votam movidos por conchavos, apoio a amigos, cupidez de cargos e honras ou por motivações ideológicas nem sempre adequadas para o meio acadêmico. Nada assegura a virtude inata dos atos políticos de docentes, muito pelo contrário.
Na outra face do desdém pela qualidade do pessoal administrativo desta Universidade, está a insensibilidade diante da qualidade e realizações admiráveis de muitos expoentes desse quadro funcional. A título de exemplo e símbolo, lembremos o papel extraordinário de Marininha Aranha Rocha, estruturando a iniciação científica desta UFRGS, desenvolvendo com enorme qualidade o que é hoje nosso principal evento, o Salão de Iniciação Científica, âncora de nossa semana acadêmica.
Marininha foi uma das principais autoras do desenvolvimento científico recente desta Universidade, sempre integrada às melhores metas, sensível ao belo potencial dos novos quadros de pesquisadores, líder com a qualidade de estimular equipes e agraciar nobres finalidades. Marininha é aqui citada como símbolo de uma qualidade que se evidencia em numerosos técnicos de altíssimo nível, muitos ocupando cargos superiores em pró-reitorias, para nosso alento e orgulho, e que não podem, de forma alguma, ser desdenhados como se fossem androides replicantes a serviço de sua alteza, os humanos platônicos.
Há, naturalmente, ótimos e péssimos exemplos entre docentes e técnicos, pois não é o pertencimento a uma ou outra categoria funcional que determina o quadro de virtudes e cacoetes.
O caso discente é um pouco mais complexo, mas não pode ser subtraído desse cenário. Nossos acadêmicos não são crianças ingênuas, mas a elite da juventude atual. Em sua maioria, possuem potência política moderna, forte motivação e herdam a memória do movimento estudantil, o que lhes assegura qualidade valiosa para a mobilização política na Universidade. Sua voz tem que ser reconhecida e ampliada sua participação nas eleições, com pleno espírito isonômico e democrático.
O reconhecimento desse valor requer dos docentes o abandono dos cacoetes platônicos de se acharem melhores, mais preparados, permanentes e universais, e reconhecer que a democracia é realizada com a harmonia de dissonâncias. A reserva de inovação dos jovens é o coração passional e pulsante da Universidade.
Em qualquer cenário, será imperativo desmontar o mito platônico que sustenta o privilégio docente e caminhar para a construção efetiva de uma comunidade, capaz de se reconhecer sem melindres e de cooperar para a realização do bem comum. Para isso, precisamos abandonar comportamentos e vocabulários viciados, incluindo-se a luta por paridade, termo que preserva a distinção injustificável entre humanos e androides, fazendo do câmpus político um cenário pior que o de uma ficção científica antiga – a imagem de um mito arcaico, aristocrático.
A palavra é isonomia, e com ela entendemos que é preciso revolucionar para produzirmos um ganho substantivo para nós e para as próximas gerações. É certo que um dia terá fim o atual necrogoverno, com sua voracidade antidemocrática, e que reconstruiremos os caminhos da liberdade, da participação e da dialética. É essa rota desafiadora e fecunda que devemos examinar para construir os novos tempos com a paz e a soma de todas as potências de nossa comunidade.
Em termos práticos: docentes e técnicos integrados em um mesmo colégio, com 70% dos votos, estudantes com os demais 30%.
Francisco Marshall é professor do Departamento de História da UFRGS.



