Um panorama da caça de javalis no Brasil 

Artigo | Sarah Moreno, doutoranda em Antropologia Social, examina as questões envolvidas no abate de uma espécie animal que, se não tiver a população controlada, causa prejuízos ao ambiente e à economia

*Por Sarah Moreno
*Ilustração: Taty Vivian/IA-UFRGS

Considerada uma das 100 piores espécies exóticas invasoras pela União Internacional para a Conservação da Natureza, o javali é responsável por causar impactos de ordem ambiental, econômica e sanitária. Há registros de sua presença no Brasil há pelo menos 100 anos, mas é a partir da década de 1980 que se alastra a população desse animal, sobretudo na região sul do país. 

Os principais impactos causados por javalis são: prejuízos à produção agropecuária; competição por recursos com espécies nativas e sua predação; destruição de nascentes; revolvimento do solo; e alteração da vegetação, além da possibilidade de transmissão de doenças como a peste suína clássica e a febre aftosa. 

Devido a esses impactos, em 2013 o Ibama publicou uma normativa que decreta a nocividade do javali em todo território nacional e autoriza o controle populacional da espécie por meio de “perseguição, abate e captura seguida de eliminação direta de espécimes”. Convencionou-se chamar todos esses métodos de caça, uma atividade que vem dividindo opiniões de diversos setores. Neste artigo, exploro um pouco da complexidade acerca do tema da caça de javalis no Rio Grande do Sul a partir da pesquisa de doutorado que venho desenvolvendo.

Um dos principais problemas que se apresentam em relação à caça de javalis é a desinformação em muitos níveis. No ano de 2021, notícias veiculadas na imprensa nacional apontam o aumento do acesso a armas associado ao cadastro de pessoas como caçadores. O problema que se apresenta diante dessa situação é que não há informação suficiente sobre as etapas posteriores ao processo de cadastramento de caçadores. 

Segundo a normativa do Ibama, a cada trimestre os caçadores devem preencher um formulário no Sistema de Informação de Manejo de Fauna (Simaf), registrando a propriedade onde realizam a caça – ou a atividade de manejo –, bem como a quantidade de javalis abatidos, entre outras informações pertinentes. A partir desse registro de dados seria possível obter informações sobre a situação da caça e do controle no país, estabelecendo conexões entre os números de caçadores cadastrados e de javalis abatidos. No entanto, a adesão ao Simaf tem-se mostrado falha. Muitos caçadores relatam a dificuldade de alimentar esse sistema em função da burocracia e informatização, uma vez que muitos deles são mais velhos e não dominam o uso de tecnologias. Além disso, muitos outros acabam caçando de forma irregular por não dar conta de atender à burocracia. Ambas situações impactam diretamente na geração de dados, o que depende inteiramente do que consta no Simaf. 

Uma situação similar ocorreu na região da Catalunha, na Espanha, no ano de 2022. Devido a uma normativa espanhola que exigia que caçadores notificassem antecipadamente a localização da caça por um sistema de coordenadas geográficas, os caçadores decidiram entrar em greve. Segundo eles, havia muita dificuldade em atender a tal demanda tanto pelos mesmos motivos de caçadores idosos não dominarem o uso de tecnologias mais complexas, como o sistema de coordenadas, quanto por não poderem precisar o local da caça com antecedência, o que é definido, praticamente, no momento do ato. 

No Brasil, a ideia de uma greve de caçadores pode soar como algo de baixíssimo impacto, considerando a incipiência da regulação governamental dessa atividade em relação à Espanha. É válido destacar, no entanto, que o governo espanhol prontamente se mobilizou para atender às demandas dos caçadores e encerrar a greve. Isso porque se reconhece o prejuízo obtido com a paralisação da caça. É nesse sentido que ressalto a importância da produção de informação, pois para adotar medidas mais efetivas são necessários dados concretos da situação. 

Estima-se que apenas na região da Catalunha haja por volta de 200.000 javalis, sendo que anualmente são caçados 50.000, isto é, 25% da população total estimada. Com a greve dos caçadores, a expectativa era de que a cada semana 4.000 javalis deixassem de ser caçados, agravando a superpopulação da espécie no país. Além dos impactos já mencionados à produção agropecuária, ao meio ambiente e os riscos sanitários, na Espanha os javalis também têm avançado em zonas periurbanas, alimentando-se de lixos e restos de comida, inclusive atacando pessoas em busca de alimentos.

A partir de minha pesquisa de doutorado pude acessar e estreitar o diálogo com caçadores dos dois países, acompanhando as atividades da caça in loco e compreendendo a realidade desse cenário. É fato que a caça não se trata de uma atividade exclusivamente voltada ao controle de javalis. Muitos caçadores, tanto no Brasil quanto na Espanha, relatam que é uma conciliação entre um hobby e uma necessidade. Esse é um dos pontos para nos atentarmos ao falar sobre caça. Não é possível tomar como fato apenas o controle ou apenas o hobby, mas entender que ambos caminham juntos.

Aqueles que olham a caça apenas pelo viés de hobby ou atividade esportiva tendem a considerá-la um aspecto negativo, alinhando-se a movimentos de defesa animal ou mesmo em debates sobre o desarmamento. Contudo, assim como qualquer outra atividade, não é seguro generalizar o coletivo baseando-se em alguns indivíduos. Boa parte dos caçadores de javalis, tanto no Brasil quanto na Espanha, são produtores rurais diretamente impactados pelos danos causados pelos animais, e essa é uma realidade a ser considerada.

Por fim, o apelo que se faz, mais uma vez, é para a produção de informação sobre o tema em todas as suas esferas e para a desburocratização do processo que muito tem dificultado a obtenção de informações. É necessário conhecer a dimensão dos danos causados pelos animais, assim como também é necessário conhecer a situação e a efetividade do controle realizado pelos caçadores. Somente com um amplo e detalhado conhecimento do cenário envolvendo a caça do real é que os diversos setores poderão dialogar visando uma melhor regulação da atividade.


Sarah Moreno é doutoranda em Antropologia Social e pesquisa sobre as relações entre humanos e animais considerados pragas e/ou nocivos em contextos rurais e urbanos. É membro do grupo de pesquisas Humanimalia.


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