O desfile de Enio Penha

Homem negro, de cabelos brancos, usando óculos de armação preta, calça cinza, camisa branca e paletó azul marinho, atrás do letreiro da UFRGS, que aparece em parte. Ao fundo, uma grande janela envidraçada.

As caras da UFRGS | Egresso do curso de Administração relata suas passagens pela Universidade temperadas sempre por sua paixão pelo Carnaval e seu time do coração

*Foto: Marcelo Pires/JU

Egresso do curso de Administração há mais de quatro décadas, Enio Penha voltou a dar as caras na Universidade recentemente por conta da exposição No Batuque dos Bambas da Orgia – folia e resistência em Porto Alegre, que esteve em cartaz durante o mês de agosto no Museu da UFRGS.

Homem negro de 69 anos de idade, Enio tem cabelos brancos, veste calça social, camiseta manga curta branca com gola rolê e usa suspensório vermelho por baixo do paletó. Ele me mira por cima dos óculos de leitura – o outro par, para longe, vem no bolso do paletó – e logo dispara: “Minha história de Carnaval começa há 62 anos”. A frase não vem sem um ou outro leve chiado – que aparece a todo momento – remanescente do longo período em que viveu no Rio de Janeiro.

Os Bambas da Orgia, escola tradicional do Carnaval de Porto Alegre, é onde Enio desfila desde os sete anos. “Tinha um coreto, onde se apresentavam as escolas, na rua Vicente da Fontoura. Ali que eu desfilava, meu pai me levava, me fantasiava.” A família já frequentava o Carnaval porque um amigo e colega de trabalho do seu pai era da diretoria dos Bambas.

“Porto Alegre de Carnaval já foi muito bom. Era assim: tinha coreto na Vicente da Fontoura, na Anita Garibaldi, na Santana, na Vila do IAPI, na Vila São José, lá no topo do morro. As escolas desfilavam aqui na João Pessoa, por exemplo, depois iam lá na Santana. Ali foi muito bom, ali o mundo podia até ter parado para mim!”

Enio Penha

Acompanha de perto a escola ainda hoje – atualmente desfila na Velha Guarda, para onde passou após sair da bateria, onde tocava cuíca. “O último ano que eu saio na bateria, 2009, foi o ano do samba Dom Pedro Imperador. A música dizia assim (batucando o ritmo na mesa): Dom Pedro Imperador/ que mancada você deu / me chamou de pequeno / Rio Grande sou eu / não adianta me perguntar / você me deu motivo / mesmo assim não vou deixar… Isso aí foi um alô para o pessoal da escola Imperadores do Samba. Nós estávamos com um puxador do Imperadores, Carlos Medina, que faleceu já”, rememora com sabor e precisão.

Costurando um episódio no outro, o sambista puxa da memória a lembrança de ter um dia levado para a aula sua cuíca e, com muito orgulho e marra, explicar aos colegas que questionavam o que era aquilo: “Isso aqui é um instrumento chamado cuíca, é da bateria da minha escola de samba!”.

Ao longo da nossa conversa, com frequência Enio suspende temporariamente o que está dizendo para observar o movimento à nossa volta. Logo retorna para o assunto e me conta que chegou na Universidade em 1970, mais especificamente na Escola Técnica de Comércio, onde era possível cursar contabilidade e administração, tendo optado pelo segundo.

Homem negro, de cabelos brancos, usando óculos de armação preta, camisa branca e paletó azul marinho em frente a um prédio cujo letreiro diz Reitoria UFRGS
Retornar aos prédios da UFRGS representa relembrar grande parte da história de Enio (Foto: Marcelo Pires/JU)

Nessa época, a convite do professor Vergara, que comandava a Escola Técnica, tornou-se secretário dos professores Carlos Augusto Crusius e Ieda Crusius na formação do curso de mestrado em Economia, na Faculdade de Ciências Econômicas.

Ao concluir a formação técnica, ingressa no ensino superior e se forma em Administração de Empresas e Administração Pública. Durante a graduação na Faculdade de Ciências Econômicas, lembra de só ter outros três colegas negros. “E tinha um que era preto – eu era loiro perto dele –, mas não queria ser preto. Um dia eu comentei com ele: ‘Aqui tem quatro negros, eu, tu, fulano e sicrano’. Ele disse: ‘Não, eu não, Penha’. ‘Como assim, rapaz?’. Ele respondeu: ‘Não, sabe por quê? Eu tô na faculdade’”, relembra Enio, ainda estupefato com a declaração do então colega.

O administrador, no entanto, não foi o primeiro na família a chegar ao ensino superior. Em 1954 se formou na Economia seu tio, Alaor Santana. Mais tarde ele veio a ser tesoureiro do estado do Rio Grande do Sul.

Entre as vivências na faculdade, Enio recorda com alegria do sambão que promovia às sextas-feiras no DAECA, diretório acadêmico de Economia, Contábeis e Administração. Quem tocava com ele eram os amigos Gê e Mão – que não estudavam na Universidade, eram “colegas de zoeira”. “O Gê pegava o elevador e ia até o terceiro andar e vinha espiando pelo vidro das portas pra ver em qual sala que eu tava.”

Após se formar, trabalha como assessor de José Sanchotene Felice, então presidente da Fundação Estadual do Bem-estar do Menor (Febem). Isso foi em 1975. Depois vai trabalhar no departamento de orçamento do estado com Milton Beno Asmann. Ainda era o governo militar e o secretário de planejamento era o coronel Eduardo Emílio Maranhão Muller. Os nomes vão desfilando com muita facilidade, sem nenhum titubeio.

A experiência profissional seguinte foi no departamento de avaliação e desempenho das estatais. Fazia a análise de balanços das empresas do estado, como CEEE, Corsan, CRT. Em dado momento sai de férias para não mais voltar.

Viaja para o Rio de Janeiro para o Carnaval. “Brinquei bastante o Carnaval. Lá pelas tantas, eu vou na Fundação Getúlio Vargas e falo com o professor Bianor, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas.” Lá se inscreve no curso de mestrado, do qual acabou saindo com uma especialização porque não defendeu a dissertação. Depois fez também pós-graduações em Ciências Contábeis e Mercado de Capitais.

Aí ficou lecionando na Universidade Cândido Mendes, emprego em que se aposentou. Trabalhou nas unidades Rio Centro, Ipanema, Campos dos Goytacazes, Niterói e Nova Friburgo. Concomitantemente, atuou na então SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), na Fundação Nacional para memória (Pró-memória), onde fazia a programação financeira das obras de restauro junto com a área de engenharia.

Enio de repente pega o celular e mostra um vídeo em que aparece ainda de cabelos pretos num programa jornalístico de televisão. Era o quadro Defenda o seu Bolso, que por um tempo integrava a programação do RJTV da filial da Globo em Nova Friburgo, onde era docente na Cândido Mendes. Uma vez na semana, especificamente às quartas-feiras, ele respondia ao vivo as perguntas feitas por telefone pelos telespectadores.

Dos tempos de Rio de Janeiro, evidentemente, não podem faltar as reminiscências carnavalescas. Lá ele é Império Serrano de coração, mas gosta da Mangueira e da Beija-flor.

“No Rio eu só não saí na Portela, mas era para sair, porque eu sou dos Bambas e a Portela também é azul e branco, e o meu irmão falecido era portelense. Tem uma coisa que dá para explicar um pouquinho. A quadra da Portela fica na rua Clara Nunes. E numa distância não muito longínqua fica o Império Serrano, tudo lá em Madureira. Eu saía no Império Serrano e acho que nunca calhou de sair na Portela”

Enio Penha

No coração de carnavalesco, há um grande concorrente, que corre em paralelo, pau a pau: o Sport Club Internacional. No café onde conversamos, ao avistar um colorado fardado já pergunta a queima roupa se é sócio, e logo explica que está apoiando uma chapa na eleição para o comando do clube.

“Fui mascote do Inter em 1958 e 1959, lá no estádio antigo. Meu pai era sócio remido e conselheiro, ele e meu tio”, pronuncia com orgulho. Lá embaixo do Pavilhão de onde saía o time para entrar em campo, o pai o entregava para o capitão do time. “O chique das cadeiras dos remidos era que eram cadeiras de palha”, diverte-se.

“Eu nasci e me criei dentro do campo do Inter. Meu pai era ciumento e levou a minha mãe já em vésperas de eu nascer pro jogo, para não deixar a velha sozinha. Quando chegaram lá no campo, ela teve as contrações e tiveram que sair. Nasci na Santa Casa”, conta.

Mais tarde, foi da charanga do Inter. Era um dos músicos, e tocavam durante o jogo. “Tocava caixa, surdo, tocava tudo, fazia miséria, me embebedava, era muito comum, tinha uns 18 anos.” Quando lecionava em Nova Friburgo, foi representante do Inter na cidade.

Hoje diz que vai “fantasiado” pro estádio. “Mandei fazer duas cartolas, uma vermelha e outra branca. Aí boto terno e gravata.” Mas duas horas antes de cada partida canta no Bar Coreia, que fica no estádio Beira-Rio.

E assim integra essas paixões cambaleantes, em eterna disputa: o time do coração e o Carnaval que pulsa até no ritmo da sua prosódia.