Artigo | Graduada em Administração, Rullihelhem Carolinne Almeida identifica barreiras e oportunidades para a ascensão de mulheres negras no ambiente corporativo
*Ilustração: Gugu Lacerda/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS
A presença de mulheres negras em cargos de liderança no Brasil ainda é exceção. Embora sejam uma parte bem expressiva da população, elas permanecem sem representatividade em espaços de poder. Dados recentes mostram que, num recorte das 500 maiores empresas do Brasil, apenas 0,4% dos cargos de alto escalão são ocupados por mulheres negras (Instituto Ethos, 2016), o que evidencia o peso persistente do racismo estrutural e do sexismo nas organizações.
Meu trabalho de conclusão de curso buscou analisar essa realidade a partir de um caso específico: a trajetória de Dirlene Silva, executiva que construiu uma carreira sólida no mundo corporativo. O estudo foi conduzido por meio da metodologia de história de vida, utilizando uma entrevista em profundidade na qual ela compartilha reflexões sobre sua experiência pessoal e profissional.
A história de Dirlene revela um percurso marcado por adversidades desde a infância. Nascida em Canoas (RS), cresceu em uma vila sem saneamento básico, filha de uma empregada doméstica e posteriormente gari. Ainda criança, vivenciou situações de preconceito racial e social que poderiam ter limitado seus sonhos. No entanto, encontrou nos estudos a possibilidade de transformação.
Graças a bolsas de estudo, conseguiu cursar o ensino médio técnico e, posteriormente, ingressar na graduação em Economia. Apesar das dificuldades financeiras, persistiu por dez anos até concluir o curso. Mais tarde, realizou um mestrado em gestão de negócios na França, experiência que simbolizou sua ascensão e a ressignificação de sua trajetória: “da filha da lixeira a Paris”, como ela mesma resume.
Apesar das conquistas, Dirlene rejeita a explicação de que sua trajetória seria fruto apenas de esforço individual. Para ela, a meritocracia é insuficiente para explicar o sucesso de pessoas negras em um país marcado por desigualdades históricas. O acesso a políticas afirmativas, a presença de professores incentivadores e a construção de redes de apoio foram fundamentais em sua caminhada.
Mesmo após conquistar cargos executivos em grandes empresas, Dirlene continuou enfrentando situações de racismo e sexismo. Muitas vezes foi a única mulher negra em reuniões, sentindo-se isolada e sem espaço para expressar suas opiniões. Em diversos momentos teve sua competência questionada e sua presença vista como exceção.
Esses episódios evidenciam que a ascensão de mulheres negras não elimina as barreiras simbólicas e institucionais. As experiências relatadas por Dirlene confirmam que, embora programas de diversidade tenham avançado, ainda é necessário transformar profundamente a cultura organizacional para que a inclusão seja efetiva.
A pesquisa mostrou que, diante das adversidades, Dirlene desenvolveu estratégias que lhe permitiram permanecer e se fortalecer no ambiente corporativo. Entre elas, destacam-se a valorização da autonomia financeira, a busca por conhecimento contínuo, o fortalecimento da autoestima e a capacidade de transformar experiências de dor em inspiração.
Sua trajetória também cumpre um papel simbólico fundamental. Ao ocupar espaços de liderança, Dirlene se torna referência para jovens negras que desejam ingressar no mundo corporativo. Sua presença questiona estereótipos e amplia horizontes, mostrando que é possível construir novos caminhos.
O estudo conclui que trajetórias como a de Dirlene Silva evidenciam, de um lado, os limites da meritocracia e as barreiras persistentes à ascensão de mulheres negras e, de outro, o potencial transformador da educação, das políticas afirmativas e das redes de apoio. A representatividade em cargos de liderança não é apenas um símbolo, mas uma estratégia de mudança social que contribui para a construção de ambientes de trabalho mais inclusivos e justos.
Mais do que celebrar casos individuais de sucesso, é necessário que organizações, universidades e sociedade civil se comprometam com a criação de condições estruturais que permitam que histórias como a de Dirlene deixem de ser exceção e se tornem parte do cotidiano.
Rullihelhem Carolinne Soares Almeida graduada em Administração pela UFRGS.
O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado pela professora Christine da Silva Schröeder.
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