Educação financeira e qualidade de vida na UFRGS

Artigo | A administradora Júlia Henrique Leite relata estudo junto a estudantes de Administração que revela desafios enfrentados por eles em busca de equilíbrio financeiro

*Ilustração: Armando Gauland/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Como os estudantes de Administração da UFRGS lidam com suas finanças e de que forma isso afeta seu bem-estar? Essa questão motivou uma pesquisa com 129 alunos do curso, com o objetivo de compreender como a educação financeira influencia diretamente a qualidade de vida desses jovens. O estudo buscou explorar não apenas aspectos técnicos do gerenciamento financeiro, mas também seu impacto no bem-estar cotidiano, incluindo a redução do estresse financeiro e a capacidade de planejamento para o futuro.

Os resultados revelam um grupo predominantemente jovem, com idade média de 25,7 anos, majoritariamente solteiro (83,7%). A renda familiar variou entre diferentes faixas: 30,2% dos participantes declararam pertencer à faixa de 3 a 5 salários mínimos, enquanto 28,7% indicaram uma renda entre 5 e 15 salários mínimos. Esse perfil socioeconômico reflete uma situação relativamente estável, pois os participantes apresentam maior inserção em faixas de renda médias e elevadas em comparação com a realidade frequentemente observada entre estudantes de outras instituições federais no Brasil, onde a predominância de faixas de renda inferiores é mais comum. Dados comparativos de pesquisas anteriores mostram que a maioria dos estudantes dessas instituições frequentemente enfrenta uma renda familiar inferior a três salários mínimos, o que agrava os desafios financeiros (Sindicato dos Técnicos administrativos da UFRGS, UFCSPA e IFRS – Assufrgs).

Embora o perfil socioeconômico dos estudantes participantes indique relativa estabilidade, muitos ainda enfrentam desafios financeiros importantes. A percepção sobre o próprio conhecimento para gestão financeira apresentou uma média moderada de 3,51. Uma questão preocupante é o uso frequente do cartão de crédito, que obteve uma média elevada de 4,15, evidenciando uma forte dependência dessa modalidade. Essa prática pode ser explicada por fatores como a facilidade de acesso ao crédito, o incentivo ao consumo digital e a necessidade de complementar a renda para despesas diárias. Dados do Banco Central mostram que, entre 2019 e 2022, o número de usuários de cartão de crédito cresceu 30,9% (Agência Brasil), refletindo uma tendência que também afetou o comportamento financeiro dos estudantes.

Embora o cartão de crédito tenha conveniência, seu uso descontrolado pode trazer riscos financeiros significativos, especialmente devido aos altos juros associados ao crédito rotativo. Entre os impactos negativos estão a dificuldade em controlar gastos, a geração de preocupações financeiras constantes e a limitação da capacidade de planejamento futuro. Essas consequências não apenas comprometem a saúde financeira dos jovens, mas também afetam seu bem-estar psicológico, dificultando o acesso a novas oportunidades e a estabilidade econômica necessária para um desenvolvimento pessoal e profissional.

O controle financeiro também mostrou inconsistências: 3,21 foi a média para a prática de anotar gastos, e o desvio padrão alto para essa pergunta indica comportamentos diversos entre os estudantes. Já a média de 2,16 na inscrição em programas de proteção ao crédito, como o SPC, evidencia que, embora muitos estudantes consigam evitar situações de inadimplência, ainda existem aqueles que enfrentam problemas com dívidas.

No que tange à qualidade de vida, os estudantes demonstraram uma percepção positiva sobre suas relações pessoais, com uma média de 3,89. Porém, preocupações financeiras cotidianas ainda persistem, com uma média de 3,12, apontando para a relevância do tema na vida desses jovens.

Um dado interessante é que o perfil solteiro parece influenciar diretamente o comportamento financeiro dos estudantes, pois os solteiros tendem a priorizar gastos com lazer, cultura e experiências pessoais, segundo a InfoMoney. Essa característica é relevante para o estudo, pois reflete uma mentalidade financeira que privilegia a satisfação imediata, o que pode dificultar a formação de hábitos de poupança e planejamento financeiro a longo prazo. Tal comportamento impacta a qualidade de vida, já que uma gestão financeira inadequada pode aumentar o estresse e limitar oportunidades futuras. Tal tendência foi confirmada na pesquisa, na qual muitos estudantes relataram maior alocação de recursos em atividades que proporcionam satisfação imediata.

O equilíbrio financeiro ainda é um desafio. A dependência do cartão de crédito e a falta de hábitos consistentes de reserva financeira indicam a necessidade de intervenções que incentivem a educação financeira. A compreensão sobre finanças não é apenas uma questão de equilíbrio monetário, mas também de qualidade de vida, uma vez que a estabilidade financeira contribui para a redução do estresse e promove um maior bem-estar.

Com base nesses achados, conclui-se que a educação financeira não deve ser vista apenas como uma habilidade técnica, mas como um fator que pode transformar a forma como os estudantes gerenciam suas vidas e seus sonhos. Melhorar o conhecimento e os hábitos financeiros dos jovens é importante para garantir não apenas uma boa saúde financeira, mas também um futuro mais equilibrado e feliz.


Júlia Henrique Leite é administradora pela UFRGS e atua na área de finanças. 

O trabalho de conclusão de curso que deu origem a este artigo foi orientado por Cristian Rogério Foguesatto.


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