Cristiane Matté: as vias de um caminho só

Câmpus Centro | Pesquisadora relembra sua trajetória pela Bioquímica e comenta sua vocação para a docência

*Foto de capa: Cristiane-Matté-a-partir-de-sugestão-de-Flávio-Dutra

Antes dos louros da pesquisa acadêmica, Cristiane Matté foi uma criança que, em lugar de sonhar com as fantasias comuns da infância, imaginava seu futuro em um local com a sua mágica própria: a sala de aula. Natural do “interior do interior de Caxias”, como define, a hoje doutora em Ciências Biológicas tomou gosto pelos encantos da docência desde a mais tenra idade, apesar de enfrentar certa resistência dos pais ao revelar seu desejo de tornar-se professora. Seu fascínio pelas ciências naturais, como Química e Biologia, a puseram no caminho da graduação em Farmácia.

Para quem veio “do meio do mato”, novamente parafraseando sua própria descrição, a oportunidade de ingressar na UFRGS representou uma guinada a um destino melhor: de repente, desbravar uma metrópole como Porto Alegre e inserir-se no meio acadêmico deixa de ser uma projeção inatingível e transforma-se em algo palpável e possível. “Meus pais nunca tiveram muitas condições financeiras, então eu via que a única forma de mudar minha realidade era ser uma aluna da Universidade Federal”, comenta. Cristiane adentrou as edificações da UFRGS pela primeira vez em 2000 e, desde então, dedicou mais de duas décadas a perseguir o conhecimento na área de Bioquímica.

Como estudante, logo cedo agarrou a oportunidade da iniciação científica. Já no segundo semestre, começou a frequentar os laboratórios de bioquímica da Universidade, quando se certificou de vez que sua paixão estava mais para os béqueres e pipetas do que para os balcões de farmácia.

“No início, começou cálculo, matemática, física, eu pensei: ‘Gente, me enganaram!’, mas foi no laboratório que eu achei tudo o que eu queria: a química, a biologia e a possibilidade de ser professora”

Cristiane Matté

Hoje, com uma carreira sólida como pesquisadora com ênfase em metabolismo e neuroquímica, Cristiane ainda sofre com o descaso que costuma ser dedicado à ciência, especialmente quando se trata de investimentos e infraestrutura. Em 2011, a então professora adjunta foi agraciada com o prêmio L’Oréal para Mulheres na Ciência por seu trabalho de investigação dos benefícios do exercício durante a gravidez. O montante de 30 mil reais da condecoração subsidiou o início de carreira da jovem, que transitou abruptamente da cadeira de aluna para a cátedra de professor. “Quando a gente começa como professor, a gente tem muitas dificuldades. Tu é aluno num dia e no outro tu tem um laboratório vazio. De um dia para o outro é tu que tem que inscrever todos os projetos, submeter aos editais, trazer dinheiro para o laboratório”, assegura Cristiane. 

Da serra gaúcha às províncias canadenses

Cristiane trilhou o caminho da pós-graduação em 2005, quando realizou concomitantemente a especialização em análises clínicas e o mestrado em Ciências Biológicas. Depois, obteve o título de doutora em 2009. O próximo projeto era aventurar-se pelas terras além-mar – durante o doutorado, Cristiane solicitou uma bolsa ao CNPq para estudar no exterior, mas não obteve sucesso. A espera acabou valendo a pena. Em 2019, a pesquisadora viajou como professora visitante à McGill University, instituição localizada em Montreal, Canadá.

Na província francófona de Quebec, Cristiane teve acesso a laboratórios de ponta reconhecidos por sua excelência. Lá, trabalhou com o professor Moshe Szyf, referência mundial em epigenética comportamental, inclusive experimentando o método de edição do genoma CRISPR (da sigla em inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas), razão da concessão do Prêmio Nobel de Química em 2020 às pesquisadoras Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna.

“Acabei nesse ano aprendendo sequenciamento de DNA, metilação de DNA; trabalhei com equipamentos e reagentes que aqui no Brasil são completamente inacessíveis tanto por custo quanto por localização”

Cristiane Matté

A pesquisadora ressalta que ainda não conseguiu aplicar as técnicas que aprendeu no período de estudos no Canadá por falta de condições estruturais.

Mas nem tudo são flores no solo gelado do norte das américas. “Situações que a gente vive aqui no Brasil de machismo em ambiente de trabalho, esse tipo de coisa também acontece lá”, conta.

A UFRGS de Cristiane

“Se tivesse um lugar que eu diria: ‘Isto é a minha UFRGS’, esse lugar seriam os vitrais do ICBS”, afirma Cristiane, apertando as mãos ao falar da magnificência das vidraças que ornamentam o prédio que está em pé desde 1924. A UFRGS da pesquisadora é um espaço que difere muito da Universidade que vivenciamos nos tempos de pandemia: é um lugar de afetos e neuroses, vidas em movimento. Vinte e um anos depois de ingressar na Universidade, os olhos esverdeados de Cristiane banham-se de lágrimas ao considerar que sua segunda casa atualmente reside apenas na lembrança.

“A memória que a gente tem da UFRGS vai ficar no passado; a UFRGS que a gente vai ter no pós-pandemia não vai ser mais a mesma”

Cristiane Matté

Preocupada com o bem-estar da comunidade estudantil, a professora lamenta não poder mais acompanhar presencialmente a trajetória de seus alunos. Diz, ademais, que é capaz de identificar as angústias de seus pupilos pelo olhar, pelas expressões gestuais, pela linguagem corporal. “[No ensino remoto,] tu vê um pedaço da pessoa só, e isso não diz tudo sobre como ela tá se sentindo. Eu sempre fui de pegar o aluno pela mão, de dizer: ‘a gente vai chegar ao final do semestre’; esse tipo de coisa não tem mais. Às vezes o aluno desaparece da disciplina, e tu não tem mais como resgatar as pessoas”, conclui. 


A SÉRIE MINHA SAUDADE NA UFRGS É UM PROJETO CONJUNTO ENTRE O JU E A UFRGS TV. CONFIRA ABAIXO A REPORTAGEM EM VÍDEO: