Uberização do trabalho

*Publicado na Edição 225 do JU

Empregos | As novas configurações das relações de trabalho trazidas pelos aplicativos configuram um processo de precarização
Bruno Souza realiza entregas de encomendas feitas por aplicativos no centro de Porto Alegre (Foto: Flávio Dutra/JU)

Com um simples clicar de botão, os softwares direcionam a oferta e demanda mercadológica, guiando motoristas e entregadores de aplicativos para quem requisita seus serviços. Desenvolvidos sob um novo espectro funcional, estabelecem novas relações de trabalho e modificam a ideia de chefe e empregado.

O termo uberização foi cunhado para caracterizar essa nova forma de gerenciamento e organização do trabalho. Embora o nome remeta a uma empresa, expõe uma tendência que perpassa o mundo do trabalho e que, de forma global, vem atingindo diversas ocupações. Para além das recentes ferramentas digitais, esse processo é remanescente de décadas de flexibilização trabalhista e vem, cada vez mais, tomando espaço.

A pesquisadora Ludmila Costhek Abílio, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, explica que o cerne dessa nova forma está na possibilidade de transformar o trabalhador em um nanoempreendedor de si próprio. “Esse nanogerente passa a estar desprovido de qualquer direito, proteção ou garantia. Ao mesmo tempo, ele passa a arcar com uma série de riscos dessa atividade”, ressalta.

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De acordo com a pesquisadora, a reforma trabalhista de 2017 auxiliou no avanço desse modelo gerencial. “Ela desconsidera que 50% do mercado de trabalho está na informalidade e promove uma informalização dentro do mercado formal.” Ludmila acredita que vários elementos dessa legislação eliminam mediações e proteções ao trabalho e viabilizam cada vez mais a ideia do trabalhador just-in-time, ou seja, o motorista pode ficar dez horas esperando uma corrida, mas esse tempo não é compreendido como de trabalho. “Você trata esse trabalhador como se ele fosse um fator de produção, utilizado no momento em que precisa ser acionado. Depois é desligado”, complementa.

Constantemente avaliados, para esses trabalhadores a antiga figura do patrão se esvaiu; agora eles respondem a uma massa invisível que os qualifica e julga, opinando sobre cada ponto desempenhado. O aplicativo se coloca como um mediador, como uma presença distante que apenas propicia o encontro entre motoristas e passageiros – de fato, em nota, a Uber já elucidou tal postura com a seguinte afirmação: “É importante esclarecer que não é a Uber que contrata os motoristas, e sim eles que nos contratam”. A ausência de um dirigente único a quem eram direcionadas as reivindicações e com quem se dava o diálogo dificulta a organização e a estruturação de movimentos sindicais.

O professor Cotanda analisa que, no momento, ainda há muito encantamento com a autonomia que, a seu ver, é, na verdade, uma autonomia instrumental. “Quem controla os preços é o aplicativo; o motorista não exerce nenhum controle. É uma ilusão achar que é um empreendedor como um capitalista tradicional. O que existe é uma relação de subordinação ao aplicativo.”

Ludmila entende que a perspectiva governamental favorece esse modelo de trabalho. “Quando o presidente se elege, uma das primeiras coisas que ele fala é que o modelo do mundo do trabalho deve ser o trabalho informal. Isso que ele está falando não é uma besteira, é um projeto’’, pontua.

Emerson Trindade Acosta e Melani Ruppenthal

estudantes de Jornalismo da UFRGS