O que é Paleontologia?

O termo Paleontologia vem do grego, sendo formado por três diferentes elementos: palaios = velho ou antigo, ontos = ser, logos = estudo. Ou seja, podemos dizer que a Paleontologia é o estudo dos seres antigos. Mas o quê isto realmente significa?

Nosso planeta tem cerca de 4,6 bilhões de anos de existência e desde então está em constante transformação. Os seres que habitam a Terra atualmente nem sempre existiram. Eles são descendentes de organismos que, assim como o nosso planeta, passaram por grandes mudanças ao longo do tempo. A Paleontologia é a ciência que estuda esses seres antigos, sua anatomia, seus hábitos de vida, como interagiam entre si e com o ambiente, de que forma morreram e se preservaram e como se relacionam com os seres atuais.

Mas se esses seres já não estão mais aqui, como conseguimos estudá-los? Para obter as informações sobre os seres do passado, a Paleontologia se utiliza de algo chamado fóssil. Fósseis são restos ou vestígios de seres vivos que viveram há milhares, milhões e até bilhões de anos e foram preservados de alguma forma, geralmente em rochas. Costumamos associar fósseis a ossos, já que os seres antigos mais famosos são os dinossauros e os materiais fósseis mais abundantes desse grupo são, de fato, ossos. Porém, existem fósseis de diversas naturezas, como troncos e folhas de plantas, carapaças, conchas, dentes, ovos, fezes, pegadas, etc.

Fóssil de crânio de Prestosuchus chiniquensis. Foto por Arielle Both Gazzana, 2019

É importante ressaltar, entretanto, que nem todo ser vivo que morre vira um fóssil. A fossilização é um evento extremamente raro e necessita de condições específicas para ocorrer. Os fósseis são preservados em um tipo específico de rocha, denominado de rocha sedimentar. Essas rochas são formadas por sedimentos, fragmentos de outras rochas que se depositam em um determinado local. Alguns exemplos de sedimentos são as areias e argilas. Os organismos que, ao morrerem, são rapidamente soterrados e cobertos por esses sedimentos possuem uma chance maior de serem fossilizados e permanecerem preservados nas rochas. Quanto mais o organismo fica exposto após a morte, maior é a possibilidade de que ele sofra com a ação de seres decompositores e até fatores como chuvas, calor e pisoteios, que podem desagregar e destruir seus restos, diminuindo sua chance de preservação.

A Paleontologia é uma ciência que está na interface entre a Biologia e a Geologia. O estudo da anatomia, biomecânica, fisiologia, sistemática e evolução dos seres e suas relações ecológicas é pautado nos princípios das ciências biológicas. Porém, tais informações estão preservadas nas rochas, objeto de estudo da Geologia, que vai fornecer dados dos ambientes em que os fósseis foram preservados e os processos de transformação do material orgânico que geraram o registro fossilífero. É essencial que o estudo paleontológico considere as visões dessas duas ciências para que possa compreender de forma mais completa o registro fossilífero e suas implicações no conhecimento da evolução dos seres vivos através do tempo.

Como ciência, a Paleontologia se desenvolveu principalmente durante os séculos XVII e XVIII. Fósseis já eram estudados desde a idade antiga e diferentes hipóteses para a sua existência foram propostas, porém foi o trabalho de Georges Cuvier com anatomia comparada que possibilitou o entendimento de que aqueles eram organismos que haviam existido em um determinado período de tempo e acabaram extinguindo-se. No decorrer do século XIX, a paleontologia tornou-se cada vez mais organizada como ciência; as pesquisas nesse campo aumentaram substancialmente, o que possibilitou um registro fossilífero mais completo, auxiliando no desenvolvimento de ideias como a Teoria da Evolução por Seleção Natural e a dimensão do tempo geológico profundo, conceitos base para a paleontologia atual.

O desenvolvimento da Paleontologia como uma ciência metodologicamente organizada e com um objeto de estudo definido possibilitou o surgimento de subdivisões no seu campo de pesquisa. Diversos são os grupos de seres vivos representados no registro fossilífero e diversas são suas características de preservação, natureza do material, modo de coleta, preparação e objetivo da pesquisa. Portanto, a Paleontologia é dividida em algumas áreas de pesquisa, geralmente relacionadas ao grupo fóssil estudado. Algumas das principais áreas da Paleontologia são:

  • Paleontologia de Vertebrados
  • Paleontologia de Invertebrados
  • Paleobotânica
  • Micropaleontologia

Em suma, a Paleontologia é uma ciência extremamente importante, pois é a chave para a compreensão da história da vida na Terra e a sequência de eventos que levou a existência da nossa biodiversidade atual. É uma janela para os diversos mundos que existiram em nosso planeta e para os seres que neles habitaram. A paleontologia nos permite conhecer uma escala de tempo geológica, que vai muito além de nossa simples percepção. É uma ciência que exige interdisciplinaridade e que se beneficia dos dados do mundo todo para montar o quebra-cabeça que é a história da vida. A Paleontologia é a ciência que nos mostra que nossa realidade atual, ecológica, geográfica, biológica, aquilo que um dia nos pareceu estabelecido, estático, na verdade está em constante transformação, é uma porção ínfima do que já foi e do que ainda vai ser.

Materiais de Referência

BENTON, Michael J.; Harper, David. A. T. Introduction to Paleobiology and the Fossil Record. 1.ed. Nova Jersey: Wiley-Blackwell, 2013. 608 p.

CASSAB, Rita de Cassia Tardin. Objetivos e Princípios In: CARVALHO, Ismar de Souza (Org.). Paleontologia – Volume 1: Conceitos e Métodos. 3.ed. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 2010. 756 p.

SIMÕES, M. G.; RODRIGUES, S. C.; SOARES, M. B. Introdução ao Estudo da Paleontologia. In: SOARES, M.B.(Org.). A paleontologia na sala de aula. Ribeirão Preto: Sociedade Brasileira de Paleontologia, 2015. p. 17-31.

Sobre o autor

Lucca Cunha é licenciando em Geografia na UFRGS e atua como bolsista de iniciação à popularização da ciência no programa Ciência na Sociedade, Ciência na Escola da Propesq. Também atua como voluntário no Laboratório de Paleovertebrados do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS.

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Sobre o autor

Heitor Francischini é licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Carlos. Mestre em Geociências (Área de Concentração: Paleontologia; 2014) e Doutor em Ciências (Área de Concentração: Paleontologia; 2018) pelo PPGGeo-UFRGS. Durante o doutorado realizou período sanduíche no New Mexico Museum of Natural History and Science (em Albuquerque, EUA) e, durante a graduação, realizou intercâmbio na Universidad de la Republica (em Montevidéu, Uruguai). Atualmente é Professor Adjunto A da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ministrando as disciplinas Paleontologia Aplicada à Biologia, Paleontologia II e Paleontologia de Vertebrados para os cursos de Ciências Biológicas (Licenciatura e Bacharelado) e Geologia. Possui experiência com os seguintes temas: Paleontologia, Paleobiologia e Paleoicnologia, com ênfase no registro de vertebrados continentais do Paleozoico e Mesozoico, principais temas de sua pesquisa. É membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia