O Dicionário Oxford de Arte lembra que Barroco é um termo aplicado na história e na crítica das artes como substantivo e como adjetivo. Segundo a mesma fonte, a palavra tem uma história longa, complexa e controversa (é possível que derive de uma palavra portuguesa designativa de uma pérola malformada; até o final do século XIX, era de modo geral usada como sinônimo de “absurdo ou “grotesco”), mas possui hoje três significados principais. Em primeiro lugar, designa o estilo dominante da arte européia do período compreendido entre o Maneirismo e o Rococó, e cujas características discutiremos mais abaixo. Em segundo lugar, é usada como um rótulo geral para o período em que esse estilo floresceu, isto é, o século XVIII. Daí a existência de expressões tais como “a era barroca”, “a política barroca”, “a ciência barroca”, etc. Esse uso, porém, mais confunde do que esclarece, visto que aquilo que os historiadores da literatura denominam “Barroco” apresenta com freqüência certas características que o historiador da arte associaria ao Maneirismo. Em terceiro lugar, o termo é usado como adjetivo, aplicado à arte de qualquer época e lugar que apresente as qualidades de movimentos vigorosos e intensidade emocional que são associadas à arte barroca em seu primeiro significado. Grande parte da escultura helenística poderia ser assim qualificada de “barroca”. O antigo sentido da palavra, como sinônimo de “fantasioso”, “demasiadamente elaborado”, ou “floreado”, é ainda utilizado em alguns meios, mas não pela crítica especializada. O Barroco originou-se na Itália, e as características que exporemos a seguir derivam principalmente do estilo que lá se desenvolveu plenamente em meados do século XVII. Certas adaptações fazem-se necessárias quando passamos a considerar outros países da Europa, ou quando consideramos a arte barroca já de certo modo amalgamada com outros estilos e aspirações.
Apesar de uma certa falta de reticência, o Barroco é um estilo que expressa uma preocupação com o equilíbrio e, acima de tudo, com a totalidade. Giovanni Bellori (1615–1696), referindo-se ao afresco de autoria de Giovanni Lanfranco (1582–1647) situado na Igreja de S. Andrea della Valle, em Roma, escreveu: “[...] esta pintura foi, com muitas propriedade, comparada a um coro, no qual o conjunto das vozes constitui a harmonia; pois não são as vozes particulares que se distinguem, mas sua combinação, e a medida e a substância total do canto”. Essa passagem expressa de forma sintética a qualidade do projeto barroco em todas as suas formas. A ênfase coloca-se sobre o equilíbrio, através da harmonia das partes em sua subordinação ao conjunto. Nesse particular, o estilo difere do ideal renascentista, de um equilíbrio entre partes perfeitas entre si; está, porém, mais ligado a esse ideal (e também ao classicismo do século XVII) do que ao Maneirismo, por vezes exageradamente desproporcionado, ou à nervosa fragmentaridade do Rococó. Essa aspiração a uma grande unidade (que, entretanto, não exclui um clímax interno da obra) tem como efeito a adequação da pintura e da escultura às necessidades do conjunto arquitetônico a que servem. As propriedades distintas que se supõe serem inerentes a cada uma das três artes podem ser deliberadamente unificadas com vistas a uma harmonia mais completa. Mesmo em se tratando de apenas uma dentre essas três expressões, não é incomum que a arquitetura, por exemplo, mascare sua inércia e assuma algo da flexibilidade e da plasticidade da escultura, ou que ambas explorem as potencialidades expressivas do chiaroscuro de um ponto que seria mais imediatamente associado à pintura. Mas uma vez, porém, a finalidade harmônica impede que a virtuosidade técnica característica do artista barroco degenere em exibição pura e simples.
A totalidade barroca não se resume a uma unidade formal e auto-suficiente; como uma peça de teatro (e, diga-se, o estilo estava intimamente ligado à idéia de espetáculo), a unidade plástica não se completa sem a presença de seus espectadores. É típico das obras barrocas que empreguem vários meios para ativar a participação corporal, e logo emocional, do observador. A pintura e a escultura, para atingirem tal objetivo, necessitam, antes de mais nada, criar a ilusão da realidade dos temas representados. A figuração barroca está, assim, ligada a uma preocupação com a realidade das aparências, ou, no mínimo, com a verossimilhança. Apega-se à substância, às cores e às texturas das coisas; cria-se um espaço no qual tema e espectador podem unir-se num momento temporal específico e por vezes dramático. Essa emergência física do Barroco é obtida de modo particular pelo uso calculado da luz e da sombra, do cheio e do vazio, de curvas ou diagonais marcadas, pela quebra das expectativas e dos planos. A expressão da substância pelo uso da cor e dos contrastes de luz (picturalidade) é o que distingue o estilo barroco das preocupações lineares do Maneirismo e do Rococó; a confiança na força de suas afirmações distingue-o de maneira ainda mais clara do insinuante caráter decorativo deste último.
Ainda que a identificação do Barroco como “le style jesuite”, anteriormente comum, tenha sido abandonada, é não obstante um fato que o estilo floresceu mais nos países fortemente atingidos pela Contra-Reforma, em especial Itália, Espanha, Áustria e Alemanha meridionais. Não teve raízes profundas na Europa setentrional (e mal atingiu a Holanda e a Inglaterra protestantes), muito embora tenha sido Peter Paul Rubens (1577–1640) o supremo mestre da pintura barroca, e ainda que o exemplo mais espetacular do ideal barroco de unidades das artes seja o Palais de Versalles, onde a arquitetura, a escultura, a pintura, as artes aplicadas e o projeto paisagístico unem-se para criar um todo estonteante. O artista barroco arquetípico foi Gianlorenzo Bernini (1598–1680), um homem dotado de energia ilimitada e de extrema virtuosidade, cuja obra revela uma complexa convicção espiritual.
CHILVERS, Ian. [Verbete, Barroco, extraído do] Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 43–44.