ARTE ENTRE OS SÉCULOS XIV e XVIII


Jan VERMEER
(1632–1675)


Dick van BABUREN (1595-1624)
A Alcoviteira, 1622
Óleo sobre tela
Boston Museum of Fine Arts

Jan VERMEER
A Alegoria da Fé, 1671-74
Óleo sobre tela, 114,3 x 88,9 cm
Metropolitan Museum of Art, Nova York

Jan VERMEER
Vista de Delft, 1659-60
Óleo sobre tela, 98,5 x 117,5
Mauritshuis, Haia

Jan VERMEER
Cristo em Casa de Marta e Maria, 1654-55
Óleo sobre tela, 160 x 142 cm
National Gallery of Scotland, Edimburgo

Jan VERMEER
A Alcoviteira, 1656
Óleo sobre tela, 143 x 130 cm
Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden

Jan VERMEER
Jovem Adormecida à Mesa, 1657
Óleo sobre tela, 87,6 x 76,5 cm
The Metropolitan Museum of Art, Nova York

Jan VERMEER
O Copo de Vinho, 1658-60
Óleo sobre tela, 66,3 x 76,5 cm
Staaliche Museen zu Berlin, Berlim

Jan VERMEER
Mulher de Azul Lendo Uma Carta, 1662-64
Óleo sobre tela, 46,5 x 39 cm
Rijksmuseum, Amsterdã

Jan VERMEER
Senhora Escrevendo Uma Carta e Sua Criada, 1670
Óleo sobre tela, 71 x 59 cm
National Gallery of Ireland, Dublin

Jan VERMEER
A Rendeira, 1669-70
Óleo sobre tela, 24,5 x 21 cm
Musée du Louvre, Paris

Jan VERMEER
A Menina do Turbante/ Menina do Brinco de Pérola, 1665
Óleo sobre tela, 45 x 40 cm
Mauritshuis, Haia

TIZIANO Vecellio (1490-1576)
Ariosto, 1510
Óleo sobre tela, 85 x 70 cm
National Gallery, Londres

Jan VERMEER
O Geógrafo, 1668-69
Óleo sobre tela, 53 x 46,6 cm
Stäldelsches Kunstinstitut, Francoforte do Meno

Jan VERMEER
A Arte da Pintura, 1666-73
Óleo sobre tela, 130 x 110 cm
Kunsthistorisches Museum, Viena

Vida

Segundo Norbert Schneider (2010), em estudo monográfico sobre o artista, Vermeer, o segundo filho de Reynier Jansz e Digna Baltens, foi batizado em Delft em 31 de outubro de 1632. Estudou, possivelmente, com Carel Fabritius (1622-1654), que se formara na oficina de Rembrandt, em Amsterdã. No dia 20 de abril de 1653, casou-se com Catharina Bolnes, em Schipluy, com quem teve quinze filhos, sendo que quatro morreram ainda novos. A mãe de Catharina Bolnes, Maria Thins, possuía uma fortuna considerável e era proprietária de pinturas que assumiriam o papel de clave interpretandi (chaves interpretativas) nas obras de Vermeer, como A Alcoviteira, de 1622, de Dick van Baburen (1595-1624), e Cristo na Cruz, presente no plano de fundo de A Alegoria da Fé, de 1671-74. Outros elementos do cotidiano do artista podem ser encontrados nos quadros – a mesa de carvalho e as cadeiras estofadas em couro representadas ficavam em sua oficina.

Vermeer, nome fundamental do Barroco, não pintava para muitas pessoas (não vendia seus quadros nas feiras), mas sim para um número limitado de clientes como, por exemplo, para o padeiro Hendrick van Buyten e o impressor Jacob Dissius. Provavelmente, lucrava mais com a venda de quadros de outros artistas do que com de seus próprios. Ele atuou como comerciante de arte e conquistou fama como perito no assunto, tanto que participou de uma comissão de honra para avaliar a autenticidade de quadros venezianos adquiridos por Friedrich Wihelm, o eleitor de Brandeburgo, do negociante Gerard Uylenburgh (SCHNEIDER, 2010).

Em meados de 1670, Vermeer amargou a decadência financeira ocasionada pela perda das terras de sua sogra, Maria Thins, inundadas após a abertura dos diques, uma tentativa de defesa da Holanda contra a França (na época, ocorria um conflito entre esses países). Em 15 de dezembro de 1675, o artista faleceu em Delft. Após sua morte, Catharina Bolnes se viu obrigada a abrir mão de seus direitos sucessórios e a vender os quadros do marido. O maior comprador das obras foi Jacob Dissius. No leilão de 1696, o impressor já havia morrido, e os trabalhos de Vermeer atingiram um alto valor (SCHNEIDER, 2010).

Obra

A cidade natal de Vermeer, Delft, foi tema de pinturas, geralmente feitas por encomenda. Entre elas, destaca-se Vista de Delft, realizada entre 1660-61, e que foi, provavelmente, pintada no andar superior de uma casa devido ao ângulo de visão com o auxílio de câmara escura, que projetava a imagem sobre um suporte. No primeiro plano, observa-se uma linha diagonal formada pela margem do rio. Há predomínio de tons ocres e castanhos, com vermelho nos telhados. As edificações mais próximas estão sombreadas, entre as quais se identifica a Porta de Schiedam. Em contraposição, os edifícios ao fundo estão iluminados, destacando a Torre de Nieuwe Kerk, na qual se encontrava o túmulo de Guilherme I de Orange, símbolo da resistência holandesa ao império espanhol (SCHNEIDER, 2010). A opção no tratamento da luz parece, portanto, também ter uma conotação política.

No início de sua trajetória artística, Vermeer procurou explorar assuntos considerados elevados, para que pudesse ser admitido na guilda. O uso de determinados temas poderia comprovar a técnica e a instrução do pintor. Exemplo dessa fase é Cristo em Casa de Marta e Maria, de 1654-55, na qual representa a passagem do Evangelho de São Lucas em que Jesus prega na casa das duas irmãs e diz: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas, entretanto uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada” (Lucas 10, 41-42). Esse episódio era frequentemente representado na arte flamenga do século XVI e busca levantar questões a respeito da vida contemplativa e da vida ativa. A composição do quadro é triangular. A personagem da frente é Maria, que está descalça em sinal de humildade. Sua cabeça apoiada remete à contemplação e à melancolia. É perceptível o uso do contraste entre as cores, como branco e as cores das vestimentas (SCHNEIDER, 2010).

Vermeer muda de estilo com a passagem da pintura histórica para a pintura de gênero, marcada por A Alcoviteira, de 1656, possivelmente inspirada por A Alcoviteira, de 1622, de Dick van Barburen, pertencente à Maria Thins (SCHNEIDER, 2010). Essa obra pode ser incluída na subcategoria de pinturas de bordel, Bordeeltje. Na sociedade da época, um código moral cada vez mais puritano se estabelecia, e esse tipo de obra trazia consigo uma advertência contra desonestidade, roubos e devassidão. Nesse caso, o artista traz o tema do consumo do álcool e o descontrole da sensualidade, mas, segundo o ponto de vista de Schneider, o aspecto central seria que o amor pode ser comprado. Possivelmente, trata-se de um caso extraconjugal e a alcoviteira seria a mulher de negro.

Para os holandeses do século XVII, a ingestão de vinho leva à perdição da mulher e, geralmente, o desrespeito ao casamento. Em Jovem Adormecida à Mesa, de 1657, tem-se a representação de uma mulher que, pelas vestes, pode-se supor ser a senhora da casa, de uma mesa e da garrafa de bebida. O adormecer remete à idéia de preguiça e de negligencia com os deveres domésticos. Há elementos que fazem menção ao erotismo e à infidelidade da jovem, como o próprio vinho, o quadro de Eros mascarado na parede, a taça com os “frutos proibidos” e o ovo envolvido pelo tecido, que representaria a libido descontrolada (SCHNEIDER, 2010). Pode-se verificar uma composição piramidal ressaltada pelo tapete.

Mais uma vez o tema do álcool, agora associado à sedução, é encontrado em O Copo de Vinho, de 1658-60. Nesse quadro, as figuras estão em um plano mais distante do espectador e, possivelmente, o momento representado foi precedido por “divertimento musical”, devido à presença do alaúde. A janela está parcialmente aberta e contém o brasão de Jannetje Vogel, com símbolos retirados do “Livro de Emblemas” (1611) de Gabriel Rollenhagen, e a representação da Temperança – o esquadro indica boas ações; e o freio, controle (SCHNEIDER, 2010).

Outro elemento recorrente nos trabalhos de Vermeer é a carta. A correspondência ainda era um luxo e sua presença serviria para demonstrar seu conhecimento humanista e situações políticas contemporâneas. As mulheres lendo ou escrevendo cartas sugeririam que o tema seria o amor. Schneider diz que esses escritos seriam alvos de investigação naquele período, pois ou se tratariam de uma proposta de um casamento, ou se tratariam de um caso extraconjugal. No quadro Mulher de Azul Lendo Uma Carta, 1662-64, uma jovem aparentemente grávida lê uma carta em frente a uma janela, indicada pela luz. Ela usa pérolas, sinais de Soberba e de Vaidade e de que haveria um amante. A gravidez torna ainda mais grave a contradição moral da personagem. Em Senhora Escrevendo Uma Carta e A Sua Criada, de 1670, as figuras estão viradas na direção do espectador. A criada espera sua senhora, com pérolas, terminar uma carta que escreve às pressas. Na janela, tem-se, novamente, a alegoria da Temperança e, na parede, uma pintura de Moisés salvo das águas, que aludiria a casos amorosos secretos e o abando de crianças geradas por relações ilícitas (SCHNEIDER, 2010). A janela aberta representaria o contato com o mundo exterior.

A pintura holandesa seria uma ferramenta de crítica aos vícios sociais e a promoção de virtudes e valores propagaria, conforme as palavras de Schneider, um “código oficial de comportamento”. Desde a Idade Média, o trabalho com tecidos era considerado uma tarefa feminina, e uma mulher que se dedicava a isso era considerada virtuosa. Na obra A Rendeira, de 1669-70, uma jovem está plenamente concentrada na sua atividade. Também para pintar esse quadro, Vermeer parece ter feito uso da câmara escura devido à nitidez dos contornos da faixa da almofada, por exemplo. Ele aplicou a técnica do pontilhado em alguns elementos, como a almofada de renda de bilros.

Grande parte das pinturas de Vermeer esboça uma cena trivial, mas há aquelas que parecem ser retratos, como A Menina do Turbante/ Menina do Brinco de Pérola, de 1665. Schneider (2010) afirma que o pintor se inspirou no estilo de retrato de Ariosto, 1508-10, de Tiziano para a realização dessa pintura e que ele utilizou técnicas renascentistas para dar volume à figura, como o fundo neutro. O turbante era uma peça popular na Holanda, considerada exótica. Pode-se perceber que o artista usa a estratégia ilusionista dos holandeses para aproximar a figura do observador. As cores aplicadas são puras e contrastantes, como se observa no amarelo do casaco e no branco da gola.

Na obra de Vermeer, encontram-se referências às ciências. Um sinal de nível de instrução seria o mapa, presente em diversos quadros. A cartografia era uma ciência nova e muito valorizada. O Geógrafo, de 1668-69, é uma manifestação desse apreço ao conhecimento. Nessa tela, encontra-se um acadêmico absorto em seus pensamentos, iluminado pela luz exterior, que indica inspiração.

Uma obra diferenciada e muito famosa de Vermeer é A Arte da Pintura, de 1666-73. Nela está representada a musa da história, Clio. Para Schneider, o artista não procurava exaltar a atividade artística, mas sim fazer uma referência ao período histórico em que se encontrava – o início da Guerra Franco-Holandesa. Ele também faz uma homenagem à Casa de Orange, indicada por elementos, como a máscara em terracota de Guilherme I sobre a mesa (SCHNEIDER, 2010).

Vermeer inspirou diversos artistas no decorrer do tempo. Os impressionistas apreciavam, principalmente, certa dissolução da forma, efeito do uso da câmara escura, a escolha das cores e a economia de pormenores considerados desnecessários. Seus trabalhos foram elogiados por artistas como Cézanne e Vincent van Gogh.

Verbete elaborado por Andréia Carolina Duarte Duprat
Aluna do Bacharelado em História da Arte da UFRGS





Referência

SCHNEIDER, Norbert. Vermeer: A Obra Completa. Taschen, 2010.

Fonte das imagens

http://www.wga.hu/index.html