Fillippo Brunelleschi nasceu em Florença em 1377, mesmo lugar onde faleceu em 1446, e foi um dos pioneiros do Renascimento, juntamente com Donatello e Masaccio. Encontram-se dois textos de sua época sobre ele: “Vida de Fillippo Brunelleschi” (1480), de Antonio Manetti (1423-1497); “Tratado da Pintura” (1435), de Leon Battista Alberti (1404-1472). Era filho de um respeitável notário, Brunellesco di Lippo, e de Giovana degli Spini. Fillippo teve uma boa educação, comum em famílias burguesas da época: aprendeu a ler, a escrever e a geometria prática, essa última ensinada por seu amigo e matemático Paolo dal Pozzo Toscanelli. Ele não quis seguir a profissão do pai e, em 1398, prestou juramento na Arte da Seda, matriculando-se como ourives em 1404 (ARGAN, 1999). Entre 1400 e 1401, trabalhou no altar de San Jacopo, em Pistoia, as estátuas de Santo Agostinho e do Evangelista São João, e os bustos dos profetas Jeremias e Isaias.
Em 1401, foi aberto um concurso para a realização da segunda porta em bronze do Batistério florentino pelo Consoli dell’Arte dei Mercanti. Os concorrentes deveriam elaborar formellas, modelos das figuras em bronze, cujo tema seria o sacrifício de Isaac. Em sua formella, Brunelleschi dividiu a cena em dois: na parte inferior encontramos um burro e dois servos; na parte superior, a cena principal. As figuras se distribuem em uma construção piramidal, cujo ápice é constituído pela mão do anjo que detém a mão de Abraão e a cabeça desse personagem. Fillippo empatou com Lorenzo Ghiberti e deveria, portanto, trabalhar com ele, mas recusou-se a fazê-lo.
Em função desse concurso, Brunelleschi viajou com Donatello a Roma, a fim de observar as esculturas dos antigos. De fato, existem registros de diversas viagens dele para essa cidade até 1420 (ARGAN, 1999). Entretanto, não foram somente as estátuas que lhe chamaram a atenção; ele voltou-se também às edificações, nas quais identificou certa ordem nos membros e proporcionalidade – ele propôs a si mesmo redescobrir as antigas técnicas de construção. Segundo Argan, há “dois esquemas clássicos de representação do espaço, longitudinal e central, ou a perspectiva centralis (projetada sobre um plano) e a scaenographia (projetada sobre uma superfície curva)” (ARGAN, 1999, p.119), que foram usados separadamente até Brunelleschi.
É necessário salientar que não foi em Roma que se iniciara a formação artística de Fillippo. Suas referências iniciais estão na própria tradição toscana. Ele identificara influência clássica nos edifícios como San Pietro Scheraggio e em Santo Apostolo, que julgava serem carolíngios mas, na verdade, pertenciam à arquitetura românica toscana. O artista foi um crítico do que via em sua época, das “maneiras alemãs”; considerava uma decadência valorizar mais a decoração que a qualidade da edificação.
Outro exemplo de obra escultórica é o crucifixo em madeira de Santa Maria Novella confeccionado, possivelmente, entre 1418 e 1420, que seria uma resposta, ou melhor, uma crítica ao crucifixo de Donatello de Santa Croce. Fillippo desgostou do “realismo” do Cristo de Donatello e afirmou que parecia um camponês, em vez do homem perfeito com membros delicados que deveria ser. Já o Crucificado de Brunelleschi “é quase um cânone proporcional: o corpo possui a solidez afunilada de um tronco de coluna, entre os dois braços estendidos como arcos” (ARGAN, 1999, p.92).
A grande relevância de Brunelleschi para o Renascimento dá-se por ser ele o inventor da perspectiva com um ponto de fuga e elaborar toda uma forma inovadora de representar o espaço. Ele conhecia geometria linear, como já foi mencionado, por seus estudos com Toscanelli. Suas primeiras experimentações no campo visual seriam dois retábulos descritos por Alberti. Um deles tinha a figura do Batistério com prata brunida no lugar do céu e um furo em um ponto determinado. A idéia era observar a pintura através do furo com o auxílio de um espelho paralelo; assim, ver-se-ia o céu real refletido na prata. O recurso do espelho foi bastante usado pelos renascentistas, visto que a imagem refletida é inversa e qualquer assimetria é mais perceptível. No outro retábulo, pintou a praça da Signoria e o cortou nos contornos dos edifícios representados para que fosse observado o céu verdadeiro como fundo. O fato de não pintar o céu indica o interesse do arquiteto, não do pintor. Ele se interessava pelas coisas que ocupavam um lugar e que eram invenções, por isso os únicos objetos presentes são as construções. Além disso, definiu uma regra de visão, a perspectiva, “que valoriza a simetria e a proporção das partes”, e afirmava que “o valor da arquitetura não está na elegância e na variedade dos elementos, mas na clareza distributiva da estrutura” (ARGAN, 1999, p.89).
Foi no campo da arquitetura que Fillippo desenvolveu sua obra mais notável: a cúpula de Santa Maria del Fiore. Em 19 de agosto de 1418, foi aberto um concurso pela Corporação da Lã de modelos para cúpula da catedral, projetada por Arnolfo di Cambio no final do século XIII. Com a colaboração de Donatello e Nanni di Banco, Brunelleschi constrói o seu em alvenaria. O modelo original de Arnolfo não podia mais ser construído porque a técnica necessária, através de armações de madeira (cimbres), havia sido esquecida – não existiam artesãos capazes de executá-la. Isso ocorreu por que a principal demanda às Corporações tratava-se de elementos decorativos, não mais de construção. A Florença de Arnolfo apresentava mais diferenças em relação à de Brunelleschi, como a mudança no regime social, do comunal para senhorial. A cúpula hemisférica do projeto inicial procurava simbolizar a proteção oferecida pela Igreja aos cidadãos. A Florença do século XV é defendida pelo Estado. A nova cúpula ogival seria uma celebração dessa cidade-capital, “ampla para encobrir todos os povos da Toscana” (ALBERTI apud ARGAN, 1999, p.51).
Como resultado do concurso, Ghiberti e Brunelleschi deveriam trabalhar juntos e, novamente, ocorreram conflitos. Lorenzo, em quem os encomendantes do trabalho depositavam maior confiança, ficou responsável pelas correntes de ferro que uniriam as pedras durante a construção, e Fillippo, pelos andaimes e pela alvenaria. As correntes não resistiram, o que causou um grande prejuízo e levou à nomeação de Brunelleschi como “inventor e governador da cúpula maior” (ARGAN, 1999, p.84). No comando, ele estabeleceu uma clara distinção entre o trabalho do arquiteto e dos mestres-de-obras e operários. Esse posicionamento provocou uma greve entre os trabalhadores da obra. De qualquer forma, a partir daí ele pôde aplicar as inovações técnicas que pretendia.
O projeto da cúpula foi concebido de maneira que ela desse a impressão de levitar sobre o edifício. Como não era possível usar os cimbres, a construção deveria se auto-sustentar. A solução foi projetar duas cúpulas, uma externa e outra interna, uma calota dupla capaz de distribuir as forças peso dos muros e definir a forma – proporcional tanto ao interior como ao exterior. O formato ogival encontra razão na perspectiva, já que as linhas curvas convergem para o cume. Para Giulio Argan, “a maior novidade, o maior traço de gênio de sua invenção, está na concepção de todos os corpos da construção, da nave, dos braços e da abside, como elementos de uma construção central, e na tentativa de coordená-los plasticamente em volta da grande cavidade, ou massa, da cúpula” (ARGAN, 1999, p.99). No topo, a lanterna funciona como ponto de encontro das nervuras da cúpula e ressalta a composição de cheios e vazios, estabelecendo também o eixo de rotação de toda a estrutura.
A arquitetura civil de Brunelleschi possui o mesmo ideal da religiosa, que seria expressar os valores da sociedade florentina da época. Sua inspiração é o palácio toscano do século XIV, principalmente no que diz respeito às relações entre cheios e vazios, guiadas por um sentido rítmico. Isso pode ser visto no Palácio da Parte Guelfa. Já o Palácio Pitti consiste uma edificação que deve ser observada de certa distância. Segundo Argan, “esse edifício, protótipo do palácio senhoril do Renascimento, marca o momento mais elevado e ‘metafísico’ do pensamento espacial de Brunelleschi: o pensamento de uma arquitetura que tece seu plano ‘proporcional’ no limite último do espaço mensurável pela perspectiva, e que media – na sucessão de seus planos, na proporcionalidade de cheios e vazios, verticais e horizontais – a passagem entre os elementos opostos da terra e do céu” (ARGAN, 1999, p.128).
Fillippo Brunelleschi foi inovador em vários aspectos. Foi o primeiro a destacar o profissionalismo do arquiteto e seu trabalho intelectual, diferenciando dos trabalhadores das artes mecânicas, além de desenvolver novas tecnologias no processo de construção. A concepção dos seus projetos não partia de mera vontade individual, mas da necessidade do projeto e do ideal humanista e racional. Ao estudar os antigos, conseguiu recuperar seus esquemas construtivos, mas não os imita simplesmente – funde-os e cria algo novo. Sua busca era o resgate dos valores clássicos da moral e da ciência e a adaptação ao seu tempo, acrescentando os princípios da cristandade. Sua perspectiva evoca a contemplação, remetendo ao platonismo. O classicismo de Brunelleschi era ideológico, diferente do classicismo histórico de Alberti, que acabou prevalecendo.
Verbete elaborado por Andréia Carolina Duarte Duprat
Aluna do Bacharelado em História da Arte da UFRGS
ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: O Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Trad. Lorenzo Mammi. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
WEB GALLERY OF ART:
http://www.wga.hu/index1.html.
Acesso em: 26 de setembro de 2010.
THE MUSEUMS OF FLORENCE:
http://www.museumsinflorence.com.
Acesso em: 26 de setembro de 2010.